A —

Teus olhos brilhantes

Me cegam de luz;

São vivos diamantes

De raios cingidos

Da noite embutidos

Em dois cilios nús.

Teus olhos que agitam,

Que queimam, que fitam,

Teus olhos brilhantes

Me cegam de luz.

Mas ai! não pudessem

Teus olhos ser taes!

Que morte elles dessem,

Não fogo e martyrio

Da mente ao delirio,

Do peito a meus ais!

Se nunca elles matam,

Mas se alma arrebatam,

Ai! nunca pudessem

Teus olhos ser taes!

Teu corpo fluctúa

Qual concha no mar,

Mais doce que a lua,

Mais frouxo que a espuma,

Mais tenue que a pluma

Nos braços do ár;

Se a dansa os vestidos

Te agita—aos sentidos

Teu corpo fluctúa

Qual concha no mar.

Mas ai! nunca eu visse

Como és tão gentil!

Que nunca sentisse

Teu corpo engraçado

Voar balançando

Na dansa subtil!

Se roe-me o desejo,

De ver-te e não vejo,

Ah! nunca te visse

Como és tão gentil.

Teus seios me turvam

A vista e a rasão:

Nas roupas se curvam

Tão presos, tão vivos...

Oh! doces cativos,

Quebrae tal prisão,

E inquietos, travessos

Do collo nos gêssos

Teus seios me turvam

A vista e a rasão.

E Deus faz na terra

Mulheres assim!

E quando o homem erra,

Perdido de amores,

Será, meus senhores,

Um doudo por fim?

Se o peito suspira,

Se a mente delira,

Se Deus faz na terra

Mulheres assim?

F. Dias Carneiro, Parnaso maranhense, p. 115. Maranhão, 1861.