COMMENDADOR

Tem innocencias!—Dei uma volta a Vayamonte. O cura é… É meu amigo. Não me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevêra. (sentando-se de novo) Como iamos dizendo… O morgado vae a sua prima… mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: «a supposta afilhada de sua tia D. Felicia é sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio Capitão-mór. Este papel e este segredo valem dois terços da sua riqueza. É a unica prova. Se quizer que tal prova desappareça, case commigo. Nada tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante rematado.» (Movimento do morgado) É tudo isto, é, morgado… e mais alguma coisa. (Como se proseguisse o discurso do morgado.) «Mas,—continuará,—rasgando este papel é como se lhe trouxesse em dote os vinculos de Fresnos e de Carregueiros.» O argumento conclue. Entra na ordem d'aquelles a que Cicero chamava: argumento premente. Ora como o tenente Gonçalo Mendo não é ainda coisa certa, e como ninguem perde de vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos, convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu poder a declaração, sem a entregar!… Era deitar tudo a perder!—Verdade, verdade; não vale quarenta mil cruzados?