§. XV.

Das Armadas ordinarias do Reyno, e da grande brevidade, com que em Lisboa se aprestaraõ poderosos socorros para fóra da Barra.

A Armada ordinaria, que antigamente havia neste Reyno para defensaõ da Costa, era de tres galès, e cinco Navios, como se vè na historia delRey D. Afonso IV.[71] ainda que ElRey D. Pedro favoreceo a ElRey de Castella com dez galès por algumas vezes; de modo que este numero, pouco mais, ou menos, era o ordinario. Porque como os inimigos, que por o mar entaõ havia, eraõ de pouca importancia, naõ procuravaõ os Reys trazer contra elles mayores forças. Com tudo andando ElRey D. Fernando de Portugal de guerra com Castella, armou 32. galès, e 30. Nàos[72] Mas quem poz mayor numero de vèlas no mar, foy ElRey D. Joaõ I. o qual sendo ainda Defensor do Reyno, mandou vir da Cidade do Porto huma Armada de 35. vèlas, em que entravaõ 18. Nàos, e 17. galès,[73] e depois na tomada de Ceita foy o numero mayor, pois só do Porto sahiraõ 70. velas, em que entravaõ 17. galès. Na tomada de Alcacere passou ElRey D. Afonso V. a Africa com 220. vèlas, e na de Arzilla com 338. Daqui em diante como o cõmercio das terras se foy abrindo, assim se foy acrescentando este poder de modo, que naõ sómente defenderaõ os nossos Reys as Costas maritimas de seus Reynos, mas mandaraõ poderosas Armadas a socorrer os estranhos, [43.] como foy a que levou a Italia D. Garcia de Meneses Bispo de Evora para a recuperaçaõ de Otranto,[74] e a que ElRey D. Manoel mandou em favor dos Venezeanos, e a com que ajudou ElRey D. Joaõ III.[75] ao Emperador Carlos V. na tomada de Tunes, e ElRey D. Sebastiaõ a ElRey de Castella para a tomada de Pinhaõ. Na India se vio mais este nosso poder maritimo,[76] pois desbaratamos naõ só as Armadas daquelles Reys do Oriente; mas as do Soldaõ do Cairo, e as do Gram Turco, cheyas de Genizaros, e Mamelucos. Por onde diz Damiaõ de Goes,[77] que em seu tempo trazia ElRey D. Joaõ III. no mar, assim no Reyno, como em suas Conquistas 300. vélas. ElRey D. Sebastiaõ passou a Africa[78] com 1U000. embarcaçoens, que foy a mayor Armada, e mais poderosa, que se vio no mar Occeano.

Porèm o que mais admira he a abundancia, com que os Reys deste Reyno tinhaõ providos os Armazens de Lisboa, para com toda a presteza poderem lançar ao mar huma Armada poderosa, quando lhes conviesse, como se vè dos exemplos seguintes.

Os Mouros de Granada cercaraõ a Cidade de Ceita[79] com huma armada de 64. vèlas, em que entravaõ onze galès. Soube ElRey D. Joaõ I por recado de Tarifa, que sahira esta armada sobre Ceita, e mandou em Lisboa aprestar o socorro com tanta brevidade, que quando o Conde D. Pedro de Meneses avisou a ElRey, jà a embarcaçaõ de Ceita achou no caminho o nosso socorro taõ poderoso, que rendeo a armada inimiga, e descercou a Cidade.

Quando os Mouros cercaraõ a Fortaleza da Graciosa,[80] que ElRey D. Joaõ II. mandou fazer sobre o Rio de Larache, a mandou ElRey socorrer no mesmo dia, e depois quasi por horas atè fazer pazes com o Muleixeque.

Entrou ElRey de Fez em Arzilla, e cercou o Conde de Borba no Castello;[81] em cinco dias ajuntou ElRey D. Manoel o socorro de hum poderoso Exercito, e se achou com elle no Algarve com huma numerosa Armada para passar o estreito, como jà tocamos.

Cercando Xarife a Magazaõ na tutoria delRey D. Sebastiaõ em 4. de Março lhe mandou em 20. dias taõ grande socorro, que fez levantar o cerco ao inimigo.[82]

Assaltaraõ huns piratas Franceses a Cidade do Funchal[83] a 2. de Outubro de 1566. chegou a nova a Lisboa a 9. do mesmo, e o socorro se aprestou com tanta diligencia, que aos 22. chegou a nossa Armada à Ilha; a qual constava de outo galeoens, algumas zavras; e muitas caravelas, com medo da qual os Franceses se tinhaõ partido da Ilha a 17.

Destes exemplos se vè, que as forças maritimas deste Reyno saõ das mayores de Europa, quando os Reys quiserem usar dellas; porque assim como a natureza deu a Lisboa aquelle excellente porto, e sitio, com que a fez a Rainha do mar Oceano, como lhe chamaõ gravissimos Authores; assim tambem a proveo em seu territorio de grande copia de madeira para embarcaçoens, como se vè nos Pinhaes de Leiria atè o Mondego, e em todas as Ribeiras do Tejo, Sadaõ, e Setuval; a que tambem ajuda toda a mais Costa do Porto atè Viana, donde, e do Algarve tem sahido muitas vezes grandes Armadas. E assim em razaõ destas commodidades, e dos mais materiaes, que saõ necessarios para as frótas, se fez no Porto de Lisboa a mayor parte da Armada, que o Duque de Medina Sidonia levou contra Inglaterra, e a com que depois o Adiantado de Castella intentou a mesma empreza. Sendo a obra das embarcaçoens, que se fazem em Portugal, a melhor do mundo,[84] como confessaõ os Estrangeiros. Porèm deixando estas particularidades. Os Reys D. Manoel, e D. Joaõ III. dividiraõ as Armadas ordinarias do Reyno em tres esquadras, huma para a guarda da Costa, outra para o Estreito, e Algarve, e a terceira para as Ilhas. A Armada da Costa era de Navios, em que havia atè 300. homens de peleja; porèm crescendo o numero dos Piratas, foy necessario acrescentar-se tambem o numero dos nossos Navios; atè que entrando no governo de Portugal ElRey D. Filippe o Prudente, e vendo o muito que tinha despendido do patrimonio Real com sua pretençaõ, introdusio neste Reino no anno de 1592. o tributo novo do Consulado, que saõ tres por cento nas Alfandegas, para com elle fazer todos os annos huma Armada grossa de doze galeoens, que podesse guardar a Costa, e trazer seguras as frótas das Conquistas das Ilhas atè Lisboa. A Capitanîa Mòr desta Armada deu com titulo de General ao Conde da Feira, e dahi por diante se foy provendo de tres em tres annos; e nesta ordem se conserva atè o presente; ainda que no fazer destas Armadas houve grandes intercadencias, ficando muitos annos as Costas do Reyno, e suas Fronteiras sem guarda; de que resultaraõ vermos em tempo dos Reys de Castella tantas perdas de Nàos, e Navios tomados pelos inimigos, e o que peyor he, muitos lugares deste Reyno roubados, e destruidos por elles. Porèm continuando-se estas Armadas do Consulado, para guarda da Costa com hum terço de soldados, que de veraõ andem embarcados, e de inverno se alogem no Castello de Lisboa, ficaràõ as Costas do Reyno seguras, e as frótas das Conquistas chegaràõ livremente a nossos portos, e averà nas armadas soldados praticos, e costumados ao mar, e naõ bizonhos, e enfermos; por cada anno ser gente nova, e que nunca se embarcou; e terà sempre Sua Magestade força competente em Lisboa para rebater qualquer subito accidente, que inesperadamente aconteça. A Armada do Estreito humas vezes era de fustas, outras de galès, e às vezes de caravelas. Vasco Fernandes Cesar andando com huma fusta em guarda do Estreito, pelejou, e tomou seis galeotas de Mouros. E D. Pedro da Cunha com quatro Galès rendeo outo de Turcos. As Caravelas ordinarias naõ passavaõ de seis, e ainda assim faziaõ muito bem a guarda contra os Piratas Berberiscos. Porèm se este numero de Caravelas se reduzira a Galeoens; entendem os homens mais praticos, que com elles poderaõ os Reys de Portugal ficar senhores de todo o comercio de Europa, como se aponta nos Discursos Politicos, que imprimi no anno de 625. Porque sendo notorio, que todas as Naçoens do Norte, naõ se sustentaõ mais, que do trato das obras mechanicas, em que todos os moradores daquellas Provincias se occupaõ, e que de força os haõ de vir a vender nos Reynos de Castella, e em Italia, e Levante; havendo para isso de passar forçosamente pelo Estreito, ficavaõ os nossos senhoreando todos estes Navios Mercantîs, com que obrigariamos todas estas Naçoens a necessitarem de nossa amizade, ou a trazerem taõ grandes Armadas, que lhes viriaõ a ser de mòr custo, que o proveito da mercancia; pois tendo os nossos Galeoens a retirada segura nos Portos do Algarve, e Africa, ficavaõ senhores do Estreito: o que se hoje se fizer, serà de mayor proveito, e reputaçaõ, que nenhum outro meyo para os reduzir á nossa amizade, como bem adverte o Doutor Antonio de Sousa de Macedo,[85] Embaixador, que foy a Holanda, na sua Harmonia Politica, que dedicou ao Serenissimo Principe D. Theodosio Nosso Senhor. A Armada das Ilhas era ordinariamente de cinco, ou seis vèlas, em que entrava hum Galeaõ: esta Armada servia de guardar as Costas das Ilhas, que naõ fossem infestadas de Cossarios, e esperarem ahi as Nàos, que vinhaõ da India, e dar-lhes guarda atè Lisboa. Muitas vezes se encommendou a Capitanîa Mòr desta Armada a algum Fidalgo das Ilhas, para que com outros Capitaens, e gente nobre daquelles Lugares se exercitassem na Milicia, e ajudassem com suas pessoas, e com as embarcaçoens, que là se faziaõ, as forças deste Reyno.

Estas saõ as Armadas, que consta andavaõ para guarda dos nossos mares em tempo delRey D. Manoel, e delRey D. Joaõ III. e porque o poder dos Piratas hia cada vez crescendo mais, communicando ElRey esta materia com o Emperador no anno de 1552. se assentou pelos Conselheiros mais praticos de Estado, e Guerra, que as nossas Costas maritimas se defendessem nesta fórma. Que ElRey mandaria armar 20. Navios Latinos de 25. atè 30. toneladas cada hum, que andassem sempre à vista da terra, tres delles haviaõ de estar em Cascaes, quatro na Atouguia, quatro em Caminha, quatro em Lagos, dous em Villanova de Portimaõ, tres em Cizimbra, ou Sines, que eraõ os lugares, em que os Navios armados costumavaõ vir: e àlem destes, andariaõ quatro Galeoens correndo a Costa mais ao mar; e ajuntariaõ assim cada vez, que cumprisse, os 20. Navios referidos, e álem disto andariaõ na Costa do Algarve quatro Navios de remo, hum Navio grosso, e tres Caravelas, e se uniriaõ, quando conviesse, com os outros Navios da mesma Costa; os quaes andariaõ, assim no inverno, como no veraõ, no mar, e só os do remo se poderiaõ recolher. Para as Ilhas se mandariaõ dez Navios armados, tres delles Galeoens, e os 7. Caravelas; e que os Navios, que haviaõ de caminhar para a Costa de Guinè, S. Thomè, e Brasil, fossem, e viessem em tres monçoens, huma em Janeiro, outra em Março, outra em Setembro, e que todos elles fossem armados. A ordem, que o Emperador deu para as guardas das Costas de Castella, naõ serve aqui, mais que os Capitaens das Armadas se favorecessem huns aos outros, quando cumprisse.