De uma reflexão intempestiva

Eis aqui entra uma reflexão da leitora: «Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-hão elles com a sua esposa? Não quererão a mesma e unica mulher?»

O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capitulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Dahi a habilidade da pergunta, como se dissesse: «Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dous jovens inimigos. Já estou cançada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto ás blandicias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, ás duas, se não é uma só a pessoa...»

Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles devéras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que succedeu e póde ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não puz a penna na mão, á espreita do que me viessem suggerindo. Se quer compôr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler sómente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.


[CAPITULO XXVIII]