VI

Nisto uma chamma, e outra, e cento, e centos
Brotam-lhe em torno, as trevas arraiando;
Abrazam-se os minados monumentos;
Cresce o mal, cresce o damno, desabando
No rubro chão os rotos pavimentos;
Negro e espesso vapor, de quando em quando,
O espaço tolda, golpha nas verédas.
É tudo em pouco um mar de labaredas!
Soprando sobre a ardente cataracta,
Rijo aquilão o estrago faz mais breve,
E o hynverno boreal, veloz, desata
Dos rócheos hombros o lençol de neve.
Triumpha a morte; o horror o horror dilata;
O espirito a medil-o mal se atreve.
Que dôr! Que fim! Que circulo medonho!...
Tal foi o despertar qual fôra o sonho!
Inspira patrio amor delirio intenso.
Do rude Scytha a barbara energia
Faz do seu Capitolio um facho immenso,
(Funerea tocha em lugubre agonia!)
E brada ao vencedor tôrvo e suspenso:
—«Hospede vens: meu braço te allumia!»
Pressagio triste ao grande temerario!
O incendio, occaso! Os gellos, um sudario!
D'esse lume ao revérbero inimigo
Vê-se, na encosta qu'inda o sangue innunda,
Descendo, só, quem só contou comsigo;
E no extremo fatal (licção profunda!)
Como o padrão do Prometheu antigo,
Um rochedo surgir, que o mar circumda—
O mar, espelho azul da immensidade,
Cantico eterno á eterna liberdade!