Noite de 14

Tudo se explicou à noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente de provincia confessou as esperanças de uma investidura nova; a esposa affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco antes D. Claudia só dizia em segredo. Já não havia segredos que calar.

Paulo soube então tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separação proxima. A dôr os fez amigos por instantes; é uma das vantagens dessa grande e nobre sensação. Já me não lembra quem affirmava, ao contrario, que um odio commum é o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas não descreio do meu postulado, por esta razão que uma coisa não tolhe a outra, e ambas podem ser verdadeiras.

Demais, a dôr não era ainda o desespero. Havia até uma consolação para os dous gemeos; é que a moça ficaria longe de ambos. Nenhum delles teria o gozo exclusivo ao pé da porta. Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é util, muita vez indispensavel, alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar á amiguinha, em particular, para sondal-a ácerca daquella separação, já agora certa, mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O gesto de Flora não traduzia o estado da alma; este podia ser lepido, melancolico, ou indifferente, não vinha cá fóra. Em verdade, ella falava pouco. Os olhos tambem não diziam muito. Mais de uma vez, Pedro deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle era preferido depois, e achava compensação; Paulo então é que rangia os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue á sua recepção, que era a ultima do anno, não acompanhou de perto as agitações moraes daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.

Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. Não era muita, e dominava a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou só a porção mais intima, trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e anecdotas. Não conversavam de politica, e aliás não faltaria materia. As moças, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impressões do grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que só iria em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, até que, podendo ficar alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio ácerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperança de uma longa separação de Flora. O conselheiro não desdizia do receio, nem da esperança.

—É uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui, disse ella.

—Certamente, mas...

—Mas quê?

—Certamente a levará, mas a senhora póde não conhecer bem aquella menina.

—Penso que é boa.

—Tambem eu penso assim. A bondade, porém, não tem nada com o resto da pessoa. Flora é, como já lhe disse ha tempos, uma inexplicavel. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois lhe direi. Note que gósto muito della; acho-lhe um sabor particular naquelle contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fóra do mundo, tão etherea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recondita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu elle, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explical-as.

—Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito engraçado.

Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicação era longa e dificil, e não era urgente, disse elle.

—Eu mesmo não sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade; póde ser. Em todo caso, minha boa amiga, até amanhã ou até Petropolis. Quando espera subir?

—Lá para o fim do anno.

—Então ainda nos veremos algumas vezes.

—Sim, e, se me não vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que os receba e estime. Elles o têm em grande conta; não lhe fazem senão justiça. Pedro acha que o senhor é o espirito mais fino, e Paulo o mais rijo da nossa terra...

—Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?

—O mais rijo e o mais fino.

Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite á dona. Dez minutos depois, Ayres despedia-se do casal Santos.

A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do serão para escrevel-a no Memorial. Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes Flora era a principal figura: «Que o Diabo a entenda, se puder; eu, que sou menos que elle, não acerto de a entender nunca. Hontem parecia querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos; eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella menina e moça... A condição dos gemeos explicará esta inclinação dupla; póde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sóbre a outro, e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, não acaba de escolher de vez. É phantastico, sei; menos phantastico é se elles, destinados á inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio, mas isto os explicaria a elles, não a ella... Seja o que fôr, a nossa organisação politica é util; a presidencia de provincia, arredando Flora daqui, por algum tempo, tira esta moça da situação em que se acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estará bebida e a cevada comida. Um decreto ajudará a natureza.»

Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou então uma pagina do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, até que dormiu. Pouco foi; ás cinco horas e quarenta minutos estava de pé. Era novembro, sabes que é dia.


[CAPITULO LX]