SCENA VII

Germano e Traviata

Germano (com furia) Peça a Deus, minha senhora, que suspenda o meu furor. Mulher fatal, peccadora, sem coração, nem pudor, atrever-se a enfeitiçar o meu querido Alfredinho, uma joia, um anjinho, mais puro que uma donzella… (convicto) pois tem palmito e capella.

Traviata

Que atrevimento é esse? Quem é o senhor? Diga já! Sou mulher, sou caprichosa, e deu-me isso na telha; e emquanto eu não fôr velha e tiver cara com geito, julgo que estou no direito de seduzir quem me apraz.

Germano

Descarada como sete! É necessario que entenda que é um crime que commette.

Traviata

Alto lá. Pare Suspenda esse ar tão arrogante… (Atira-lhe o chapéu ao chão) tire fóra esse penante e a ser delicado aprenda. Tome cautella em si, e tenha o respeito devido, mas se quer riscar commigo… (Mãos nas ancas, desafiando á fadista. Dá-lhe pançada). Vamos, salte p'r'aqui.

Germano (áparte)

É uma mulher nunca vista, demais a mais é fadista. (Alto, humildemente) Tem razão. Devo pedir que me não roube o rapaz… elle, coitadinho, é capaz de se matar p'ra servir.

N.º 6

(Musica)

Lindo e gentil como uma flôr, mais innocente, nada, não ha; não conhece outro amor que o amor de seu papá.

Todos os meus ternos carinhos
sempre sempre lhe consagrei,
em confeitos e bolinhos
bons patacos eu gastei.

Quer de noite quer de dia,
sempre n'elle estou a pensar,
e toda a minha mania
é que m'o querem roubar.

Se me perde o maganão, quanto me fará soffrer… Oh céos! Então! quero morrer…| bis.

Traviata

(Fallado) Suas magoas reconheço, e por isso eu obedeço. (Tira do bolso um cartão de visita e um lapis). E por este meu cartão, elle saberá bem depressa que não será meu amante; n'elle lhe peço que me esqueça, que afogue essa paixão, sem ficar por isso triste, que me perdôe esta affronta, e que emfim faça de conta que esta mulher não existe.

Germano (contente)

Oh! meu Deus! Se tal fizer, não é mulher, é um anjinho.

Traviata

Vou tudo isso aqui escrever: Volta-te lá, ó Zézinho. (Vira Germano de costas e escreve apoiando-se nas ditas).

N.º 6 (bis)

(Musica)

Alfredo (dentro)

Sim, é de amor que meu peito palpita
Sim, eu te adoro, oh cara bonita!
Mysterioso, mysterioso isto é!
O amor me torna ditoso
oh! sim, ditoso; olaré! olaré!

Germano

(Fallado) Elle ahi vem. Por quem é, retire-se, p'ra que a não veja; quero pregar lhe um sermão que o vou deixar a zinir, e se não me quizer ouvir, dou-lhe tamanha cerveja que vae de trombas ao chão.

Traviata

Faça-se o sacrificio.

Germano (agradecido)

São os ossos do officio. Que o bom Deus nada lhe negue. (Áparte, com gosto) P'r'o diabo que a carregue.