S. Matheus, IV, 1-10
Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da situação, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo ao capitulo. Os liberaes fôram chamados ao poder, que os conservadores tiveram de deixar. Não é mister dizer que o abatimento de Baptista foi enorme.
—Justamente agora que eu tinha esperanças, disse elle á mulher.
—De quê?
—Ora de quê! de uma presidencia. Não disse nada, porque podiam falhar, mas é quasi certo que não. Tive duas conferencias, não com ministros, mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou dous...
—Presidencia boa?
—Boa.
—Se você tivesse trabalhado bem...
—Se tivesse trabalhado bem, podia estar já de posse, mas vinhamos agora a toque de caixa.
—Isso é verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.
Baptista passeava, as mãos nas costas, os olhos no chão, suspirando, sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na cabeça de D. Claudia. Este casal só não era egual na vontade; as ideias eram muitas vezes taes que, se apparecessem cá fóra, ninguem diria quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro unico. Naquelle momento nenhum achava esperança immediata ou remota. Uma só ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os pés no chão e cresceu. Não falo só por imagem; D. Claudia levantou-se da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:
—Mas, Baptista, você o que é que espera mais dos conservadores?
Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:
—Espero que subam.
—Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, não é? E nessa occasião você sabe se será aproveitado? Quem se lembrará de você?
—Posso fundar um jornal.
—Deixe-se de jornaes. E se morrer?
—Morro no meu posto de honra.
D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as mãos abertas:
—Baptista, você nunca foi conservador!
O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratidão de um partido. Nunca fôra conservador? Mas que era elle então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Claudia não attendeu a explicações; repetiu-lhe as palavras, e accrescentou.
—Você estava com elles, Como a gente está n'um baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha.
Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella inspirou-lhe uma refutação prompta.
—Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas.
—Dance com que fôr, a verdade é que todas as suas ideias iam para os liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a você de apoiar os liberaes...
—Era falso; o governo é que me recommendava moderação. Posso mostrar cartas.
—Qual moderação! Você é liberal.
—Eu liberal?
—Um liberalão, nunca foi outra cousa.
—Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir é capaz de crêr, e dahi a espalhar...
—Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justiça, porque os seus verdadeiros amigos não o hão de deixar na rua, agora que tudo se organisa. Você tem amigos pessoaes no ministerio; porque é que os não procura?
Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava ás ordens não era concebivel sequer. D. Claudia admittiu que não, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo que dissesse ao Ouro-Preto: «Visconde, você porque é que não convida o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. Dê-lhe uma presidencia, pequena que seja, e...»
Baptista fez um gesto de hombros, outro de mão que se calasse. A mulher não se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era já tremenda. Pensando bem, não recusaria passar o Rubicon; só lhe faltava a força necessaria. Quizera querer. Quizera não ver nada, nem passado, nem presente, nem futuro, não saber de homens nem de cousas, e obedecer aos dados da sorte, mas não podia.
E façamos justiça ao homem. Quando elle pensava só na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma fé existia, o mesmo costume, a mesma esperança. O mal vinha de olhar para o lado de lá; e era D. Claudia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.
A sós comsigo, Baptista pensou muita vez na situação pessoal e politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razão. Que é que havia nelle propriamente conservador, a não ser esse instincto de toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da parochia, e elle começou na escola a execrar os liberaes. E depois não era propriamente conservador, mas saquarema, como os liberaes eram luzias. Baptista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco, Zacharias, que fôram elles senão conservadores que comprehenderam os tempos novos e tiraram ás ideias liberaes aquelle sangue das revoluções, para lhes pôr uma côr viva, sim, mas serena. Nem o mundo era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa occasião appareceu Flora. O pae abraçou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.
—Mas os conservadores não cairam?
—Cairam, sim, mas suppõe que...
—Ah! não, papae!
—Não, porquê?
—Não desejo sair do Rio de Janeiro.
Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pae não apurou as causas da recusa; suppol-as politicas, e achou novas forças para resistir ás tentações de D. Claudia: «Vae-te, Satanaz; porque escripto está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a elle servirás.» E seguiu-se como na Escriptura: «Então o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram.» Os anjos fôram só um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a carinhosamente:
—Muito bem, muito bem, minha filha.
—Não é, papae?
Não, não foi a filha que tolheu a deserção do pae. Ao contrario. Baptista, se tivesse de ceder, cederia á mulher ou ao Diabo, synonimos neste capitulo. Não cedeu de fraqueza. Não tinha a força precisa de trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado. Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas, moralmente falando. Não valem só stoicos e martyres. Virtudes meninas tambem são virtudes. É certo, porém, que a linguagem delle, em relação aos liberaes, não era já de odio ou impaciencia; chegava á tolerancia, roçava pela justiça. Concordava que a alternação dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito, admittiu que na primeira entrada não déssem logar a um converso da ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara, uma commissão, a vice-presidencia do Rio...