O PASSEIO

Não foi nos campos, onde a vida corre

Placida, longe do rumor do mundo,

Onde um suspiro, que nos labios morre,

Traz o segredo de um amor profundo;

Onde o arroio de cristal deslisa

Por entre o aroma de mimosas flores;

Onde parece que a formosa lua

Respira e sente, como nós, amores!

Não foi nas praias onde as brandas vagas

Vem á tardinha soluçar, gemer;

Onde os amantes com o sorrir nos labios

Sonham venturas de um feliz viver;

Onde a donzella que só pensa e scisma

Em aureos sonhos, que os amores tem,

Meiga suspira e arroubada escuta

Canções do nauta, que do mar lhe vem.

Não; essa noute em que eu feliz sentia

Sobre o meu braço tua mão pender,

Entre os ruidos d'esse mundo louco

Serena vimol-a perpassar, correr!

E no bulicio d'este mundo frivolo

Entre essa turba sempre louca e van,

Eu recolhia tuas phrases soltas

No imo peito com fervor e afan!

Que de venturas em aspirar teu halito;

Fixar teus olhos que o pudor baixava!

Manso, bem manso te batia o seio,

Que eu em delirio contra o meu chegava.

E a voz tão fresca e argentina e pura,

Que me parece estar ouvindo ainda!

Se n'este mundo já gozei ventura,

Foi n'essa noute, n'essa noute linda.

Em puro extasis minha voz tremia,

Talvez te lembres, descórado estava!

Tudo o que eu vi era só pompa e risos,

Tudo de amores e prazer fallava.

Que noite linda, que luar formoso!

Meu peito ardente de prazer tremia!

De tuas tranças aspirava o aroma,

Sobre o meu braço tua mão pendia.

E no bulicio d'este mundo frivolo

Serena vimol-a perpassar, correr

A noite linda que me deu prazeres,

Sonhos, venturas de um feliz viver!

F. Vieira de Sousa. Parnaso maranhense, p. 119.