Matar saudades
Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmão de Pedro; tal qual recebia o irmão de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:
—A senhora enfeitou muito.
Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito; calou a impressão. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensação particular, fel-a acanhada, a principio. Não tardou, porém, que achasse outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades.
Como é que se matam saudades não é cousa que se explique de um modo claro. Elle não ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as saudades expiram, para a resurreição, alguma vez antes do terceiro dia. Ha quem creia que, ainda mortas, são doces, mais que doces. Esse ponto, no nosso caso, não póde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como aliás cumpria.
As saudades morreram, não todas, nem logo, logo, mas em parte e tão vagarosamente que Paulo acceitou o convite de lá jantar. Era o dia da chegada; Natividade quizera tel-o comsigo á mesa, ao pé de Pedro, para cimentar a pacificação começada pela distancia. Paulo nem se deu ao trabalho de lá mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o pae e a mãe que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no espaço. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo não entendia essa alternação de sentimentos. De quando em quando, vendo a mãe agitada e preoccupada, mas com outra expressão, Paulo interrogava a filha. Em vez de dar uma explicação qualquer, Flora passou uma vez a mão pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A acção do estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mão, encaral-a de perto, mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, não saiu cá fóra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:
—Que é que tem?
—Nada, respondeu Flora.
—Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mão.
Não acabou o gesto, não o começou sequer; abriu e fechou os dedos apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a matar saudades.