Musa, canta...
No fim do almoço, Ayres deu-lhes uma citação de Homero, aliás duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente, Paulo no começo da Illiada:
—«Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos gregos, que precipitou á estancia de Plutão tantas almas válidas de heroes, entregues os corpos ás aves e aos cães...»
Pedro estava no começo da Odyssea:
—«Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruida a santa Illion...»
Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou a mal a applicação. Ao contrario, a citação poetica valia por um diploma particular. O facto é que ambos sorriram de fé, de acceitação, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous gemeos sentiram-se ainda mais épicos, tão certo é que traducções não valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era applicavel ao irmão:
—Tem razão, Sr. conselheiro,—disse Paulo,—Pedro é um velhaco...
—E você é um furioso...
—Em grego, meninos, em grego e em verso, que é melhor que a nossa lingua e a prosa do nosso tempo.