§. XXII.

Dos Infançoens.

Sobre o nome, e qualidade de Infançoens naõ hà menor alteraçaõ entre os Authores,[152] afirmando muitos, que se dava sómente este titulo àquelles, que dos Infantes descendiaõ, e que por isso eraõ assim chamados. E disto hà sentenças em favor dos Cidadaõs de Lisboa, e do Porto, que todos tem privilegios de Infançoens, concedidos pelos Reys passados. Porèm o contrario desta opiniaõ consta claramente das historias, dos privilegios, e das mesmas Provisoens Reaes. Porque sabido he, que o nome de Infante naõ passa aos filhos dos Infantes; mas acaba juntamente com elles; e se passara, e se chamaraõ Infançoens, como estes Authores querem, sem duvida mayor honra fora a de Infançaõ, que a de Rico Homem. Porèm consta, que sendo os Ricos Homens Senhores particulares, em quem naõ havia sangue Real, precediaõ em tudo aos Infançoens, logo naõ podiaõ ser filhos de Infantes. Ve-se isto em muitos lugares do Conde D. Pedro,[153] o qual refere nos livros das Linhagens de Espanha, que sendo Ruy Gomez de Britteiros Infançaõ, o fizera ElRey D. Afonso Rico Homem, como atraz deixamos Escrito. E tratando de D. Diogo Lopez o Bom Senhor, de Biscaya, quando veyo de vencer hum graõ torneo, que se fez entaõ em Castella, diz[154] que desarmando-o sua Mulher Dona Toda com as Donas, e Donzellas de sua Casa, lhe acharaõ hum ferro de setta em huma perna; e espantando-se Dona Toda de como o podèra sofrer tanto tempo, lhe disse elle: Honrada està agora a filha, do Infançom. Ao que ella respondeo: Este Infançom, que vòs dizedes, por Rico Homem era tido em sua terra. Por onde se vè claro; que mòr dignidade era a de Rico Homem, que a de Infançaõ. O mesmo consta dos privilegios, e em particular do delRey D. Afonso IV. que traz o Doutor Jorge de Cabedo; porque nas aposentadorias, que entaõ era costume dar-se nos Mosteiros aos Fidalgos, manda que se dem aos Ricos Homens 30. reis, e aos Infançoens 15. e aos Cavalleiros 10. E disto hà outros muitos exemplos, que naõ refiro por escusar molestia. E assim tornando à origem deste nome, deixadas as opinioens, a mim me parece muy provavel o que escreve Vidal Canhelas Bispo de Huesca Author antigo de Aragaõ,[155] de quem Jeronymo Çurita faz muita conta, o qual affirma, que assim como os filhos de Reys, que naõ herdavaõ, se chamavaõ Infantes; assim aos filhos dos Fidalgos, que naõ herdavaõ as Casas, e Morgados de seus pays, lhes chamava o vulgo à sua imitaçaõ, Infançoens, e o mesmo a seus descendentes; o que tambem affirma Gonçalo Argote de Molina, dizendo na Nobreza de Andalusia. 1. c. 77. que os Infançoens eraõ filhos dos Ricos homens. E assim mesmo Escolano[156] na Historia de Valença. Pelo que ainda, que lhes faltavaõ as riquezas, e grandeza, por naõ serem os principaes de sua Casa, naõ deixavaõ de ser muito privilegiados, e honrados. A esta opiniaõ favorece muito ElRey D. Afonso, quando fallando dos Infançoens nas suas Partidas,[157] diz: E como quer que estos vengan antigamente de buen liñage, & hayan grandes heredamientos, peró nó son en cuenta destos grandes Señores, que de suso diximos. E bem se vè serem de boa linhagem, pois casavaõ suas filhas com Ricos Homens, e os Reys lhes davaõ com facilidade o mesmo titulo, e os avantajavaõ aos Cavalleiros ordinarios. Pelo que muitos impetravaõ dos Reys os privilegios, e titulo de Infançoens, como foraõ as Cidades jà nomeadas; o que os Reys concediaõ sem mais ceremonias, que passarlhes disso suas cartas.