Troca de opiniões
Se não quando, viu Natividade os primeiros signaes de uma troca de inclinação, que mais parecia proposito que effeito natural. Entretanto, era naturalissimo. Paulo entrou a fazer opposição ao governo, ao passo que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava acceitando o regimen republicano, objecto de tantas desavenças.
A acceitação por parte deste não foi rapida nem total; era, porém, bastante para sentir que não havia entre elle e o novo governo um abysmo. Naturalmente o tempo e a reflexão consummaram este effeito no espirito de Pedro, a não admittir que tambem nelle vingasse a ambição de um grande destino, esperança da mãe. Natividade, com effeito, ficou deliciada. Tambem ella mudara, se havia que mudar na simples alma materna para quem todos os regimens valiam pela gloria dos filhos. Pedro, aliás, não se dava todo, restringia alguma cousa ás pessoas e ao systema, mas acceitava o principio, e bastava; o resto viria com a edade, dizia ella.
A opposição de Paulo não era ao principio, mas á execução. Não é esta a republica dos meus sonhos, dizia elle; e dispunha-se a reformal-a em trez tempos, com a fina flor das instituições humanas, não presentes nem passadas, mas futuras. Quando falava dellas, via-se-lhe a convicção nos labios e nos olhos, estes alongados, como alma de propheta. Era outro ensejo de se não entenderem os dous. D. Claudia tinha que era calculo de ambos para se não juntarem nunca;—opinião que Natividade acceitaria, finalmente, se não fôra a de Ayres.
Tambem este notára a mudança, e estava prestes a acceitar a explicação, por aquella razão de commodidade que achava em concordar com as opiniões alheias; não se cançava nem aborrecia. Tanto melhor, se o accordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porém, valeu a pessoa.
—Não, baroneza, disse elle, não creia em propositos.
—Mas que póde ser então?
Ayres gastou algum tempo na escolha das palavras, afim de lhe não sairem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que pensava. Às vezes, falar não custa menos que pensar. Ao fim de trez minutos, segredou a Natividade:
—A razão parece-me ser que o espirito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquissimo, e quizera ir ao ponto a que não fôram homens. Em summa, não lhes importam formas de governo, comtanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante. Se não concorda commigo, concorde com D. Claudia.
Ayres não tinha aquelle triste peccado dos opiniaticos; não lhe importava ser ou não acceito. Não é a primeira vez que o digo, mas provavelmente é a ultima. Em verdade, a mãe dos gemeos não quiz outra explicação. Nem por isso a discordia morreria entre elles, que apenas trocavam de armas para continuar o mesmo duello. Ouvindo esta conclusão, Ayres fez um gesto affirmativo, e chamou a attenção de Natividade para a côr do céu, que era a mesma, antes e depois da chuva. Suppondo que havia nisto algo symbolico, ella entrou a procural-o, e o mesmo farias tú, leitor, se lá estivesses; mas não havia nada.
—Tenha confiança, baroneza, proseguiu elle pouco depois. Conte com as circumstancias, que tambem são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma especie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas acções de graças; póde ter voto decisivo na assembléa dos acontecimentos. Supponha um despota, uma côrte, uma mensagem. A côrte discute a mensagem, a mensagem canonisa o despota. Cada cortezão toma a si definir uma das virtudes do despota, a mansidão, a piedade, a justiça, a modestia... Chega a vez da grandeza da alma; chega tambem a noticia de que o despota morreu de apoplexia, que um cidadão assumiu o poder e a liberdade foi proclamada do alto do throno. A mensagem é approvada e copiada. Um amanuense basta para trocar as mãos á Historia; tudo é que o nome do novo chefe seja conhecido, e o contrario é impossivel; ninguem trepa ao solio sem isso, nem a senhora sabe o que é memoria de amanuense. Como nas missas funebres, só se troca o nome do encommendado,—Petrus, Paulus...
—Oh! não agoure meus filhos! exclamou Natividade.