Entre um acto e outro

Aquelles almoços repetiram-se, os mezes passaram, vieram férias, acabaram-se férias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no Memorial, onde se lê que a consulta ao velho Placido dizia respeito aos dous, e mais a ida á cabocla do Castello e a briga antes de nascer, casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.

Emquanto os mezes passam, faze de conta que estás no theatro, entre um acto e outro, conversando. Lá dentro preparam a scena, e os artistas mudam de roupa. Não vás lá; deixa que a dama, no camarim, ria com os seus amigos o que chorou cá fóra com os espectadores. Quanto ao jardim que se está fazendo, não te exponhas a vel-o pelas costas; é pura lona velha sem pintura, porque só a parte do espectador é que tem verdes e flores. Deixa-te estar cá fóra no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da peça. Fala-lhe da peça e dos artistas. Que é obscura. Que não sabem os papeis. Ou então que que é tudo sublime. Depois percorre os camarotes com o binoculo, distribue justiça, chama bellas ás bellas e feias ás feias, e não te esqueças de contar anecdotas que desfeiem as bellas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as anecdotas engraçadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade na bôca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E verás como as lagrimas séccam inteiramente, e a realidade substitue a ficção. Falo por imagem; sabes que tudo aqui é verdade pura e sem choro.


[CAPITULO XLVII]