§. X.

Da Milicia da Ordenança.

Mudando-se com o tempo a ordem da Milicia antiga deste Reyno, e ficando sómente os officios mayores, quasi só com os titulos honorarios, pretendeo ElRey D. Manoel melhorar, e assentar por lista a gente, que havia em todos os lugares do Reyno; e ElRey D. Sebastiaõ trabalhou mais nesta materia, fazendo hum largo Regimento, que mandou guardar com grande observancia, para adèstrar o povo na disciplina Militar, e o ter prestes para quando fosse necessario servirse delle.

Ordenou que os Alcaides Mòres, e Senhores dos lugares fossem Capitaens Mòres delles; e que onde os naõ houvesse, fossem eleitos em Camera pelas pessoas do governo; e do mesmo modo os Sargentos Mòres, os quaes depois com os votos da Governança elegessem os Capitaens, e Officiaes das Companhias: que o Capitaõ Mór repartisse a gente de seu lugar, e termo em companhias de 250. e que cada Domingo sahissem ao campo a se exercitar, confórme as armas, que cada hum trouxesse, havendo premios para os mais dèstros, e penas aos que faltassem; e que os homens de cavallo fizessem cada mez resenha debaixo dos Capitaens de cada lugar; e que cada anno se fizessem dous alardos geraes, hum pelas Oitavas da Pascoa, e outro por dia de S. Miguel; e que se ajuntasse toda a gente do termo na cabeça da Capitanîa; onde pelo Capitaõ Mòr, e Sargento Mòr fossem ordenados, e se exercitasse, assim a gente de cavallo, como de pè. E para bom governo da Milicia tinha o Capitaõ Mòr seu Regimento, que mandava executar pelos Ministros das Companhias, em cada huma das quaes havia seu Meirinho, Escrivaõ, e Recebedor. Esta ordem se guardou em tempo delRey D. Sebastiaõ, atè todo o delRey D. Filippe, e depois se renovou algumas vezes, e de presente se observa com cuidado. Porém nos lugares maritimos, e no Reyno do Algarve està isto em mais observancia.

O numero da gente, que se alistou nesta Milicia foy grande pois só na Villa de Barcellos, e seu termo se escreveraõ desesete mil homens, e tantos sahiaõ aos alardos.[59] Na Chronica delRey D. Manoel I. p. c. 47. diz Damiaõ de Goes, que das listas desta gente da Ordenança escolheo ElRey huma Milicia de 6U000. de cavallo, e 800. acobertados, e 20U000. de pè, para se servir delles com presteza, quando fosse necessario, como aconteceo no cerco do Castello de Arzilla, em que o Conde de Borba foy cercado, a quem ElRey querendo socorrer, em cinco dias ajuntou no Algarve passante de 20U000. homens de pè, e de cavallo, como se refere na mesma Chronica 2. p. c. 29. A ordem, que dissemos havia da gente de cavallo, e Vassallos que os Reys antigos pagavaõ, parte se guardou sòmente atè o tempo delRey D. Afonso V. porque de entaõ para cà naõ ha expressa mençaõ de os Senhores de terras acudirem com numero certo de gente de cavallo, ou de pè; mas fica no arbitrio de cada hum, com o que senaõ acrescentou pouco no serviço delRey; por quanto trazem agora os Senhores de terras muito mayor numero de gente voluntariamente, do que antigamente davaõ por obrigaçaõ, como se vio em algumas occasioens de entaõ para cà; e particularmente na ultima vez, que os mandaraõ vir a Lisboa no anno de 1596. onde sò os que alli se ajuntaraõ, que foraõ poucos, trouxeraõ mais de 1U000. de cavallo, que he o dobro, que antigamente davaõ os Senhores do Reyno. Para haver mayor numero de cavallos, mandaraõ os Reys prohibir as mulas, quartàos, e facas, como foy ElRey D. Joaõ II. D. Joaõ III. e D. Sebastiaõ; e fizeraõ particulares leys, para que sempre se conservassem no Reyno as boas raças dos cavallos, as quaes executavaõ os Coudeis Móres. Mas ElRey D. Filippe o Prudente mandou extinguir estas Coudelarias nas Cortes de Tomar, as quaes Sua Magestade, que Deos guarde, tornou a renovar, com que ha jà muitos, e bons cavallos no Reyno, por serem os desta Provincia taõ afamados em Europa, que por isso os nomeavaõ por filhos do Vento. ElRey D. Joaõ V. attendendo à grande falta que havia de cavallos por todo o Reyno, deo a Superintendencia Geral de todas as Coudelarias de Portugal ao Duque D. Jayme seu Estribeiro Mòr, que com alguns Ministros de letras, faz huma Junta, em que se ordena tudo o que he necessario para aquelle fim, de que jà se tem visto grande utilidade.