Lendo Xenophonte
Como é que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado? Só se póde explicar de dous modos,—ou por um nobre sentimento de piedade, ou pela opinião de que toda a noticia publica cresce de dous terços, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a versão do ferimento era a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e sãos e o imperador era esperado de Petropolis, não acreditou na mudança de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado José. Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
—Temos gabinete novo, disse comsigo.
Almoçou tranquillo, lendo Xenophonte: «Considerava eu um dia quantas republicas tem sido derribadas por cidadãos que desejam outra especie de governo, e quantas monarchias e olygarchias são destruidas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por habeis e felizes...» Sabes a conclusão do autor, em prol da these de que o homem é difficil de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destróe aquella conclusão, mostrando um só homem que regeu milhões de outros, os quaes não só o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoço, sem chegar ao fim do primeiro capitulo.