INDICE
[PRIMEIRA PARTE
OS AVENTUREIROS]
- [I.—Scenario]
- [II.—Lealdade]
- [III.—A bandeira]
- [IV.—A Luta]
- [V.—Loura e morena]
- [VI.—A Volta]
- [VII.—A prece]
- [VIII.—Tres linhas]
- [IX.—Amor]
- [X.—Ao alvorecer]
- [XI.—No banho]
- [XII.—A onça]
- [XIII.—Revelação]
- [XIV.—A india]
- [XV.—Os tres]
- [I.—O Carmelita]
- [II.—Yara!]
- [ III.—Genio do mal]
- [ IV.—Cecy]
- [ V.—Vilania]
- [ VI.—Nobreza]
- [ VII.—No precipicio]
- [ VIII.—O bracelete]
- [ IX.—Testamento]
- [ X.—Despedida]
- [ XI.—Travessura]
- [ XII.—As mensagens de Pery]
- [ XIII.—Trama]
- [ XIV.—A chacara]
- [ Notas]
PRIMEIRA PARTE
OS AVENTUREIROS
I
SCENARIO
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos deslisa um fio d'agua que se dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu curso de dez leguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba, que rola magestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio, altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do senhor.
Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta patria da liberdade.
Ahi, o Paquequer lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa.
Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos leques das palmeiras.
Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa.
No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o interior.
Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique.
A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita metade pela natureza e metade pela arte.
Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.
Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza para crear meios de segurança e defeza.
De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava aquelle pequeno valle impenetravel.
A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de frente, baixas, largas, quasi quadradas.
Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.
No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do rochedo.
Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e graça admiravel.
Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma miniatura.
O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de morada a aventureiros e acostados.
Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta habitação selvagem.
Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do edificio.
A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente, respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em um deserto, como era então aquelle sitio.
As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.
Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.
Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.
Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que revelava a presença de uma mulher.
Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.
A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual havia um escabello de madeira dourada.
Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e formas exquisitas.
Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.
Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos olhos profanos.
Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso que uma fada habitava.
II
LEALDADE
A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.
Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.
Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa capitania.
Fez parte em 1578 da celebre expedição do Dr.Antonio de Salema contra os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para fazerem o contrabando de páo-brasil.
Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo pela republica e a sua dedicação ao rei.
Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito tempo devoluta.
A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio, vierão modificar a vida de D. Antonio de Mariz.
Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil D. Filippe II como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a espada e retirou-se do serviço.
Por algum tempo esperou a projectada expedição de D. Pedro da Cunha, que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, D. Antonio, prior do Crato.
Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão, as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia assentar o seu novo solar, D. Antonio de Mariz erguendo o vulto direito, e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em torno, exclamou:
—Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal, que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás, Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!
Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol que transmontava.
Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino construirão e decorárão a casa que já conhecemos.
D. Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.
Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para proverem os seus habitantes de todo o necessario.
Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma resistencia inexpugnavel.
Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.
Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras preciosas, que ião vender na costa.
Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D. Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade media.
O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua visinhança, estabelecer-se por esses lugares.
Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e por isso D. Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se premunido para qualquer occurrencia.
Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos coloniaes, uma banda de aventureiros que lhe servião nas suas explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados, destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.
D. Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello, como sem demora e hesitação.
Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios; devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de conservara ordem, a disciplina e a harmonia.
Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos de consumo.
Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as massas.
Para D. Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as frontes inclinavão.
D. Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de sua pequena familia.
Esta se compunha de quatro pessoas:
Sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de um acto de dedicação:
Seu filho, D. Diogo de Mariz, que devia mais tarde proseguir na carreira de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:
Sua filha, D. Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:
D. Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de D. Antonio, embora nada dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma india que havia captivado em uma das suas explorações.
Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.
Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.
III
A BANDEIRA
Era meio dia.
Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas, costeava a margem direita do Parahyba.
Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta dous pistoletes, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado a tiracollo pelo hombro esquerdo.
Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os abrigava da chuva.
Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo a dianteira.
Naquelle tempo dava-se o nome de bandeiras a essas caravanas de aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba, era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.
Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.
—Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro leguas!
Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.
—Ao que parece, tendes pressa de chegar, Sr. Alvaro de Sá? disse elle com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.
—De certo, Sr. Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o desejo de chegar.
—Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.
—Que quereis dizer com isto, Sr. Loredano? perguntou Alvaro com um movimento de enfado.
—Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes das seis horas.
Alvaro corou.
—Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.
—Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer dia! replicou o italiano no mesmo tom.
Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e respondeo:
—Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.
—Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que aquelle que não quer ouvir.
—Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o ensinou? disse o cavalheiro gracejando.
—Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro á sua dama.
Alvaro enrubeceo pela terceira vez.
Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.
Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro proseguio com extrema amabilidade:
—Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei, Sr. cavalheiro?
—Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.
—É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.
—Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.
—Per Bacco, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis justo que cada um pense á sua maneira.
—Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e avançando o passo da sua cavalgadura.
A conversa interrompeo-se.
Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão silenciosos uma par do outro.
Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia pensativo e preoccupado.
Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto, cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma cansoneta de condottiere, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.
Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro; alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os principaes traços deste aventureiro.
A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.
Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos seculares dos acaris e araribás.
O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as folhas seccas.
Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.
Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se de repente nomeio do claro-escuro da floresta.
Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe indicasse a hora.
Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.
—Não vos dê cuidado, Sr. cavalheiro, antes de seis horas lá estaremos; sou eu que vo-lo digo.
O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.
—Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos guarde de tocar em objectos que são sagrados.
Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto conservou-se calmo e sereno.
—Bem sabeis que vos devo obediência, Sr. cavalheiro, e não faltarei della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que tenho dito póde ser mais claro do que é.
—Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para outros.
Ora dizei-me, Sr. cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa possivel?
—Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em adevinhar.
—Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias eis-nos ao cabo della?
—Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.
—Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com satisfação, quando o coração nelle se interessa.
—Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e colhendo as redeas.
O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:
—Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de D. Antonio de Mariz, sem duvida?
—Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço com arrogancia.
—Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano cortezmente, partistes do Paquequer em uma segunda feira, quando o dia designado era um domingo.
—Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de despeito.
Reparo em tudo, Sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente antes do domingo.
—E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e fazendo um esforço para conter-se.
—Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos fallei.
—E qual é ella, se vos praz?
—Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.
—Dizei sempre, Sr. Loredano: nada é perdido entre dous homens que se entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.
—Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D. Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no Paquequer um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.
—Tendes um dom admiravel, Sr. Loredano; o que é de lamentar, é que o empregueis em futilidades.
—Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?
—Com effeito é uma boa distracção.
—Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.
—Contai-nos isto, ha de ser curioso.
—Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver cousa mais simples?
Alvaro empallideceo desta vez.
—Sabeis uma cousa, Sr. Loredano?
—Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.
—Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de espião.
O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.
—Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...
—Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como a uma cobra venenosa.
A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os traços vigorosos.
Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:
—Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber qual é o que tem a temer!...
—Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.
—Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem, accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.
E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e misturou-se com os seus companheiros.
A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes zimborios de verdura.
Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a solidão com os échos estridentes.
Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente, lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.
IV
A LUTA
Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma scena curiosa.
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um indio na flor da idade.
Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão aimará, apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem.
Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.
Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.
Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa, ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha verticalmente diante de si um longo forcado de páo ennegrecido pelo fogo.
Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga, cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.
Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava imperceptivelmente.
Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.
Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore, e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto gigantesco.
Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.
O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defeza.
Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada da clareira.
Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue, eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia arriscar o ataque.
O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição, nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.
Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua marcha.
Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao peito:
—É meu!... meu só!
Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e sonora, mas em tom de energia e resolução.
O italiano rio.
—Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a tiracollo; ella vo-lo agradecerá.
Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração offensiva.
Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse um só instante com os olhos o inimigo.
Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha, e entranhárão-se de novo na floresta.
O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado, não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.
Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario uma distancia de trinta palmos.
O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.
Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.
Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda, açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.
O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se novamente.
Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.
Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem, consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.
O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo raio.
Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os dentes promptos a cortarlhe a jugullar.
A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.
Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.
Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe o collo, e vacillou.
Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.
Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á sua passagem.
Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha, metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada á cintura em muitas voltas.
Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que a onça não podesse abrir a bocca.
Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião impotentes.
Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta, e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e afogueado.
O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do sangue quente e fumegante.
Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo e abafado.
O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais terrivel.
Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para jantar.
Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.
Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro, e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a picada por onde tinha seguido a cavalgata.
Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com uma trofa de pennas amarellas.
Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra, e assim ficou algum tempo.
Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção que o outro tomára pouco tempo antes.
V
LOURA E MORENA
Cahia a tarde.
No pequeno jardim da casado Paquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas e perfumadas.
Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as palpebras rosadas.
Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da gardenia dos nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião, desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.
O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel conceber; mistura de luxo e de simplicidade.
Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso contorno do seu braço arqueado sobre o seio.
Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e perfeição admiravel.
A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para imprimir á rede uma doce oscillação.
Esta moça era Cecilia.
O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa, deixava que a imaginação corresse livre.
Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido, algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.
Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado, roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha cahir a seus pés timido e supplicante.
Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces; mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.
Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz, abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.
Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a relva a ponta de um pézinho de menina.
Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.
Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia desvanecer.
Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro, aproximou-se da rede.
Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.
Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos, labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de seducção irresistivel.
Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.
Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para beija-la ou ver se estava dormindo.
Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua prima.
—Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.
—É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que projectavão as arvores; está quasi noite.
—E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra gracejando.
—Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me sinto triste.
—Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves ao nascer do sol.
—Está bem! não queres acreditar!
—Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um passarinho?
—É para vêres! Tudo cança neste mundo.
—Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.
—Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que quero-lhes como se me tivessem visto nascer.
—Então o que é que te faz triste?
—Não sei; falta-me alguma cousa.
—Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!
—Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.
—Ora! o que te falta.
—Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.
—Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro animal selvagem.
—Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.
—Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.
—Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?
—Não; nem sei o que é feito delle.
—Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma desgraça! disse a moça estremecendo.
—Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?
—Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á casa.
—O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua vida antiga e livre.
—Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos abandonasse assim!
—Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?
—É verdade!... disse a moça preoccupada.
Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus olhos.
A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu regaço.
—Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão sobre o seu pello assetinado.
—Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e ficará mais manso do que o teu Pery.
—Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.
—Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal como um cavallo, ou um cão?
Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.
—Isabel!... exclamou ella resentida.
—Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdem com que me tratão?
—Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitão como devem.
Isabel abanou tristemente a cabeça.
—Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho razão.
—Ora, um momento de zanga de minha mãi...
—É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso amargo.
—Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito severa mesmo para comigo.
—Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.
—Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã?
—Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua irmã!...
—E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!
—Para ti, que para elle...
Este elle foi murmurado dentro d'alma.
—Mas olha que exijo uma cousa.
—O que é? perguntou Isabel.
—É que eu serei a irmã mais velha.
—Apezar de seres mais moça?...
—Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?
—De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.
—Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver triste, ouviste? Senão fico zangada.
—E tu não estavas triste ha pouco?
—Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.
Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco, scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas voltava de novo.
Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o ar livre e a vida passada no campo.
Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio, estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua penugem macia.
—Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não é?
E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, envolta pela graça infantil de seu espirito.
Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros que entravão a cerca.
Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.
—Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.
—São elles que chegão.
Elles quem?
—O Sr. Alvaro e os outros.
—Ah!... exclamou a moça corando.
—Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima.
—Muito; quem sabe se houve alguma cousa!
—Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.
—Contaste os dias?
—É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã fazem tres semanas.
—Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!
—Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.
—Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti. Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?
—E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.
—Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.
E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado da entrada.
VI
A VOLTA
Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o edificio.
Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.
Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de ouro.
Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão, e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e nobre cabeça de velho.
De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.
Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na força da idade.
O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.
A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.
—Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.
—Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo commetteo uma imprudencia matando essa india.
—Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!
—Julgais com demasiada severidade.
—E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.
—Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...
—Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra que conquistamos, mas são homens!
—Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe deo a Sra. D. Lauriana.
—Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é disto que discorriamos.
—Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de D. Diogo.
—E que pensas tu?
—Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, Sr. D. Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a atacar-vos.
—Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.
—Não sou capaz de tal, Sr. cavalheiro!
—Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão tudo, a vida e a liberdade.
—Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.
—Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem offendidos por mim soffrerão tudo para vingar-se.
—Tendes mais experiencia do que eu, Sr. cavalheiro; mas queira Deus que vos enganeis.
Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D. Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que atravessava pela frente da casa.
—Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.
—Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.
D. Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia sentado a alguns passos.
Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se esperou-o n'uma attitude respeitosa.
—Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as ordens que vos dei.
—Senhor...
—Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar satisfeito de vossa obra.
—Meu pai!...
—Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis á cinta.
—Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho.
—Não é vosso pai que vos rebaixa, Sr. cavalheiro, e sim a acção que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender a vossa vida.
D. Diogo inclinou-se em signal de obediencia.
—Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.
—Cumprirei as vossas ordens, meu pai.
—Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé desta casa sem minha ordem. Ide, Sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para protege-las.
O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.
D. Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no soleira da porta.
D. Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e fingião uma especie de diadema.
Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os seus ornatos.
Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.
No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um throno.
Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.
Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia immediatamente que era escusado insistir.
Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus sentimentos.
—Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.
—Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o fidalgo.
—Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio!
—E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua companhia.
—Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antonio?
—D. Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o tempo em extravagancias.
—Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso filho da casa paterna!
—Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?
—Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho, cheia de inquietações pela sua sorte.
—Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.
—Sois cruel, senhor.
—Sou justo apenas.
Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.
—Oh! exclamou D. Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.
O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se, subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.
O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.
Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro, sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que servião de bancos.
D. Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de Bragança.
O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.
Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades, outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo tempo, de modo que ninguem se entendia.
Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu para sua mãi.
Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana, Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo na mão foi inclinar-se corando diante da moça.
—Eis-vos de volta, Sr. Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!
—Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.
Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.
Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e mocidade.
D. Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto veneravel.
Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.
Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.
Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do Italiano que vio o sorriso de D. Antonio de Mariz e o comprehendeo.
Em quanto isto succedia, D. Diogo que se havia retirado, voltou a saudar Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de seu pai.
VII
A PRECE
A tarde ia morrendo.
O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que illuminava com os seus ultimos raios.
A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das arvores.
Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.
Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder á doce influencia da tarde.
Era Ave-Maria.
Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para murmurar a prece da noite!
Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.
O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o toque lento e pausado do angelus.
A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.
Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.
De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava Ave-Maria.
Todos se descobrirão.
D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.
Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo, ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.
O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo cavalheiro.
Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos, illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.
Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.
Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os labios.
Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o precipio, e um tiro saudou o occaso.
Era noite.
Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando a pouco e pouco.
Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.
Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de um abbade.
Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta ceia.
Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da familia, o que havia recebido como um favor immenso.
O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia estabelecido na sua habitação.
Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.
Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada, onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua oração da tarde.
Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo rio.
Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia o italiano, de chegar ao Paquequer em um sabbado, e antes das seis horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez occasião de arriscar uma palavra.
Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.
Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um pretexto que a chamasse á conversa.
—Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.
—Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.
—Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.
—Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.
—Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.
—Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos parecerá tão simples.
—O que fazia então?
—Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia.
—Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.
—Que tens, menina? perguntou D. Lauriana.
—É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.
—Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.
—Mas eu serei a causa de sua morte!
—Como assim, minha filha? disse D. Antonio.
—Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...
—E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.
—Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o morto.
—Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se.
—E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a moça sentida.
—Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o animal!
E o moço contou parte da scena passada na floresta.
—Não ha duvida, disse D. Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro, é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!
A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais parte nella.
D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no terreiro da casa veio annunciar a ceia.
Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com Cecilia.
—Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á meia voz.
—Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?
—Todas e mais... disse o moço balbuciando.
—E mais o que? perguntou Cecilia.
—E mais uma cousa que não pedistes.
—Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.
—Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.
—Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?
—Sim; porque é uma lembrança vossa.
—Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a bem.
E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas, espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de pistolas primorosamente embutidas.
Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:
—Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.
A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se respeitava.
Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e tanta esperança.
Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.
Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.
Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.
Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão timido, que córava diante della, como ella diante delle.
De repente a moça estremeceo.
Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor duvida.
Era Pery.
Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.
Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.
VIII
TRES LINHAS
Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.
Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão uma mesma idéa.
Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento, convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.
Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.
N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira que fazia honra ao appetite dos convivas.
O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os aventureiros podião beber á larga.
O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens; afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.
A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o ranger da faca na escudella.
Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de choro confuso e discordante.
Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou estas palavras:
—E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos ouvir uma palavra!
—Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.
—Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por alguma moçoila que andou requestando em S. Sebastião.
—Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?
—E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em que o aperte mais a uns do que a outros.
—Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e galanteios.
O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.
—Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!
—Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está penado da amores.
—E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.
—Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?
Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.
Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.
—Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar severa. Leva rumor!
—É um dia de chegada, Sr. escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio Ruy Soeiro.
Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que estava em frente delle.
—Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já refizestes, e os mais esperão sua vez.
Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.
—Estais hoje muito severo, Sr. Ayres Gomes, disse Martim Vaz,
—Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer, respondeu o escudeiro.
—Ah! porque não dizieis isto logo!
—Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos que ver.
—Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás pacas e porcos do matto.
—E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras de polvora? perguntou Vasco Affonso.
—Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?
Loredano ergueu a cabeça.
—Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão? perguntou elle.
—Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a chamusco, exclamou Martim Vaz.
A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.
Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:
—Amanhã!
Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano continuar o seu caminho até a beira do precipicio.
Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.
Ahi esperou.
Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o sorriso que a acompanhou.
Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um soffrimento cruel.
Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.
Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.
Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um thesouro.
No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro, depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir, foi a maneira por que sahira quasi logo.
Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo immediatamente.
O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz que coava entre as cortinas da janella.
Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto segurou-se ao galho de um oleo gigante que, elevando-se sobre a encosta fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.
Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.
Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e, escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão igualmente á alguns passos.
A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que lhe havião chegado do Rio de Janeiro.
Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a todo o instante!
Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente, satisfeita; podia ir dormir e repousar.
Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha primores como aquelles para offertar-lhe.
O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos pés de Cecilia.
Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella frouxamente illuminada.
Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de mercadejar por ella um prazer.
É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.
IX
AMOR
As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.
Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações bem differentes.
Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se elevava entre elle, pobre colono, e a filha de D. Antonio de Mariz, rico fidalgo de solar e brazão.
Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem á condição de homens.
O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.
Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquelle tempo de crença e lealdade.
Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma realidade.
Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa mesma noite, nesse mesmo instante.
Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o outro uma paixão, o ultimo uma religião.
Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o quarto de Cecilia.
Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na sombra e na humidade.
Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que enchião essas grotas e alcantis.
Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o quadro da janella.
O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da janella.
Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o precipicio seguia as menores evoluções da sombra.
Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta mão havia deitado na janella.
E não se enganava.
Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu intento.
Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a esperança de que Cecilia lhe perdoaria.
Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára.
Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.
Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento, bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.
Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo, e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.
Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.
Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor suspeita.
O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli naquella hora silenciosa da noite?
O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia fazer-lhe comprehender o resto.
Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.
Pery não se moveu.
Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.
Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza, e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.
Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava a fachada do edificio.
Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima que desfiava-lhe pela face.
Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle passava.
De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas palavras imperceptiveis:
—Si eu quizesse!
Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a pupilla negra de Isabel?
Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?
Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a natureza humana não devia resistir?
Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza possivel senão em um milagre da Providencia.
Era o pó subtil do curari, o veneno terrivel dos selvagens.
Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.
—Minha mãi?... minha mãi!...
Um soluço rompeu-lhe o seio.
X
AO ALVORECER
No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim e aproximou-se da cerca.
—Pery! disse ella.
O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e submisso.
Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.
Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que de rigor:
—Estou muito zangada com Pery!
O semblante do selvagem annuviou-se.
—Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?
—Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.
—Cecy desejou ver uma onça viva!
—Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu corras atraz della como um louco?
—Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o indio.
—Vai, sim.
—Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?
—Que tem isso?
—Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.
Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e originalidade.
Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por causa do susto que lhe havia feito na vespera.
—Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?
—Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
—Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te pedisse aquella nuvem?...
E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas sombras pallidas da noite.
—Pery ia buscar.
—A nuvem? perguntou a moça admirada.
—Sim a nuvem.
Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:
Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.
Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o coração.
A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.
A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus labios um sorriso divino.
—Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.
—Senhora, não está mais zangada com Pery?
—Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora affligir-se cuidando que elle ia morrer.
—E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.
—Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.
—Perdôa, senhora!
—Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.
Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia encommendado a Alvaro.
—Olha! Pery não desejava ter umas?
—Muito!
—Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança de Cecilia, não é verdade?
—Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.
—Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para defenderem e salvarem a tua vida.
—Porque é tua, não é, senhora?
—Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.
O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de Deus.
Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza virgem.
Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.
A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada dia augmentava.
Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.
—Pery te acompanha, senhora?
—Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o socegado.
A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao domingo.
Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se banhavão.
Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em que se collocára o percebia immediatamente.
Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.
Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que todos votavão a D. Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.
E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.
Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para nadarem.
Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que um olhar de quem quer que fosse visse a senhora no seu trajo de banho; nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia offende-la, a ella que era o seu unico Deus.
Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida, e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa a corrente e as margens do rio.
O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore; tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco ou sobre o chão.
Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma sapucaia pendida sobre o Paquequer estalava prestes a cahir, o indio, veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que boiavão.
Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a moça soffresse por falta de cuidado seu.
Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque todo o poder do homem fóra impotente para evitar.
Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr de pequiá.
Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto da escada.
Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu ligeiramente seguida por sua prima.
Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.
Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer, e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus sorrisos sarcasticos.
—Bom dia, Sr. cavalheiro.
Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço que roçassem uma na outra.
Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.
O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a Loredano.
Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.
Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.
Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua senhora.
XI
NO BANHO
Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:
—Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao Sr. Alvaro?
Isabel estremeceu.
—Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á cortezia que elle nos faz.
—Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.
—Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?
A moça calou-se.
—Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou Cecilia galanteando.
Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas palavras que parecião queimar-lhe os labios:
—Bem sabes que o aborreço!...
Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a brincar com uma alegria infantil sobre a relva.
Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao verdadeiro.
A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia córar.
Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da moça acabavão de proferir.
Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi uma blasphemia.
Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.
Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a fizesse soffrer.
O sol vinha nascendo.
O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.
Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.
Era a hora em que o cactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol crestasse a alvura diaphana de suas petalas.
Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda humida colhendo uma graciola azul que se embalançava sobre a haste, ou um malvalisco que abria os lindos botões escarlates.
Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a viuvinha que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.
Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.
De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas que se espedaçavão, e o indio appareceu.
Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:
—Que é isto, Pery?
—Nada, senhora.
—É assim que prometteste estar quieto?
—Cecy não se ha de zangar mais.
—Que queres tu dizer?
—Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.
Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça, julgando que isso lhe causava um prazer.
Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira, em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.
As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o sorriso.
Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em satisfazer as vontades da menina.
Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se na relva.
Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma fresta por onde o olhar do dia penetrasse.
A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas roupagens.
Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:—Bem te vi!
Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de menina.
Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por com prazer ficou sentada á beira do rio.
Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no crystal das aguas.
Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela correnteza.
A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração procura illudir-se.
Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o contrario mentia.
Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na margem opposta as guaximas se agitarem.
A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol, e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz de umas grandes pedras que havia á beira do rio.
Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido por um animal de grande corpulencia.
Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação dos arbustos.
Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão as pedras para despedirem o tiro.
E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.
Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.
Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos cabellos mudou de direcção.
Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.
Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:
—Pery!...
Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se ligeiramente no matto.
Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande avanço.
Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero o coração como para reter o sangue que espadanava.
Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a força da vontade e o poder da natureza.
O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.
Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer lutar ainda.
Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente retrahindo e tocou a terra com os joelhos.
Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual se abraçou convulsivamente.
Era uma cabuiba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em lagrimas.
O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo, que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.
Sentio-se renascer.
Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.
Estava salvo.
XII
A ONÇA
Voltemos á casa.
Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que dirigia-se ao rio.
Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.
Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.
Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.
O pateo ficou deserto.
Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos; um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé, annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.
De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez, como se um inimigo cahisse de assalto.
Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D. Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma cousa extraordinária.
—Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já! gritou a dama.
A janella fechou-se de novo com o ferrolho.
A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.
—Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.
—Sim; estais armado? perguntou D. Lauriana por detraz da porta.
—Tenho a minha espada; mas que novidade ha?
A physionomia decomposta de D. Lauriana appareceu de novo na fresta da janella.
—A onça! Ayres Gomes!... A onça!...
O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.
A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado contra as féras.
Alguns minutos se passárão assim; D. Lauriana rezando; e Ayres Gomes rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.
Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente; pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.
Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em voz alta:
—Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, Sra. D. Lauriana; ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.
—Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.
—Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.
—É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!
—E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra. D. Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.
—Pois não sabeis? exclamou a dama.
—O que, senhora?
—Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça viva para a casa!
—Quem, o perro do cacique?
—E quem mais senão aquelle cão tinhoso!
—É das que elle costuma fazer!
—Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!
—Mas a culpa não tem elle!
—Quero ver se o Sr. Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.
—E que é feito da féra, Sra. D. Lauriana?
—Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e tragão-me aqui.
—É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe permittião as suas botas de couro de raposa.
Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da esplanada.
Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.
Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo, voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:
—Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!
Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu reflexo pallido.
Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.
—Que é lá isso? Tem medo?
E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.
Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.
A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.
Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar onde havia expirado.
Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na casa de D. Lauriana.
Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.
Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto, entre-abrio-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arripiada, olhou estremecendo o corpo da féra.
—Deixe-o ahi mesmo. O Sr. D. Antonio ha da vê-lo com seus olhos!
Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello accusatorio que ia fulminar contra Pery.
Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava para causar-lhe um faniquito.
Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.
Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?
Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de Mariz assomava á porta.
—Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?
—Ahi a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça comum gesto soberbo.
—Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as presas do tigre.
—Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o trouxe!...
—Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo: não tem o signal de uma só ferida!
—É obra daquelle excommungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D. Lauriana preparando-se para o ataque.
—Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e de que nos fallou Alvaro!
—Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!
—A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?
—Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!
Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.
O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou que tinha as patas e as mandibulas ligadas.
—É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora; ainda conserva o calor.
D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal, certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar de ser favoraveis ao seu plano.
Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a D. Antonio:
—Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...
A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto energico apontando para o animal morto:
—Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.
O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.
D. Lauriana sorria-se do seu triumpho.
—E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia; encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos, porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!
—Exagerais muito tambem, D. Lauriana. É certo que Pery fez uma selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.
—Se o conhecesseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!
—Prevenções vossas, que não partilho.
A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.
—Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a semelhante martyrio!
D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher, e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.
D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.
XIII
REVELAÇÃO
Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.
Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que fascinava.
Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr do sol.
As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios recommendando silencio.
—Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D. Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.
—Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?
—Umas das suas, e de que já sabes parte.
—E eu vou contar-te o resto! atalhou D. Lauriana, tocando com a mão o braço de sua filha.
E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da familia.
Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa, todos áquella hora estarião defuntos.
Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus olhos brilharão.
—Assim, concluio peremptoriamente D. Lauriana, não é concebivel que continuemos com semelhante praga em casa.
—Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis manda-lo embora?
—Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem nos mattos.
—Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:
D. Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:
—Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.
—E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.
D. Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por semana.
—Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?
—E tambem um perigo que correu Cecilia.
—Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.
—Susto, sim; mas pelo que vi...
—Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.
A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez D. Lauriana ao voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe que nada dissesse.
A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:
—Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore. Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir a dous passos de minha prima!
—Ouça cá, Sr. Mariz! exclamou D. Lauriana; ouça as estrepolias do capeta!
—No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola, que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem para nosso lado.
—Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a esse bugio?
—Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.
—Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!
D. Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.
Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem passeava pela esplanada:
—O que diz tua prima é verdade?
—É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.
—Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.
—Elle vai sentir muito!!
—E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.
—Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!
—Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.
—Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.
D. Antonio abraçou-a.
—Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!
—Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.
—Mandareis conservar este animal? Sim!
—Desde que o desejas...
—Será uma lembrança que teremos de Pery.
—Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle, podia eu agora apertar-te nos meus braços?
—Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?
—É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.
O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.
—Que decidistes, Sr. D. Antonio? perguntou a dama.
—Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por alguem. Entendeis, minha mulher?
D. Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples phrase, inclinou a cabeça.
—Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte, Ayres Gomes, que venha ter comigo.
O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:
—Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.
D. Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.
—E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha menos medo de onças.
D. Antonio afastou-se.
A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.
Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca devêra ter entrado.
Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava inquieto e pensativo.
—D. Cecilia! disse o moço.
—Oh! deixai-me, Sr. Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.
—Em que vos offendi eu para que me trateis assim?
—Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.
—É que quando se commetteu uma falta...
—Uma falta? perguntou a menina admirada.
—Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.
—E que falta commettestes vós, Sr. Alvaro?
—Desobedeci-vos.
—Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.
—Não zombeis, D. Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.
—Mas, Sr. Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei apenas que se trata de uma desobediencia!
—Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...
—Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...
—Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.
—Como! que dizeis!
—Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...
—Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a moça com um movimento de impaciencia.
Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha feito na vespera á noite.
Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.
—Sr. Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.
—Eu juro pela minha honra!
—Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e em que não posso tocar.
—Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.
Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e desespero, que sentio-se commovida.
—Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa é vossa.
—Eu o sinto; e não me queixo.
—Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma lembrança.
—Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta, e m'a recordará sempre.
—Será agora uma triste recordação...
—E posso-as eu ter alegres!
—Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um jasmim; é tão doce esperar!
Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.
A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem sentir.
Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz inimitavel:
—É tambem uma restituição!
Alvaro empallideceu.
A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.
Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos, lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa que se escondia aos olhos dos outros.
Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.
Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella; seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.
Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma falta.
Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.
—Isabel, abre esta janella.
A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.
Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em que se abrio.
Nada havia alli.
A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.
Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.
—Isabel!...
A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.
Tinha-se trahido.
XIV
A INDIA
Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha atravez da floresta.
Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as pisadas de um animal qualquer.
Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas, são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na floresta, e que elles seguem sem hesitação.
Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de agarra-la.
Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas vizinhanças do Paquequer.
No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.
Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e uma filha.
Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais vistosa penna do seu cocar.
Estamos no domingo.
Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle traduzia pelo doce nome de Cecy.
Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.
Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por uma bala.
Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.
O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento, recebêra a carga da espingarda e cahira morta.
O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando reanima-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não desejava perder a sua pontaria.
Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha escolhido.
De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.
Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a D. Diogo que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.
O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.
Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao redor estavão sentados dous selvagens e uma india.
O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de dous palmos de comprimento.
A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no regaço.
Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão; depois continuavão o seu trabalho.
No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o atirou a quatro passos com um empurrão.
Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.
Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa exclamação.
Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua desconhecida, e que Pery não entendeu.
O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de perto.
Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance dos selvagens.
Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento do banho lhe revelára claramente.
Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes de guia.
Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei de talião que era o unico principio de direito e justiça que reconhecião.
Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.
Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do Paquequer, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.
Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella filha dos Aymorés.
Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que podesse vir assaltar a casa de D. Antonio de Mariz.
Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um vestigio de sua passagem.
Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antonio immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que exigia a imminencia de perigo.
Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.
Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um cãozinho, que reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.
Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto por causa das guaximas.
O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta, que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.
Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que se havia passado.
Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, e deixaria traços de ferimento.
O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a produzira morte quasi immediatamente.
Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?—Porque, respondia o espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não podia acompanhar serviria para denuncia-la.
Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e encostou de novo o ouvido ao chão.
Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração; tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus sentidos o illudissem.
Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se elevava n'uma baixa do terreno.
Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um instrumento que cavava a terra.
Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao olhar.
Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.
Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.
Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou reconhecer exclamou.
—Per Dio! eil-a!
O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente escondida entre as flôres e a relva.
Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea, ouvir o que aquelles homens dizião.
Mas por que meio?
Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava a cavar, lhe chegava mais distincto.
O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.
O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.
Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterraneas construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo da terra.
Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.
O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura, deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que conversavão.
Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe trazia as palavras claras e distinctas.
Sentou-se e ouvio.
XV
OS TRES
Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se entranhou na matta esperou.
Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy Soeiro.
Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em quando um olhar significativo.
Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:
—Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que nos fizestes vir aqui, misser Loredano?
—Não, respondeu o italiano laconicamente.
—Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.
—Esperai!
—Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida... Onde nos pretendeis levar nesta marcha?
—Vereis.
—Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser Loredano.
—Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.
—Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.
E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano voltou-se com um gesto de desprezo.
—Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a todos.
Os dous aventureiros empallidecêrão.
—Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas que se obstinão a fallar.
—Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis no caso de que eu vos quizesse denunciar?
—A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua resolução.
—E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que as vossas venetas, misser italiano.
—E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.
—Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia assegurar a sua existencia e o seu descanço?
—Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos incidentes!
—Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro; será morte antes que homizio.
—Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.
O italiano continuou:
—Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.
—Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.
—A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antonio de Mariz o meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim para que trabalhamos.
Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.
—Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.
Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio com um esforço recobrar a palavra.
—É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem que o fizesse.
—Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.
—Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.
—Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano; confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?
—Disse a verdade.
—Mentes! gritou o aventureiro desesperado.
O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:
—Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste mundo, e minha alma no outro, juro.
Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e silenciosa.
Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do desespero.
Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e suffocada:
—Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?
—Confiei-o!
—E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de vossos intentos?
—Escrevi tudo!
—Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?
—Sim!
—E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para decidir a qual deverá tocar?
—Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.
Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.
Passou-se algum tempo em silencio.
—Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo. Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em diante—obediência cega e passiva!
Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude respondia melhor do que mil protestos.
—Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antonio é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.
A physionomia de Bento Simões reanimou-se.
—Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.
—Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á vontade.
—Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.
—Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.
Os dous tirárão os punhaes e as espadas.
—Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!
Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já descrevêmos.
Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.
De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres aventureiros.
—Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja que vos dará no gôto.
Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli estava deitada, e que collocou no meio do grupo.
—É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!
—Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija tinha restituido todo o bom humor.
—A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste buraco uma botija de vinho.
—É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.
—E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!
Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu lugar.
—Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.
Os dous inclinárão a cabeça.
—A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de nós, podemos toca-la.
—Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.
—Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.
Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della é preciso...
—O que? Dizei!
—A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.
—Uma historia! replicou Ruy Soeiro.
—Da carocha? perguntou Bento Simões.
—Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre. Ouvistes fallar algum dia, em um certo Roberio Dias?
—Roberio Dias... Ah! sei! um tal de S. Salvador? disse Ruy Soeiro.
—O mesmo, sem tirar nem pôr.
—Vi-o ha cousa de oito annos em S. Sebastião, donde se passou ás Hespanhas.
—E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.
—Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande fidalgo de sua casa.
—E o resto, não vos chegou á noticia?
—Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.
—Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que, como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.
—E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.
—Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco ante de paga-lo.
—E então?
—Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.
—Como ouco?
—Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para nós, que vamos lograr o miôlo.
—Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!
—Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.
—Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa terra?
—Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.
—Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!
E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia ao lado.
Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião conjecturas e supposições.
O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro, que o fez tinir.
—Per Dio, exclamou, eil-a!
Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro vidrado, a que os indios chamavão camuci; este era pequeno e fechado por todos os lados.
Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.
—Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias; pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.
O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.
Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos. Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.
Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes letras vermelhas.
Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer, de pasmo e admiração.
Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.
—Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha palavra, como á lei do destino.
—Juramos!
—Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo. A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia pertencer D. Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre cavalheiro.
Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto marcial.
—Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da porta da filha de D. Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a minha parte de presa! É a parte do leão.
Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.
Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao vento.
—Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer; tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...
Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz sepulcral a houvesse pronunciado.
—Traidores!...
Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.
Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e lançou um olhar rapido.
Tudo estava em socego.
O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.
O dia no seu esplendor dominava a natureza.