Consultorio e banca

Mezes depois, Pedro abria consultorio medico, aonde iam pessoas doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de justiça. Um promettia saude, outro ganho de causa, e acertavam muita vez, porque não lhes faltava talento nem fortuna. Demais, não trabalhavam sós, mas cada qual com um collega de nomeada e pratico.

No meio dos successos do tempo, entre os quaes avultavam a rebellião da esquadra e os combates do sul, a fuzilaria contra a cidade, os discursos inflammados, prisões, musicas e outros rumores, não lhes faltava campo em que divergissem. Nem era preciso politica.. Cresciam agora mais em numero as occasiões e as materias. Ainda quando combinassem de acaso e de apparencia, era para discordar logo e de vez, não deliberamente, mas por não poder ser de outro modo.

Tinham perdido o accordo, feito pela razão, jurado pelo amor, em honra da moça defunta e da mãe viva. Mal se podiam ver, mal ou peor ouvir. Cuidaram de evitar tudo o que o logar e a occasião ajustassem para os separar mais. Desta maneira, a profissão torceu-lhes o caminho e dividiu as relações de ambos. Natividade apenas daria pela má vontade dos filhos, desde que os dous pareciam apostados em lhe querer bem, mas dava por ella, e tentava ligal-os apertadamente e de todo. Santos folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos. Só receiava que Paulo, dada a inclinação partidaria, buscasse noiva jacobina. Não ousando dizer-lhe nada a tal respeito, refugiava-se na religião, e não ouvia missa que lhe não mettesse uma oração particular e secreta, para obter a protecção do céu.


[CAPITULO CXV]