GONÇALO

A patria é a familia das familias!—Se uma veneranda mãe chama por seus filhos em nome da honra commum, qual póde recusar-se? com que pretexto hade eximir-se?—Os affectos de familia! Quem é o desamparado que não tem alguma familia? Se essa razão prevalece, ninguem servirá. Mais que para qualquer, para nós, os que seguimos a profissão das armas, e a patria mãe rigida e imperiosa, mas amada sobre tudo. Ainda mais sua do que nossa é aquella honra que entregaram á nossa guarda. Que filho consente que a honra de sua mãe possa entrar em duvida?—Sr. Bocage, o pundonor do soldado não exige menos que a isenção do poeta. Um passo para ficar… (com os olhos no Commendador e Morgado) e não faltará quem diga que eu… eu, um militar, um portuguez, um neto de veteranos!… recuei diante dos perigos do clima, ou da azagaya dos cafres… A calumnia é a espada da hypocrisia… não tem outra. Haviam de dizel-o. (com resolução enthusiasta) Não o dirão… Podem os meus inimigos triumphar com o meu supplicio; não triumpharão com as minhas fraquezas. Ninguem dirá nunca de Gonçalo Mendo, que o viu hesitar… nem diante da catastrophe subita das mais justas esperanças!

BOCAGE (desesperado)

Não tenho palavras que o convençam? (indicando-lhe D. Maria Joanna) Veja se resiste áquelle rosto, áquella dôr, ás supplicas alli estampadas, á voz e ás lagrimas que mais do que eu o persuadirão.

D. MARIA JOANNA (descendo, triste e gravemente)

O que existe no mundo mais santo do que o amor puro de duas almas, que uma da outra vivem, que uma para a outra só querem viver? Ha distancia que lhes desate os laços? (crescendo em vehemente sensibilidade) Haverá golpe que lhes corte os vinculos? Não lhes são communs as alegrias? Não lhes são communs as penas? Não lhes é tudo commum? Póde alguem separal-as em sentimentos, quando foi o sentimento que as uniu, que das duas fez uma, quer para viver, quer para pensar, quer para soffrer? (Pausa. Com ponderativa energia.) É a mulher de um soldado a companheira de todos os seus perigos, de todos os seus trabalhos… e de todos os seus deveres. A gloria d'elle é unico desvelo, unico fito, unico enlevo d'ella. A obediencia, que é n'elle empenho, n'ella é culto… Cumpre que seja em ambos a resolução egualmente heroica. Se não póde acompanhal-o nos dias de batalha… póde esconder-lhe o pranto nos dias de provação!… (Pausa meditativa. Com subito e convulso esforço.) Vá, sr. Gonçalo Mendo… vá que eu espero-o!