§. VI.
Da origem das Cruzes Floreteadas, Cruzes da Cruzada, e de S. Jorge, que se trazem nos Escudos.
Depois da entrada dos Arabes em Hespanha, se começou a usar das insignias nos Escudos mais ordinariamente em tempo do nosso primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu primo ElRey D. Afonso VII de Castella, como o mostra doutamente o Chronista Ambrosio de Morales,[103] e o Arcebispo D. Antonio Agostinho;[104] e por isso se pòde dar com razaõ principio às de Portugal des do tempo delRey D. Afonso Henriques para cà. E sendo certo, que em Castella, e em outras partes de Espanha se tomaraõ as Cruzes, Aspas, Luas, e Estrellas pelas occasiaõ da guerra, que naquellas Provincias ouve com os Mouros, podemos ter por conjectura provavel, e quasi certa, que nas que se offereceraõ neste Reyno semelhantes, se deu principio às que cà se trazem.
O primeiro, que pintou Cruz nos escudos, foy o Emperador Constantino, o qual depois, que lhe appareceo este divino sinal no Ceo, o mandou pintar nas bandeiras, e dahi nos escudos. E porque os Capitaens antigos eraõ muito pios, traziaõ os mais delles ordinariamente Cruzes por divisas. Disto temos em Espanha assás de exemplos; porque a primeira insignia, que tiveraõ os Reys de Aragaõ, foy a Cruz, e os primeiros Reys de Leaõ, que succederaõ a ElRey D. Afonso o Casto, a trouxeraõ tambem por armas; e do mesmo modo o Conde D. Henrique, que trouxe huma Cruz chaã. Daqui tiveraõ origem as Armas de Portugal, porque trazendo a mesma Cruz seu filho D. Afonso, depois que ganhou a batalha do Campo de Ourique, em memoria das cinco Chagas, com que Nosso Senhor lhe appareceo Crucificado, partio a Cruz em cinco Escudos, pondo dentro de cada hum trinta circulos, que denotaõ os dinheiros, porque Christo nosso Senhor foy vendido. Alèm disto para ficar lembrança da grande vitoria, que alcançara dos Mouros, atravessou quatro cordoens no escudo, dous em Cruz de meyo a meyo; e dous em aspa de canto a canto, fazendo de outro cercadura, e por todos elles pendurou muitos escudos; posto que quatro, que ficaõ dentro no escudo, e o do chefe da bordadura, saõ notavelmente mayores; e feitos a modo de adargas; estes parecem dos cincos Reys, que alli foraõ vencidos, e os mais seriaõ de outras pessoas principaes, ou dos que ElRey por sua maõ alcançasse. Esta me parece a origem, que tem estes escudinhos, e cordoens delRey D. Afonso, os quaes se vem nesta fórma, assim na sua sepultura em Santa Cruz de Coimbra, como em todos os seus privilegios, depois da batalha, dos quaes estaõ alguns no Cartorio do Cabido de Evora. Porèm D. Sancho I. despejou logo o escudo destes escudetes, como parece entre outros exemplos pelos cunhos dos seus maravidîs; hum dos quaes tenho de ouro do tamanho de hum tostaõ, no qual elle està esculpido de huma parte armado a cavallo com espada na maõ, e da outra os cinco escudos em Cruz, que nòs chamamos Quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais.
Hà com tudo nas mesmas Cruzes, que se trazem por mais, varias differenças; porque humas saõ chaãs, como as de S. Jorge, outras floreteadas, como as de Aviz, outras com as pontas quadradas, como as da Cruzada, e finalmente outras feitas em aspa. As armas de Morimundo Convento Cisterciense eraõ huma Cruz floreteada;[105] quero dizer, era huma Cruz, cujos braços, e haste rematavaõ em flores de liz. E porque Calatrava foy de sua jurisdicçaõ, ficou à sua Ordem huma Cruz semelhante por armas; e depois a Alcantara, e a Aviz, por serem Ordens Militares, que lhe estiveraõ sojeitas.
Mas sem embargo disto dizem muitos Authores, que as Cruzes floreteadas, que se trazem nas armas em Espanha, tiveraõ principio da batalha das Navas de Tolosa, por huma semelhante, que appareceo no Ceo o dia da peleja, como diz largamente Gonçalo Argòte:[106] e posto que elle mostra isto mais propriamente dos Castelhanos, e Navarros, como seja certo, que de Portugal mandou ElRey D. Afonso II. grande socorro a ElRey seu primo D. Afonso IX. de Castella, consta que muitos Fidalgos Portugueses se acharaõ nella, assim por acudirem ao urgente perigo, que toda Espanha corria pelo grande poder dos Mouros, que contra os Christaõs vinha, como por mostrarem o valor de suas pessoas, para o que sahiaõ da patria a buscar semelhantes empresas, quando cà havia paz, e particularmente a Castella, como o testifica o Conde D. Pedro,[107] dizendo, quando trata da tomada de Sevilha: Em aquel tempo os Fidalgos Portugueses hiaõ a Castella muitas vezes, por se provarem pelos corpos, quando em Portugal mesteres naõ havia, &c. Destes foy hum o Conde D. Rodrigo Frojaz Pereira; e assim tomou por armas esta Cruz;[108] e o mesmo se pode entender dos Almadas, Albergarias, e Farinhas, que trazem estas armas, que provavelmente se deviaõ là achar, florecendo entaõ nestas Familias Cavalleiros de muito nome, como em suas linhagens se refere; o mesmo se pòde dizer das outras, que hà no Reyno.
As Cruzes da Cruzada tomavaõ por insignias os que hiaõ à Conquista da Terra Santa, e saõ como as de Christo; como se vè nos Cavalleiros Gaitanes de Castella, e cà as trazem os Pimenteis, e Teixeiras.
Outras Cruzes hà, como as de S. Jorge, que tomaõ os escudos de alto a baixo, e de ilharga.[109] Estas se introdusiraõ por devaçaõ do Santo, por ser advogado da Milicia, e particularmente o invocavaõ os Ingleses, e Portugueses nas pelejas. As que hà em Portugal desta fórma, parece se deviaõ tomar na batalha, que se deu em Alcacere do Sal aos quatro Reys Mouros, que o vinhaõ descercar;[110] porque antes da peleja viraõ os nossos no Ceo hum homem muy resplandecente com huma Cruz vermelha nos peitos; em memoria do qual he de crer, que os que presentes se acharaõ, tomaraõ por insignia este divino sinal na mesma fórma, em que lhes appareceo.
As Familias, que trazem Cruzes floreteadas, saõ: Alarcaõ, Albergaria, Leaõ, Meira, Meireles, Moreiras, Pereiras, Soares de Albergaria, Sisneiros.
As que trazem Cruzes da Cruzada, saõ Bulhoens, Gançoso, Pimenteis, Teixeira.
As que trazem Cruzes de S. Jorge, saõ Almeidas, Atouguia, Beja, Frades, Loja, Mello, Pào, Sarzildes, Veigas.