A luta dos retratos

Quasi que não é preciso dizer o destino dos retratos do rei e do convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu á cabeceira da cama. Pouco durou esta situação, porque ambos faziam pirraças ás pobres gravuras, que não tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes feios, desenhos de animaes, até que um dia Paulo rasgou a de Pedro, e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a mãe ouviu rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas já os achou arranhados e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldição de rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada á cama, a cara mettida no travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou.

Natividade confiava na educação, mas a educação, por mais que ella a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o essencial ficava; as paixões embryonarias trabalhavam por viver, crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio, durante a gestação... E recordava a crise de então, acabando por maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado não se muda, mas não se sabe. Agora, póde ser que isto de não calar confirme a opinião de que a cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal o que é que ella disse a Natividade? Não fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predicção é que foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram aos ouvidos da mãe, e a imaginação fez o resto. Cousas futuras! Eil-os grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade sorriu, ergueu-se, foi á porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.

—Mamãe, Paulo é mau. Se mamãe ouvisse os horrores que elle solta pela bôca fóra, mamãe morria de medo. Custa-me muito não ir á cara delle; ainda lhe não tirei um olho...

—Meu filho, não fales assim, é teu irmão.

—Pois que não se metta commigo, não me aborreça. Que blasphemias que elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro e cantarolava baixinho para que papae nem mamãe ouvissem. Eu sempre lhe dei alguns cascudos...

—Ahi está!

—Mas é que elle é que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Então, eu havia de apanhar calado?

—Nem calado, nem falando.

—Então, como? Apanhar sempre, não é?

—Não, senhor; não quero pancadas; o melhor é que esqueçam tudo e se queiram bem. Você não vê como seus paes se querem? As brigas acabaram de todo. Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocês com um sujeito mau que morreu ha tantos annos?

—É o que eu digo, mas elle não se emenda.

—Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Você tambem quando fôr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; é melhor que andar dando pancada em seu irmão... Que é lá isso? Não quero arremeços, Pedro! Socegue, ouça-me.

—Mamãe é sempre contra mim.

—Não sou contra nenhum, sou por ambos, ambos são meus filhos. E demais gemeos. Anda cá, Pedro. Não penses que eu desapprovo as tuas opiniões politicas. Até gósto; são as minhas, são as nossas. Paulo ha de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperança é que vocês sejam grandes homens, mas com a condição de serem tambem grandes amigos.

—Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade, quasi com resignação.

—E grande amigo tambem.

—Se elle fôr, serei.

—Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraços, um para elle, outro para o irmão quando viesse.

Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abraço inteiro e de verdade. Vinha tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a mãe não quiz ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu tambem em ser grande.

—Você será medico, disse Natividade a Pedro, e você advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas.

—Eu, disseram ambos a um tempo.

—Patetas! Cada um terá a sua carreira especial, a sua sciencia differente. Já estão curados do nariz? Já; não ha mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmão será degradado.

Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina, outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, não contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade.


[CAPITULO XXVII]