D. Miguel

—Assim como assim, ficou pensando o velho, não ha de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; põem-se-lhe aqui umas taboinhas velhas...

D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche; assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illusão. Em todo caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando á direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justiça eterna, cuidou naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o, á porta, parou um homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou na expressão; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um colleccionador...

—Quanto pede o senhor por isto?

—Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peço pelo meu rico senhor D. Miguel? Não peço muito, está um tanto encardido, mas ainda se lhe aprecia bem a figura. Que soberba que ella é! Não é caro; dou-lhe pelo custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o por trez.

O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e satisfeitos; o logista, depois de ir até a porta, tornou á cadeira do costume. Talvez pensasse no mal a que escapára, se vendesse o retrato por dez tostões. Em todo caso, ficou a olhar para fóra, para longe, para onde ha justiça eterna... Trez mil reis!


[CAPITULO XXVI]