FIM DA PRIMEIRA PARTE.
SEGUNDA PARTE
PERY
I
O CARMELITA
Corria o mez de março de 1603.
Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.
Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão alguns colonos e indios cathequisados.
Estava quasi a anoitecer.
Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a natureza nadava n'um oceano de fogo.
No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com elles, não deixava de ter alguma belleza.
Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.
O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até perder-se no matto.
Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que revelava o seu caracter.
Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o céo e a terra para obtê-lo.
Fr. Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava breve trazer ao gremio da igreja.
Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de empregar-se no trabalho das missões.
Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a Fr. Diogo do Rosario, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão Fr. Angelo di Luca.
Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.
—Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava deitado na rede.
—Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.
—E o tempo que vai fazer?
—Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?
—Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com semelhante borrasca.
O frade voltou-se:
—Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do céo, e a estes não ha abrigo que os salve.
Fernão Aines sorrio ironicamente.
—Crêdes isso, Fr. Angelo?
—Creio em Deus, irmão.
—Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum despenhadeiro.
—Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...
—Ora deixa fallar Fr. Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá seria a tempestade que zombaria de mim.
—Fernão Aines!... exclamou Nunes.
—Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.
O silencio se restabeleceu.
De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que havia defronte do pouso.
A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no fundo do alpendre.
Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.
O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque violento que soffrêra.
Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço, e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas palavras:
—Castigo do céo!
Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de confissão.
Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.
Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que ia gradualmente enfraquecendo.
—Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o meu crime.
—Fallai, irmão; eu vos escuto.
—Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor acolhimento.
«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo resultado seria grande riqueza para nós ambos.
«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que abrio-se inteiramente comigo.
«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.
«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.
«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.
«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»
O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz debil:
«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas, e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar silencio.
«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao menos lograr o premio.
«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que, necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus riscos e esperanças.
«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi o meu primeiro erro!...»
A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras balbuciadas pelo moribundo.
—Coragem, filho!
—Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...
—E... exclamou o frade com a voz surda.
E roubei o segredo!
O frade sorrio nas trevas.
—Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero que este papel lhe seja entregue... Prometteis, Fr. Angelo?...
—Prometto! O papel?...
—Está... occulto...
—Aonde?
—Nes... ta...
O moribundo agonisava.
Fr. Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.
—Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.
O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.
Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede, e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.
—Cruz!...
Fr. Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de páo tosca e mal lavrada.
Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que estivera.
Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de letras vermelhas, que rezava nestes termos:
«Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20 de janeiro, dia do martyr S. Sebastião, e terminado na primeira dominga de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de S. Salvador.»
Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção do penitente.
Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o braço, entregou-se á funda meditação.
Que pensava elle?...
Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma, que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando á luz do sol.
Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta, virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.
Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma sinistra; o peccador expirava impenitente.
Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro, e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.
Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.
O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta, deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.
—Consumatum est, irmão! disse elle com um tom compungido.
—Deus tenha sua alma!
—Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu ultimo voto, que é uma reparação...
—De um grave peccado?
—De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario, nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais novas de mim.
O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de Nunes partio.
Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios, descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.
O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:
—Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!
Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.
Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas rompesse o dia.
A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé, esfusiando por entre a palha.
O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já se illuminava.
Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o tempo estava sereno.
O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.
No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca.
Este aventureiro chamou-se Loredano.
Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo; isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.
Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de sua fé apostolica.
II
YARA!
Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do Paquequer.
O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, tornavão aquelle retiro pittoresco.
Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das aves concertava com o trepido murmurio das aguas.
Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da frescura deliciosa que alli se respirava.
D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova de Bernardim Ribeiro.
Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse folguedo um vivo prazer.
Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.
Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave painel que formava esse grupo de familia.
De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:
—Yara!
E um vocabulo guarany: significa a senhora.
D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro original.
De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela encosta.
O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.
A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da collina.
Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.
Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á morte, foi para D. Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento, que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que era toda a sua vida.
No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.
Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no perigo que já estava passado.
Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antonio, ainda pallido e tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um genio bemfazejo das florestas do Brazil.
O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a si proprio da morte.
Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, D. Antonio não se admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.
Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava de transformar de modo tão imprevisto.
D. Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças; Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de admiração sobre a moça que tinha salvado.
Por fim D. Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.
—De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.
—Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.
—Como te chamas?
—Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.
—Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça, conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a minha amizade.
—Pery aceita; tu já eras amigo.
—Como assim? perguntou D. Antonio admirado.
—Ouve.
O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves das florestas virgens, esta simples narração:
«Era o tempo das arvores de ouro.
«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de guerra.
«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:
«—Pai morreu; aquelle que fôr o mais forte entre todos, terá o arco de Ararê. Guerra!»
«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!
«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma guerra. Houve sangue, houve fogo.
«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na taba dos brancos uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.
«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.
Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos os guerreiros.
Sua mãi chegou e disse:
«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és forte como teu pai; tua mãi te ama.
«Os guerreiros chegárão e disserão:
«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.
«As mulheres chegárão e disserão:
«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.
«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.
«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a senhora dos brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.
«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.
«O fogo passou; a casa da cruz cahio.
«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e fallou assim:
«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a parte, como a estrella grande acompanha o dia.
«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra; todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a terra, e Pery não podia subir ao céo.
«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.
«Assim Pery ficou triste.
«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus olhos.
«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.
«Veio o tempo da guerra.
«Partimos; andámos; chegámos ao grande rio. Os guerreiros armárão as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.
«Vio passar o gavião.
«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.
«Vio passar o vento.
«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.
Vio passar a sombra.
«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.
«Os passarinhos dormirão tres vezes.
«Sua mãi veio e disse:
«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca tambem.
«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser amigo; e a filha da senhora para ser escravo.
«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou longe a tua casa grande.
«A virgem branca appareceu.
«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.
«Pery disse:
«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do sol, acompanhará a senhora na terra.
«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.
«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora ficasse triste, e voltasse ao céo.
«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és amigo.»
O indio terminou aqui a sua narração.
Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.
Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto reconhecia.
D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.
Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.
—Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.
—E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais aos filhos.
—Tu cearás comnosco.
—Pery te obedece.
A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia, acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.
D. Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas mãos do indio.
—É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu pai.
O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.
—Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.
A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.
O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, não sabia como se ter.
Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.
Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.
—Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.
—E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.
A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de Cecilia.
III
GENIO DO MAL
Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz.
O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.
Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.
Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz, da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente tratada.
Quanto a D. Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão. Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava assim, mas por prejuizos de educação.
Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antonio que estava no seu gabinete.
—Sr. D. Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas semanas, pede-vos audiencia.
—Manda-o vir.
Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se havia transformado o carmelita Fr. Angelo di Luca.
—Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?
—Ao contrario, Sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria ficar.
—E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.
—A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, Sr. cavalheiro; mas não é della que desejo fallar.
—Explicai-vos então.
—Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e filhos que lhe chegarão do Reino.
—Sim; já hontem me fallou disso.
—Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso inconveniente.
—Nem um absolutamente.
—Nesse caso posso considerar-me como admittido?
—Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.
—Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.
—Ide sempre.
O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto grotesca.
Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte introito:
—Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do Sr. cavalheiro D. Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em linha recta.
Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.
—Primo: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte natural.
O italiano fez um gesto de approvação.
—Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o Sr. D. Antonio vos mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai; porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres Gomes, lá ireis.
Loredano sorrio.
—Segundo: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...
—Com o vosso respeito, Sr. Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de continuar.
—Que quereis dizer?
—Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.
—Não obstante...
—Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.
E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o gabinete de D. Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor, resmungava:
—Não póde ser boa casta de gente?
Loredano apresentou-se a D. Antonio.
—Então? disse o fidalgo.
—Aceito.
—Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse naturalmente.
—Qual, Sr. cavalheiro?
—É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de toda a familia a que actualmente pertenceis.
O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a alteração da physionomia.
Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que vimos revelar-se um anno depois.
Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.
Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.
Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?
Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da grandeza?
Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antonio de Mariz.
Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.
Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as proporções de um projecto.
Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr. Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.
—Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.
No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução nas suas idéas.
Viu Cecilia.
A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da faisca sobre a polvora.
Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias, refluirão ao coração e o suffocárão um momento.
Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de sua vida.
Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.
Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.
Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de vela para a Europa.
Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro, tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade.
Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final.
Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder. Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D. Antonio de Mariz.
Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia pois até na hora extrema em que o papel devia fallar.
A confiança que tinha, e com razão, no caracter de D. Antonio tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito.
Eis como Fr. Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano, pertencendo á casa de D. Antonio de Mariz e preparando-se para realisar a final o seu pensamento de todos os instantes.
Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo.
Este sentimento foi a ambição.
Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da riqueza, a auri sacra fames que se havia apoderado delle proprio, no momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o devorava.
O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia.
Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera modificar a situação.
Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que servirão para o seguimento desta veridica historia.
IV
CECY
Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de D. Antonio de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.
O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, senão quando via de longe a D. Antonio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por elle alguma estima.
Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; D. Antonio suppunha já que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.
A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de S. Thomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.
Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco Fernandes Coutinho.
Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.
O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que lhe inspirava.
Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.
O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:
—Vinde ver Pery, que chega, meu pai.
—Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.
E acompanhando sua filha, D. Antonio foi ao encontro do indio que já subia a esplanada.
Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os pequenos habitantes desse ninho gracioso.
O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; alguns conseguirão escapar-se.
Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um fructo.
A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e delicadas!
Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as flôres na terra e as estrellas no céo.
Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os, aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno della.
Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente, era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D. Antonio de Mariz e disse-lhe:
—Pery vai partir.
—Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?
—Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.
D. Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de sua filha.
—Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse Cecilia.
O fidalgo traduzio a pergunta.
—Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi e seus irmãos.
—E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.
Ouvindo dos labios de D. Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e elle não estivesse junto della para salva-la.
—Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.
Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça.
Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés submissa, vencida, escrava!...
Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar.
As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.
Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.
Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.
—A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.
O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.
—Pery fica.
—Vêde, Cecilia, replicou D. Antonio rindo: elle te obedece!
Cecilia sorrio.
—Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.
—A senhora mandou, respondeu o indio.
—Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está satisfeita; consente que partas.
—Não!
—Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?
—Pery é escravo da senhora.
—Mas Pery é um guerreiro e um chefe.
—A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.
—Assim, decididamente queres ficar?
—Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore da floresta lhe servirá de abrigo.
—Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.
—Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.
—E o coração de ouro.
Emquanto D. Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse, ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.
Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:
«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas azas.
«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.
«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres trabalhão; ha vinho.
«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.»
A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa; encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a scena que passava na esplanada.
Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.
—Mãi!... exclamou elle.
—Vem! disse a india seguindo pela matta.
—Não!
—Nós partimos.
—Pery fica.
A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.
—Teus irmãos partem!
O selvagem não respondeu.
—Tua mãi parte!
O mesmo silencio.
—Teu campo te espera!
—Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.
—Porque?
—A senhora mandou.
A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora, que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecilia.
Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr de cobre.
—Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.
—Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu.
Pery abanou a cabeça com tristeza;
—Pery não voltará!
Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.
—O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha; tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.
—A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e mata tudo que se chega a ella.
Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.
—Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se lembraria de ti.
Os dous ficárão algum tempo em silencio.
—Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.
—E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?
Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e respondeu:
—Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os fructos da arvore.
A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão dos olhos de ambos se confundirão.
Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella. Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu pai; ficou.
Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta do rochedo, e que ia ser o seu mundo.
Passárão tres mezes.
Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.
Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o portuguez, afastava-se triste e humilde.
Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D. Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia, guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e pedia-lhe désse a Cecy, pois já não se animava a chegar-se para ella, com receio de desgota-la.
Cecy era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.
Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, reprehendeu-o com aspereza:
—Porque me chamas tu Cecy?
—Não sabes dizer Cecilia?
Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro letras, das quaes uma era o L.
—Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, porque não o dizes sempre?
—Porque Cecy é o nome que Pery tem dentro da alma.
—Ah! é um nome de tua lingua?
—Sim.
—O que quer dizer?
—O que Pery sente.
—Mas em portuguez?
—Senhora não deve saber.
A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciencia.
D. Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:
—Meu pãi, dizei-me o que significa Cecy nessa lingua selvagem que fallais.
—Cecy!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que significa doer, magoar.
A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, egoista e cruel.
—Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.
Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo fiel e dedicado.
—Chama-me Cecy, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.
V
VILANIA
É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns factos anteriores.
Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.
Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.
Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e incertezas.
Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.
O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia comprehender.
Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das duas moças.
Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus companheiros:
—Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...
E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.
—Esperai-me aqui.
—O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.
O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.
Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.
—Quereis que falle?... disse Loredano.
—É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.
O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:
—Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.
E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.
O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.
Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.
A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das arvores.
Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.
Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o receberia.
Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra traidores, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia com que o moço evitava uma sorpreza.
O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma destreza admiravel.
A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.
A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.
Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.
Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.
Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.
Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.
—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.
—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.
—Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.
—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.
—Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.
—Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da espada.
O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos injectárão-se de sangue:
—Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de fazer.
—É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu punhal, excellente folha de Damasco.
Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o talho de seu gibão de belbute.
De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu a mão esquerda em signal de tregoa.
—Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
—Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
—Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
—Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
—Que quereis fazer neste caso?
—O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não incommodará o outro.
—Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
—Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos tempo em palavras.
Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se distinctamente.
Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e prende-la de novo.
O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
—Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo louro de seus amores.
Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que esse segredo era elle.
Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria um resto de resentimento que talvez conservasse.
Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com altivez e seguio.
Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do italiano.
VI
NOBREZA
Alvaro ouvio um sibillo agudo.
A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o labio superior, sombreado pelo bigode negro.
O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez passos delle.
Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para crava-la no alto da cabeça do italiano.
Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão ao indio.
—Solta este miseravel, Pery!
—Não!
—A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de atirar sobre elle.
Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e apoiava a bocca na fronte do italiano.
—Ides morrer. Fazei a vossa oração.
Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra gozar.
Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
—Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á justiça de Deus.
Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de esperança.
—Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
—Juro! exclamou o italiano.
O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
—Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery para que o acompanhasse.
O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia profundamente.
Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para sacrifica-las todas á sua salvação.
Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que soubessem que estava ferido.
Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o italiano.
Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem possuia em grão tão elevado.
Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o cavalheiro.
Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria:
—Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o conseguiria.
Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao seu descanço, ao seu socego e felicidade.
O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do rio.
—Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela estima que me tens.
E o moço apertou a mão do selvagem:
—Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia em suas palavras.
—Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora contente.
—Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a ver.
—Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno que abre a flôr da noite.
—Pery!... exclamou Alvaro.
—Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á beira do Paquequer, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia me quer? disse o moço.
—Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
—Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
—Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
—E se eu não amasse a Cecilia?
—Impossivel!
—Quem sabe? disse o moço sorrindo.
—Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla negra irradiou.
—Sim? o que farias?
—Pery te mataria.
A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com effusão.
Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe com um tom commovido:
—Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
—Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
—Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do italiano; desta vez não lhe perdoára.
—Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, quando Pery segurou o braço de Alvaro:
—O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
—Mas quem é o inimigo da casa?
—Queres saber?
—De certo; como hei de combate-los?
—Tu saberás.
Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre a relva.
Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a força dos pulmões:
—Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve cá!
Pery não se voltou.
VII
NO PRECIPICIO
Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.
Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao braço.
—Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... disse o escudeiro resfolgando.
—Deixa! respondeu o indio sem se mover.
—Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua procura! Tinha que ver!
Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á presença de D. Antonio de Mariz.
Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.
Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.
Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!
Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não estava de accordo.
—Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.
—Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!
Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.
Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto mato.
—Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.
—E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.
—Pery vai longe!
—Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.
O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.
—Pery não quer que tu o sigas.
—Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de faca e calhão.
—Pery não manda duas vezes!
—Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.
Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.
—Quem te deo a ordem?
—D. Lauriana.
—Para que?
—Para te levar á casa.
—Pery vai só.
—Veremos!
O indio tirou a sua faca.
—Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.
—Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.
—Como?... Como é lá isso?
O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao selvagem.
Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se valentemente.
Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde a mais tenra idade.
Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um vime delgado.
—Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!
Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era assaltar o adversario pelas costas.
Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em que estava encostado.
Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu caminho placidamente.
—Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com lingua de palmo!...
Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.
Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava em baixo de sua janella.
A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava magoa-la.
Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse só.
—Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!
Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a chamarão ao seu proprio soffrimento.
Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.
O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, e um prazer que a fazia sorrir.
Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.
Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.
Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Pery.
Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existencia para ella seria de flôres.
Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.
Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão melancolica.
Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.
Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol.
Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera modificar a sua existencia.
—Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz.
Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a moça sentia por isso um pezar.
Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro endireitar isto, como elle dizia na sua linguagem simples.
Chegou-se ao fosso.
Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.
Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.
Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um arbusto.
Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objecto que ia procurar.
Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores chamárão candêa; tirou fogo, e começou a descer com o facho acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.
A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.
Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser vibradas.
—Pery!...
O indio levantou os olhos para ella.
—Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.
A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.
—Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que desejas.
—O que eu desejo?...
—Sim; Pery sabe.
A moça abanou a cabeça.
—Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.
—Quem te disse? perguntou a menina admirada.
—Os olhos de Pery.
—Tu viste?
—Sim.
O indio continuou a descer.
—Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.
—Buscar o que é teu.
—Meu!... murmurou melancolicamente.
—Elle te deo.
—Elle quem?
—Alvaro.
A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.
—Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!
—Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.
—Mas tu vais morrer!...
—Não tem medo.
—Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não desças.
O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para elle: cumpria-se irremissivelmente.
Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro da janella córando.
O indio sorrio.
—Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.
E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.
Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.
VIII
O BRACELETE
O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e horror.
De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis, lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos fios da têa.
No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no fundo do abysmo.
O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.
Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para salva-lo.
Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e descobrir o indio.
Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular chama lavandeira de Deus.
A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.
Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra ainda com a voz tremula e fraca:
—Pery!
No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:
—Espera, senhora!
Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.
—Estás ferido? perguntou inquieta.
Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.
Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de encontro á almofada da janella.
Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo escarlate.
Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com sofreguidão:
—Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!
O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.
—Tiveste medo, senhora?
—Muito! exclamou a menina.
O indio sorrio.
—Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.
O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.
Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.
Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e surda.
Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.
A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de Cecilia.
A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:
—Pery sente uma cousa.
—O que?
—Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.
—E porque sentes isto?
—Porque te acompanharião sempre.
Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.
Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este bracelete, trouxesse um presente dado por ti?
—Muito.
—E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina gracejando.
O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um adorno digno de sua senhora!
Cecilia teve pena do seu embaraço.
—Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.
Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.
Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.
Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu amor.
As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o coração, o queimão como o rescaldo da paixão.
Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as faces.
Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.
Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe gracioso.
Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de sua prima.
—Já te disse que não te quero vêr triste.
—Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.
—Que é isto? Faço-te medo?
—Não... mas...
—Mas, o que?
—Nada...
—Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de ti. Confessa!
—Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de tua amizade.
E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos devemos amar sempre?
—Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel admirada.
—Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.
—Não; perdoa; porém é que...
A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma idéa assaltou-lhe o espirito.
Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir amargamente.
—Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou entre nós; não é verdade?
—Tu o queres!
—Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença, accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter segredos para comigo.
—Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.
—Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?
—Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.
—E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes amar uma outra pessoa?
Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos de Alvaro fitos nos seus.
—Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas, minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!
—Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que soffras por minha causa; entendes?
—Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.
—Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!
—Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.
—Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.
Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.
—Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?
Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o mereço?
—Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.
—Porque?
—Porque elle te ama! murmurou Isabel.
A menina corou.
—Não digas isto, é falso.
—É bem verdade.
—Elle te disse?
—Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.
—Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me importa o que elle sente a meu respeito?
E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas voltou da porta.
—Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.
Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao braço de Isabel.
—Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te achará bonita!
Este bracelete!...
Isabel teve de repente uma suspeita.
A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.
—Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim, e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão agasto-me comtigo.
Isabel abaixou a cabeça.
—Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até logo.
E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.
A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as impressões tristes da manhã.
IX
TESTAMENTO
No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.
O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que se aproximassem.
Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.
Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas arrobas de polvora.
O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.
D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.
—Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos interessa e a mim antes do que a todos.
D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho fidalgo.
—Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á terra aquillo que veio da terra.
Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos illurdirmos a nós proprios.
D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.
—Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.
Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!
—De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda vida que vos deo o novo mundo.
—Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo; quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua ultima vontade, e fazer o seu testamento.
—O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido.
—Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas. Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento. Ouvi-me.
Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D. Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo com uma emoção de tristeza e respeito.
—Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou meu pai.
O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.
—A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.
Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os n'um mesmo olhar de amor paternal.
—Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.
D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.
—O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o titulo de sobrinha.
—Isabel?... exclamou D. Diogo.
—Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.
A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia despertado.
—Pobre mulher!... murmurou elle.
Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua emoção, voltou aos dous moços.
—Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço um juramento; basta-me a vossa palavra.
Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.
—Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.
—Assim o tinha entendido, disse Alvaro.
—Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das partes do meu testamento. Sabeis qual?
—A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.
D. Antonio apertou-lhe a mão.
—Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?
—Vi-o ha pouco.
—Ide e mandai-o a mim.
O moço retirou-se.
—Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.
D. Diogo obedeceu.
O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que fechou com um retroz e sellou com as suas armas.
D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo.
—Sentai-vos, minha mulher.
D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que ia praticar.
Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:
—Que queres tu dar-lhe?
A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um selvagem.
Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.
—Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.
—É necessario; eu te disse.
—Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.
—Impossivel!
—Que mal faz elle aqui?
—Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves crêr-me.
—Não vos agasteis!...
—Assim não te oppões?
Cecilia calou-se.
—Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e eu, porque lhe prometti.
—Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.
Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.
A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do cavalheiro.
Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu irmão D. Diogo.
—Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o fidalgo.
—Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.
—Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima?
—Sim; porque o disse e mostrou.
—Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste por elle, salvando sua filha?
—Se fosse preciso, sim.
—Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á tua tribu.
O indio estremeceu.
—Porque pedes isto?
—Porque assim é preciso, amigo.
—Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!
—Não!
—Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento: sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery não te custa nada.
Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana mesma parecia enternecida.
—Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa, se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana. Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.
—Porque então mandas Pery embora?
D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.
—Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a quem amamos, respeitamos e obedecemos.
—Sim.
—Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.
—O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.
Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar.
—Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas que Pery vá, senhora?
D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.
—Sim! balbuciou Cecilia.
O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.
O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira vez sente-se vencida pela dôr.
X
DESPEDIDA
D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:
—O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e de tua senhora e no meu.
O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e voltou-se para seu filho:
—Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos deixo a cumprir, meu filho.
—Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em satisfação dos meus proprios sentimentos.
—Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo onde nasceste.
Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não podião exprimir.
Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua senhora.
A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, e deitou-a no pescoço do indio:
—Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.
—Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.
Cecilia estremeceu.
O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não podia dominar a sua emoção.
—Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a alegria se partisse no fim da lua.
—Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.
—Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery estaria comtigo para defender-te.
—Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.
—Sim: podes contar.
E por quem?
—Pelo Aymoré.
—E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar desconfiado.
O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.
—Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e caminharem para sua tribu.
—E tu o que fizeste?
—Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.
O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.
—É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e meus.
O indio sorrio tristemente.
—Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.
D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.
Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que apparecia no saio de algodão do indio.
Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado a solução de um difficil problema.
—Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.
Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, e viu que estavão descarregadas.
O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio com admiração profunda.
—Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.
O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e confuso, parecia um criminoso em face do juiz.
—Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.
—Falla.
—Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no banho?
—Foi Pery.
—Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?
Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.
—Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos selvagens?
Pery não respondeu.
—É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.
—Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.
O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.
—Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.
Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse com um tom supplicante:
—Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo embora, depois do que fez por mim?
—Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e para sempre.
Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos labios de D. Antonio.
—Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi não estivera?
D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.
—Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho tambem a minha divida a pagar.
O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe estendêra.
Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, e seguiria o exemplo que lhe dava.
Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou estupefacto.
O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.
Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do Paquequer. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande corpulencia.
Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa em que atravessou para a margem opposta.
Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento cerrou-lhe o coração.
D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que se tinha mostrado tão severo com seu filho.
Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte presentimento.
Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á casa.
Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não queria assustar sua mulher.
O mais já sabemos.
Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.
Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o houvesse presenciado.
A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um raio de luz para D. Antonio.
O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do que se passava.
Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao escudeiro.
Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, Ayres Gomes não hesitava.
D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.
—Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo dedicado de toda a minha familia.
Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão que o havia injuriado?
Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.
—Vamos, Ayres!
O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão sorrindo.
—Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.
Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.
—Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre mostrar o que és.
Era hora do jantar: o toque soou.
XI
TRAVESSURA
Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma da outra.
Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.
O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a contemplavão.
Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e lembrava-se dos anginhos de Deus.
Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.
No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que costumava praticar.
Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua alma.
Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola brilhante que bem se podia chamar a alma do amor.
O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe sensações voluptuosas.
Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno semblante.
—Como estás bonita! disse a menina de repente.
E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.
—Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de Cecilia.
É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.
Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.
—Vamos busca-lo?
—Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.
—Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.
—Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.
Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.
Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela esplanada conversando.
Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.
—Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos acompanhassem?
—Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo galanteando; cumpririamos a tua ordem.
—Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!
—E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?
—Assim, nos acompanhais?
—De certo.
—E vós, Sr. Alvaro?
—Eu... obedeço.
Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.
Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa de que elle se accusava.
A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho encantador que ia esvaecer-se.
As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.
Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão brejeiro, que Isabel ficou inquieta.
—Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.
—Sim! E o que é?
—Um segredo.
—Pois vem contar-m'o.
Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o braço.
—Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se; conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo bracelete... Ainda não o vistes?
E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir o seu effeito.
A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é impossivel de descrever.
Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.
Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que devia ser um segredo entre ambos.
Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos; avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o seu braço mimoso.
Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma explicação, animou-se a romper o silencio:
—Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante.
—Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.
—Como?
—Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...
—Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?
—Nunca!... exclamou a moça com fogo.
Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra; parecia dar um juramento.
—Qual o motivo? perguntou depois de um momento.
A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um mysterio, e desejava esclarecê-lo.
Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:
—Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?
Isabel estremeceu.
—Fallai: eu vos escuto, Sr.Alvaro.
—Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste bracelete, não é verdade?
—Sim! balbuciou a moça.
—Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço. Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até que ponto zombão de mim.
—Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.
—E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?
—Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do coração.
—Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!
Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle havia dado.
Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.
A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida; seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar ardente cahia sobre o moço e o fascinava.
—Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.
—E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.
—Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo receber-se a má nova de voz amiga!
Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:
—Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!
—E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim um amigo.
—Se fosseis!...
E os olhos de Isabel scintillárão.
—Acabai!
—Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.
—Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe? disse Alvaro admirado.
A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.
Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.
Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um enigma.
—D. Isabel!
A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.
—Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.
—Não m'o pergunteis!...
—Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós? Dizei!
—Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.
—Tanto tempo ha que supplico-vos!
Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della esperava emfim uma resposta.
Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as faces.
—Me perdoareis?
—Sim! Mas porque?
—Porque...
Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução subita se tinha operado em toda a sua organisação.
O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.
O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.
As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço, ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos labios.
Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se pelas fórmas palpitantes.
Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a primeira palavra.
Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor desfallecida sobre a haste, murmurou:
Porque... vos amo!
XII
AS MENSAGENS DE PERY
Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.
Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma profanação.
A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava ajoelhada aos pés do cavalheiro.
Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se, embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.
—Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.
—Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a; peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.
—Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!
E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.
—Que desejais de mim? perguntou o moço.
—Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós será para mim um consolo. M'o negareis?
Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um desespero surdo e concentrado.
—Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.
—Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.
—E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel.
A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a suffocava.
Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava como pai.
—Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me por vosso irmão.
—Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?
—Sim, D. Isabel.
—Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? perguntou ella com timidez.
Alvaro hesitou.
—Sim, Isabel.
A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o acariciavão.
—Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.
—Contai-me as vossas magoas.
—Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.
—Culpada! Em que!
—Em querer-vos, disse Isabel corando.
Alvaro tornou-se frio e reservado.
—Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me, depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.
A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro não pode resistir.
—Fallai, minha irmã.
—Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que me tratão fez-me desprezar a outra.
—Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de D. Antonio de Mariz.
—Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...
—Tendes razão, Isabel.
—Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.
A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.
—Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.
O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.
—Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me fallavão...
Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.
—Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. Podeis-me ouvir sem temor.
—Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.
—Resta a explicação que ha pouco me pedieis.
—Ah! emfim!
Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.
—Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes que lembrar-vos de mim para odiar-me!
—Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.
O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para reflectir sobre o que lhe acontecia.
Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz lhe dava a mão de sua filha!
Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.
Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.
A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a aproximação da noite.
Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o movimento que lhe tinha imprimido o arco.
O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.
Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do rosto de Cecilia.
Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.
—Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.
—Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; queres?
—Pery te pede.
—Quaes achas mais bonitas?
—A de teu rosto, e a de teus olhos.
Cecilia sorrio.
—Toma-as; eu te as dou.
Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.
Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta, tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.
Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou mensageira muda, uma simples interjeição: Alto!
O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação com esse mysterio que apenas deixara entrever.
Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do indio.
Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava no fundo azul do horizonte, esperou.
Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se; Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á ordem.
Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a trinta passos do lugar onde parára a principio.
Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.
Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.
Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao ouvido uma palavra.
—São elles.
—Elles quem?
—Os inimigos brancos.
—Não te entendo.
—Espera: Pery volta.
E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava rapidamente.
XIII
TRAMA
Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.
O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por lhe escaparem os seus inimigos.
Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas nunca homens de energia e resolução.
Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos meios de sahir da posição difficil em que se achava.
Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que complicasse a situação.
Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.
—Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.
—Como sabeis?
—Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?
—É verdade; mas quem foi então?
—Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.
Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara silencioso.
—Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?
—Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.
O italiano sorrio de escarneo.
—Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido que devemos tomar.
—Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em tudo isto uma cousa sobrenatural.
—Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com impaciencia.
—Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.
Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, onde tivera lugar a sua entrevista.
—Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma palavra sequer.
Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação da scena anterior.
—Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.
—Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; desconfia apenas.
—Ainda insistis em que fosse um homem?
—Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do que de uma cobra; é de um homem visionario.
—Visionario! dizei crente!
—Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde servireis de carniça aos urubús.
O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.
—Pensastes?
—Sim.
—Admittis que fosse um homem?
—Admitto tudo.
—Jurais?
—Juro.
—Sobre...
—Sobre minha salvação.
O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.
Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.
Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.
Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol ardente que fazia borbulhar o sangue.
Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões violentas.
Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e fugia-lhe.
A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever inspirar senão affeições castas.
A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?
Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia conquistar.
Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.
—Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?
—Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto antes, e andar dia e noite sem parar.
—E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?
—Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda a parte.
—Que propondes então?
—Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.
—Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que devemos ganhar tudo ou perder tudo.
Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.
—Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.
—Com oito.
—E vós, Bento?
—Sete.
—Decididos?
—Promptos ao menor signal.
—Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso que á noite tudo esteja concluido.
—E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.
—Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda esperança de salvar-se.
Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.
Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.
Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros carregar as suas, e disse-lhes:
—Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.
Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.
Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia produzida pela correnteza do vento.
Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua procura.
O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando Bento Simões parou:
—Quem entrará primeiro?
—A sorte decidirá, respondeu Ruy.
—Como?
—Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.
—Está dito!
Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.
Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; como Loredano, elle tambem disse, comsigo:
—O ultimo será o primeiro.
E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros sem que um percebesse a morte dos outros.
Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no chão ao fio comprido do lombo.
Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.
O plano de Pery tinha gorado.
—Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.
O aventureiro não replicou.
Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.
Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um e um, mata-los.
Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.
Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio com seu pai e sua prima.
A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse assustar a menina, quanto mais offendê-la.
Bento Simões passou incolume.
XIV
A CHACARA
Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.
Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe escapavão por uma especie de fatalidade.
O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle sabia.
Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano executara sua trama.
O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já acudido ao pensamento do indio.
Foi ter com Alvaro que o esperava.
O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para sempre.
Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.
Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.
Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.
O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola esplendida.
Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de suas esperanças.
Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e desapego da vida, que succedem ás dores profundas.
—Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?
—Sim; respondeu o indio.
—Quero conhecê-los.
—Para que?
—Para ataca-los.
—Mas são tres.
—Melhor.
O indio hesitou:
—Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.
—Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?
—Pery póde; mas não quer dizer.
—Porque?
—Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás os máos.
—Oh! que não. Falla!
—Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.
—Como?
—Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, a todos da casa. Tem outros que os seguem.
—Uma revolta!... exclamou Alvaro.
—O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não deixará.
—É impossivel! disse o moço surprendido.
Pery te diz verdade.
—Não creio!...
Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio, não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.
O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas não passava disto.
O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.
—Tu duvidas de Pery?
—Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.
—Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o indio com firmeza.
—Que queres dizer com isto?
—Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se elle perder a vida dirás ainda que se engana?
Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.
—Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.
—Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar o bote.
—Mas então o que queres de mim?
—Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle fez; que salves a senhora!
—Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro senão contra o ferro!
O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.
—Tu não amas Cecy!
Alvaro estremeceu.
—Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.
—Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria de meu pai.
Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.
Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do dever.
Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.
Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os grandes sentimentos.
Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.
O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:
—Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.
—Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua senhora.
—Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das florestas; Pery te chamaria irmão.
Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.
O indio tinha a sua idéa.
Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.
Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco do jardim.
Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava no vão esclarecido.
A menina avistando o indio correu para elle:
—Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.
—Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para elle ficar.
—Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.
—O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio simplesmente.
—Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.
O indio sorrio:
—Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?
—Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.
Pery abanou a cabeça.
—Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma cruz no peito. Sim?
—A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para abrir; Pery precisa de liberdade para viver.
—Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!
—Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida em que nasceu.
Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.
—Não te zanga, senhora.
—Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.
E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.
O indio voltou pezaroso á sua cabana.
De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da musica.
A chacara dizia assim:
Foi um dia.—Infanção mouro
Deixou
Alcaçar de prata e ouro.
Montado no seu corcel,
Partio
Sem pagem, sem anadel.
Do castello á barbacã
Chegou
Viu formosa castellã.
Aos pés daquella a quem ama
Jurou
Ser fiel á sua dama.
A gentil dona e senhora
Sorrio;
Ai! que isenta ella não fora
«Tu és mouro; eu sou christã:»
Fallou
A formosa castellã.
«Mouro, tens o meu amor:
Christão,
Serás meu nobre senhor.»
Sua voz era um encanto,
O olhar
Quebrado, pedia tanto!
«Antes de ver-te, senhora,
Fui rei;
Serei teu escravo agora.
«Por ti deixo meu alcaçar
Fiel;
Meus paços d'ouro e de nacar.
«Por ti deixo o paraiso;
Meu céo
É teu mimoso sorriso.»
A dona em um doce enleio
Tirou
Seu lindo collar do seio.
E duas almas christãs,
Na cruz
Um beijo tornou irmãs.
A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um momento as suas doces modulações.