Manhã de 15
Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio Publico. Chegou ás sete horas e meia, entrou, subiu ao terraço e olhou para o mar. O mar estava crespo. Ayres começou a passear ao longo do terraço, ouvindo as ondas, e chegando-se á borda, de quando em quando, para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma especie de alma forte, que as movia para metter medo á terra. A agua, enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensação, mais que de vida, de pessoa tambem, a que não faltavam nervos nem musculos, nem a voz que bradava as suas coleras.
Emfim, cançou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou á toa, revivendo homens e cousas, até que se sentou em um banco. Notou que a pouca gente que havia alli não estava sentada, como de costume, olhando á toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministerio, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle, a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha ás noticias. Não juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as pessoas não eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou, não a disse a ninguem; tambem não afiou o ouvido para alcançar o resto. Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, não sem algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser amigo de um ou de outro.
Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descripções da marcha e das pessoas, e noticias desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle entrou no que lhe ficou mais á mão, e mandou tocar para o Cattete. Não perguntou nada ao cocheiro; este é que lhe disse tudo e o resto. Falou de uma revolução, de dous ministros mortos, um fugido, os demais presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra.
Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saía deliciosa de novidade. Não lhe era desconhecida esta creatura. Já a vira, sem o tilbury, na rua ou na sala, á missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da rua dos Invalidos e levára ao largo da Gloria, por signal que estava assombrado, não podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o dobro; e pagou.
—Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres.
—Tambem póde ser, porque elle levava o chapéo derrubado, e a principio pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era sangue; barro não tem aquella côr. A verdade é que elle pagou o dobro da viagem, e com razão, porque a cidade não está segura, e a gente corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...
Chegavam justamente á porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo, pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...
—O que é que não é certo, José? É mais que certo.
—Que matáram trez ministros?
—Não; ha só um ferido.
—Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos...
—A morte é um phenomeno egual á vida; talvez os mortos vivam. Em todo caso, não lhes rezes por alma, porque não és bom catholico, José.