MORGADO
Dizem que é um jesuita… dos que não trazem roupeta.
COMMENDADOR (severamente)
Sr. morgado, não repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se póde arrepender!—Quer verificar o resto da declaração? Conta n'ella a Simôa:—como estando já separada do marido a morgada da Torre da Palma, a filha della Simôa adoecéra;—como o capitão mór, em casa de quem a mesma Simôa nascêra e se criára, a reduzira a prometter-lhe que, se a creança morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de Carregueiros passassem a varão;—como o escudeiro Luiz Manuel fôra mandado administrar uma herdade da casa ao pé de Olivença, até á morte do Capitão-mór, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher ficava unica depositaria;—finalmente como a Simôa, levada das obrigações que devia á casa do Capitão-mór, tivera a fraqueza de ceder, e criára como sua a filha de D. Felicia, até que esta a mandou buscar já crescida cuidando ser a afilhada.—Está tudo claramente explicado, e devidamente datado e assignado.
MORGADO (subjugado)
Essa declaração passou das mãos da Simôa ás minhas… nunca a mostrei… nunca a larguei… Como é possível sem ser por artes sobrenaturaes…