§. IX.

Da Guerra de Castella.

A Guerra de Portugal com Castella he taõ antiga, que começou juntamente com o mesmo Reyno, e seus primeiros Principes, e ha mais de 500. annos, que dura. Pelo que nem esta guerra se deve ter por cousa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindose os meyos, por onde se conservaraõ os nossos Reys, terèmos na occasiaõ presente a mesma segurança, e bons successos contra Castella, que por tantos seculos tivemos.

Nesta guerra se haõ de considerar duas cousas. A primeira o poder da gente, com que se fez de cada huma das partes. A segunda o modo, que foy, humas vezes com exercitos, e outras com entradas. No numero da gente nos levaraõ antigamente os Castelhanos muita ventagem, porque como os Reys de Castella senhoreavaõ mais Provincias, e mayores que Portugal, tinhaõ muita mais gente. Por onde se diz na Chronica delRey D. Joaõ I.[51] que sempre os exercitos de Castella tiveraõ dobrada gente, que os nossos, porèm agora experimentamos o contrario; porque com a povoaçaõ do novo Mundo, que os Castelhanos tem feita com tantas Colonias, e com os presidios de Sicilia, Napoles, e Milaõ, e Estados de Flandes, foy tanta a gente, que se tirou das Provincias, que tem em Hespanha, que se achaõ os Reynos de Castella quasi todos despovoados. He isto cousa taõ manifesta, que consta pelo livro intitulado: Poblacion de Hespaña[52] impresso no anno de 1645. por hum Historiador de Castella, o qual no titulo de Medina del Campo, diz que antigamente era habitada de 14U000. vizinhos; e que agora naõ tem mais de 1200. E de Salamanca refere, que havia na Universidade mais de 15U000. Estudantes; e agora naõ chegaõ a 2U. E sobre tudo, que a Cidade de Toledo, cabeça de Castella, e de toda a sua Monarquia taõ rica, e populosa, que àlem da grande multidaõ da Nobreza, Clero, Mercadores, e Povo, só de Officiaes de Seda, e Laã tinha em tempo dos Reys Catholicos mais de 10U. Teceloens; agora confessa o dito Chronista, que naõ passaõ de 5U. todos seus moradores. De semelhantes exemplos poderamos trazer muitos, mas esses bastaõ, por serem dos principaes lugares de Castella. Por onde se vè, que naõ tem hoje aquelles Reynos a decima parte da gente, que antigamente tinhaõ. E sobre esta materia se tem impressos muitos livros modernamente, como saõ: Las sinquo qualidades de los Hespañoles, que despueblan a Hespaña. O Doutor Navarrete intitulado: Conservaçaõ das Monarquias; e o que mais he o mesmo Rey D. Filippe nas Pregmaticas, que fez para a reformaçaõ deste danno, em que chegou a dizer, que estavaõ os seus Reynos de Castella despovoados, e a Monarquia boqueando, termo que se censurou ao Conde Duque, nos cargos, que contra elle deraõ; naõ por ser falso, senaõ pelo manifestar ao Mundo todo. Pelo que naõ sómente naõ poderàõ hoje os Castelhanos pòr contra nòs os numerosos exercitos, que antigamente poseraõ, mas muito menores. E pelo contrario, ainda que tambem neste Reyno se tem sentido a falta da gente, pela que vay para fóra da Barra para as nossas Conquistas; com tudo vemos, que em sua proporçaõ està o Reyno muito mais povoado, que o de Castella. E assim com muita facilidade fez ElRey Nosso Senhor hum Exercito no anno de 1643. que sahio de Elvas com 12U000. Infantes, e 2U. cavallos: e no anno de 45. fez outro na mesma Fronteira de 7U000. Infantes, e 1500. cavallos, e que no Trem da Artelharia, e bagagem levava 13U000. E na Batalha de Montijo houve quasi a mesma gente: e com tudo nestas occasioens naõ juntaraõ os Castelhanos mais gente, que a nossa em numero consideravel, e o mesmo succedeo na batalha das Linhas de Elvas, em que os Castelhanos tinhaõ 14U. Infantes, e 5U. Cavallos, e nòs 8U. Infantes, e 2U500. cavallos, na do Amexial, ou Canal, nos excediaõ em mais trez mil cavallos, ainda que a Infantaria era pouco menos que a nossa. Na de CastelRodrigo era mayor o numero da sua gente do que o nosso, e na de Montes Claros se era inferior em mil Infantes, era superior em mais de mil, e seis centos cavallos. O mesmo vemos agora nas guerras de Catalunha[53] que só o primeiro Exercito foy de 26U000. homens; dos quaes mais de ametade naõ eraõ Castelhanos, e os outros Exercitos, que depois là foraõ, naõ passaraõ no numero de ametade deste primeiro. Pelo que se quando Castella tinha dobrada gente da nossa, se conservou Portugal, e ficou superior, agora que o poder de Castella he tanto menor, com mais razaõ podemos ter esta confiança. Donde podemos entender, que o seu poder he hoje muito menor do que antigamente experimentavamos; e que o nosso valor naõ he hoje menor, que aquelle, com que antigamente nos conservavamos; pois nos recontros, que muitas vezes tivemos com a sua gente de cavallo, ficaraõ os nossos vencedores, sendo os contrarios quasi dobrados em numero; e que àlem disso o que mais importa, he, que temos por nòs a causa justa, defendendo a legitima successaõ dos nossos Reys Portuguezes, e a liberdade da Patria, que Nosso Senhor com tantos favores do Ceo tem patrocinado. Pois vemos, que nesta guerra lhe temos arrazado, e tomado muitas Praças, que estaõ em nosso poder, o que elles naõ poderaõ fazer em tantos annos dos nossos lugares, ainda que abertos; porque se alguns entraraõ, logo foraõ recuperados, e fortificados melhor do que estavaõ. Donde se ve claro o favor de Deos, que temos da nossa parte; pois naõ sómente nos conserva, mas ainda nos faz superiores a estes contrarios, dando-nos delles gloriosas vitorias.

No modo desta guerra se ha de ser por exercitos, ou por entradas, e entrepresas, he muito para considerar, que havendo Rey em Portugal, todos os Exercitos Castelhanos, que entraraõ neste Reyno, e vieraõ a batalha, foraõ desbaratados. Exemplo saõ disto a batalha de Agua de Mayas junto a Coimbra, que venceo o nosso Rey D. Garcia, que reynou antes do Conde D. Henrique, e depois a de Santarem, em que o mesmo Rey D. Garcia prendeo a seu irmaõ D. Sancho Rey de Castella; e se depois se mudou a sorte das prisoens, foy por culpa delRey D. Garcia, que naõ poz a seu irmaõ a bom recado, e se foy só seguindo o alcance. ElRey D.Afonso Henriques desbaratou a ElRey D.Afonso seu primo nos Arcos de Valdevès. Entrando ElRey D.Fernando o II. de Leaõ com seu Exercito atè Cerolico, foy desbaratado pelos Portugueses; de que ainda hoje hà memoria dos vòtos de Nossa Senhora dos Assores. Os Fidalgos da Beira alcançaraõ a vitoria de Trancoso contra outro Exercito Castelhano. O mesmo fez o Condestable D. Nuno Alvares na batalha de Fronteira, e ultimamente ElRey D. Joaõ I. na de Aljubarrota.

O mesmo podemos quasi dizer dos Exercitos Portugueses, que foraõ a Castella. Pelo que mais se fez esta guerra entre ambos os Reynos por entradas, e entrepresas, que por batalhas. ElRey D. Afonso Henriques, e seus successores tomaraõ a Tuy tantas vezes, e a retiveraõ tantos annos, que des do nosso primeiro Rey atè D. Sancho o II. esteve por ElRey de Portugal. ElRey D. Joaõ I. a tornou a tomar, e o mesmo fez a Badajoz; e tantas entradas fizeraõ os nossos por a terra de Coria atè Salamanca, que por isso fortificaraõ os Castelhanos tanto a Ciudad Rodrigo, temendo-se das nossas entrepresas, e correrias. E por este territorio, e pelo de Galliza foraõ sempre as nossas entradas de mòr effeito, que por outras Fronteiras. Pelo que parece, que este estilo he o mais facil, e mais seguro; porque estando huma praça com bom presidio, naõ pòde ser entrada por hum grande Exercito, se tiver outro em seu favor, ainda que seja de muito menor numero, como se tem visto nas guerras dos Turcos com os Polacos, e nas de Jorge Castrioto, e nas modernas de Flandres, e Italia.

Segundo estes exemplos, podemos ter por certo, que havendo Rey em Portugal, tinhaõ conhecido os Castelhanos claramente, que naõ podiaõ sahir com esta empresa, como se refere na Chronica delRey D.Filippe o Prudente de Castella l. 12. cap. 9. Porque dizendo-lhe o Duque de Alva (quando lhe mandou fazer as exequias por ElRey D. Sebastiaõ em Madrid) que melhor fora vilas fazer a Belèm, respondeo ElRey: El tiempo os mostrarà, quan errados fueramos: e segue logo o Chronista com estas palavras: Y con razon, porque entrando con Exercito contra el Cardenal su tio, que juraron brevemente como a escondidas, el Reyno todo se avia de emplear en su defensa, nombrando por General para la guerra el Duque de Bargança, o a Don Antonio Prior de Ocrato interessados en la sussession, y se hallàr a nen ser, y con Exercito en la muerte del Cardenal, que luego vino, con que mejoraran su partido, como lo hizo en Francia despues Henrique de Borbon.

Este juizo delRey D. Filippe foy taõ acertado, que só com elle alcançou a sua pretençaõ sem difficuldade, estando dantes desconfiado della. Porque deixando ElRey D. Henrique o Reyno sem Rey, e os Governadores para Juizes da successaõ, faltou no Reyno a cabeça; porque os Governadores naõ fizeraõ officio de defensores, senaõ de intercessores. Os Serenissimos Senhores da Casa de Bragança, como tinhaõ a justiça clara, naõ se quiseraõ mover, por naõ prejudicarem a seu Direito. E ElRey de Castella por lhe dar competidores, e prolongar o litigio, escreveo ao Duque de Saboya, e Principe de Parma, que se oppussessem à causa da successaõ, e entre tanto comprou as vontades dos Nobres do Reyno com dadivas, e promessas; e assim sem resistencia meteo em Portugal o seu Exercito, que desde a morte delRey D. Sebastiaõ tinha junto da mais pratica Milicia de toda Europa; contra o qual Exercito naõ houve mais, que huma sombra de resistencia do Prior do Crato: o qual vendo, que tinha huma sentença contra si sobre a successaõ; e que naõ tinha por si, senaõ alguns amigos, e seus criados, se fez levantar tumultuariamente em Santarem, ao tempo, que jà o Duque de Alva marchava por Alentejo. Pelo que faltando ao Prior do Crato a authoridade publica, Capitaens, Soldados, e dinheiro, e sobre tudo o tempo, naõ pode na brevidade de taõ poucos dias fazer mais resistencia, que com alguma pouca gente popular, que entaõ havia em Lisboa, por estar a Cidade quasi despejada por causa da peste: e assim naõ merece nome de batalha a pequena briga, que tiveraõ em Alcantara, como diz Justo Lypsio na sua Política cap. 3, Sì prælium dixerim veterani Exercitus cum seminermi, & urbana, turba congressionem. Pelo que bem notoriamente se vè, que hum Rey taõ prudente, como D. Filippe de Castella, naõ teve confiança de sahir com a empresa de Portugal, havendo nelle Rey, como temos dito, senaõ vendo-o sem cabeça, e dividido.

Este parecer delRey D. Filippe naõ foy só consideraçaõ politica, se naõ pura experiencia, por ser este meyo, por onde os outros Reynos de Espanha, que foraõ Aragaõ, Granada, e Navarra, tiveraõ entrada na sua Monarquia. O Reyno de Aragaõ naõ sendo mayor, antes menor, que o de Portugal, os Reys de Castella tiveraõ muitas vezes guerra com elle,[54] seguindo a empresa com taõ grandes Exercitos, que ElRey D. Pedro de Castella entrou em Aragaõ com 9U000. de cavallo, afóra a gente de pè, que era muita, e ElRey D. Joaõ II. com 7U000. homens de armas, e 3U600. ginetes; e 60U000. infantes;[55] e com tudo sendo os Exercitos dos Aragoneses muito inferiores, sempre Aragaõ se conservou inteiro sem poder ser rendido pelo poder de Castella, atè que pelo casamento da Rainha Catholica de Castella ficaraõ ambos os Reynos unidos. O Reyno de Granada se conservou por muitos centos de annos contra muito mayor poder do com que foy conquistado pelos Reys Catholicos. Porque ElRey D. Henrique III. continuou a guerra contra Granada com 10U000. homens de armas, e 4U000. ginetes, e 50U000. infantes, e por mar com 30. galès, e 50. Navios;[56] contra tudo isto resistiraõ os Granadinos. Pelo que naõ perderaõ o Reyno pela força dos Castelhanos, senaõ pela divisaõ, que entre si tiveraõ, levantando tres Reys juntos dous irmaõs; o mais velho dos quaes era pay do Rey Chico: faziaõ estes todos entre si taõ cruel guerra, que elles per si se consumiraõ; e por isso sendo cativo o Rey Chico pelos Castelhanos duas vezes, os Reys Catholicos o tornaraõ logo a pòr em sua liberdade, para que tornasse a sustentar o seu bando, o que foy de tanto effeito, que morto seu pay pelo tio, elle entrou em Granada, e dentro da Cidade se estiveraõ por muito tempo degollando, assaltando-se, e dando-se batalhas, e naõ pararaõ nestas divisoens, se naõ no ultimo anno, em que Granada se rendeo, estando jà taõ consumidos da guerra civil, que naõ tinhaõ jà em todo o Reyno mais de 300. cavallos, começando-se as parcialidades com 20U000. O Reyno de Navarra com ser taõ pequeno, que naõ tem mais que tres Cidades, se conservou por mais de 500. annos; sendo assim que naõ sómente os Reys de Castella, mas tambem os de Aragaõ lhe fizeraõ guerra no mesmo tempo, com tudo sempre permaneceo, em quanto teve Rey, que o governasse.[57] O que naõ querendo fazer D. Joaõ de la Brit casado com Dona Catharina Rainha proprietaria delle, desamparou o Reyno, e se foy para França, dando licença aos de Pamplona, que se entregassem aos Castelhanos. E deste modo entrou Navarra na Coroa de Castella, tendo-se atè entaõ defendido de muitos mayores Exercitos; e por isso lhe disse a Rainha Dona Catharina: Si vos fuerades Reyna, y yo Rey, nunqua se perdiera Navarra. Bem se verifica logo destes exemplos o acertado parecer delRey D. Filippe; e que he certissima aquella celebre sentença de Vegecio, que diz, naõ haver Naçaõ taõ limitada, que unida senaõ defenda, ainda que seja cõmettida de muito mayor poder: Nulla quamvis minima natio, diz elle,[58] potest ab adversarijs deleri, nisi proprijs simultatibus se ipsam consumpserit. Pelo que sendo esta maxima verdadeira, ainda numa naçaõ minima; quanto por mais certa se pòde ter na nossa Naçaõ Portuguesa; a quem em certo modo podemos chamar maxima; pois no valor, e lealdade he superior a todas; e em poder he tamanha, que reynando ElRey D. Afonso III. guerreou Portugal juntamente contra todos os Reynos de Espanha, e Barbaria. E no delRey D. Joaõ III. sustentou a India, fazendo-lhe guerra no mesmo tempo tres Emperadores, que foraõ Carlos V. Emperador de Alemanha nas Malucas, o Graõ Turco Emperador de Constantinopla em Cambaya, e o Samorim, que tambem tem a suprema dignidade, ou Imperio dos Nayres no Malavar, e de todos elles alcançou gloriosas vitorias. Pelo que tendo Portugal Rey, naõ hà que temer nenhum poder estranho, como testificaõ os exemplos de todos os seculos, os dictames mais verificados dos Politicos, e sobre tudo os divinos Oraculos.