CANTOS POPULARES BRAZILEIROS

I
CHACARA DO CEGO

(Da provincia do Ceará)

—Sinhá da casa

Venha vêr seu pobre;

Nem por vir pedir

Deixo de ser nobre.

«Não póde ser nobre

Quem vem cá pedir;

Não ha que lhe dar,

Já póde seguir.»

—Não usais commigo

Tanta ingratidão:

D'este pobre cego

Tende compaixão:

«Eu não sou dona,

Nem governo nada;

A dona da casa

Ainda está deitada.»

—Si está deitada

Ide-a chamar,

Que o pobre do cego

Lhe quer fallar.

«Acordai, senhora

Do doce dormir,

Vinde ver o cego

Cantar e pedir.»

—«Si elle canta e pede

Dae-lhe pão e vinho,

Para o pobre do cego

Seguir seu caminho.

Larga, Anninha, a róca,

E tambem o linho,

Vae ensinar o cego

Seguir seu caminho.»

«Aqui fica a róca

Acabou o linho;

Marchae, adiante, cego,

Lá vae o caminho.»

—Anda, anda, Anninha,

Mais um boccadinho,

Sou curto da vista,

Não enchergo o caminho.

«De conde e fidalgo

Me vi perseguida;

Hoje de um cego

Me vejo rendida.»

—Cala-te, condessa,

Prenda tão querida,

Eu sou este conde

Que te pretendia.

«Cala-te, conde,

Não digas mais nada,

Só quero saiâmos

D'aqui d'esta estrada.»

Infinitas graças

Vos dou, meu senhor,

Já ter vencido

Um cruel amor.


II
CHACARA DE D. JORGE

(Do Ceará)

Dom Jorge se namorava

D'uma mocinha mui bella,

Pois que apanhando servido

Ousou logo de ausentar-se,

Em procura d'outra moça

Para com ella casar.

Juliana que d'isso soube

Pegou logo a chorar,

A mãe lhe perguntou:

—De que choras minha filha?

«É Dom Jorge, minha mãe,

Que com outra vae casar.»

—Bem te disse, Juliana,

Que em homens não te fiasses;

Não era dos primeiros

Que as mulheres enganasse.

—«Deus te salve, Juliana,

No teu sobrado assentada!»

«Deus te salve, rei Dom Jorge,

No teu cavallo montado.

Ouvi dizer, rei Dom Jorge

Que estavas para casar?»

—«É verdade, Juliana,

Já te vinha desenganar.»

«Esperae, rei Dom Jorge,

Deixa eu subir a sobrado,

Deixa buscar um copinho

Que tenho para ti guardado.»

—«Eu lhe peço, Juliana,

Que não haja falsidade;

Olhe que sômos parentes,

Prima minha, da minh'alma.»

«Eu lhe juro por minha mãe,

Pelo Deus que nos criou,

Que rei Dom Jorge não logra

Esse seu novo amor.»

—«Que me deitas, Juliana,

N'este seu copo de vinho,

Estou com as redeas nas mãos,

Não enchergo meu russinho.

Ai qu'é do meu paisinho,

Por elle pergunto eu?

Eu morro, é de veneno

Que Juliana me deu.

—Morra, morra o meu filhinho,

Morra contricto com Deus,

Que a morte que te fizeram

Ella quem vinga sou eu.

—«Valha-me Deus do céo,

Que 'stou com uma grande dor;

A maior pena que levo

É não vêr meu novo amor.»


III
CHACARA DE FLORES-BELLA

(Do Ceará)

—Mouro, se fôres ás guerras,

Trazei-me uma cativa!

Que não seja das mais nobres,

Nem tambem de villa minha;

Seja das escolhidas

Que em Castelhana havia.

Saiu o Conde Flores

Fazer essa romaria:

A Condessa como nobre

Foi em sua companhia.

Mataram o Conde Flores,

Cativaram Lixandria,

E trouxeram de presente

Á rainha de Turquia.

—«Vem cá, vem cá minha moura,

Aqui está vossa cativa;»

—Já vou entregar as chaves

As chaves da minha cozinha.

«Entregae, entregae, senhora,

Que a desgraça foi minha;

Ainda hontem ser senhora,

Hoje escrava da cosinha.

Ao cabo de cinco mezes

Tiveram os filhos n'um dia;

A moura teve um filho,

A cativa uma filha.

Levantou-se a moura

Com tres dias de parida,

Foi á cama da escrava:

—Como estaes, escrava minha?

«Como hei de estar, senhora,

Sempre na vossa cosinha.»

Foi olhando para a criança,

Foi achando muito linda:

—Se estivesses em tua terra

Que nome tu botarias?

«Botaria Flores-Bella,

Como uma mana que tinha,

Que os mouros carregaram

Sendo ella pequenina.

—Si tu a visses hoje

Tu a conhecerias?

«Pelo signal que tinha

Só assim a conhecia!»

—Que tinha um lirio roxo

Que todo peito cobria!

«Pelo signal que me dais,

Bem parece mana minha.»

—Vem cá, vem cá minha moura

Que te dizes tua cativa.

«Eu já estou bem agastada,

E já me vou anojar

Tu mandaste lá buscar,

O teu cunhado matar.»

—Si eu matei meu cunhado

Outro melhor te hei de dar.

Farei tua irmã senhora

Da minha monarchia!

«Eu não quero ser senhora

Da tua monarchia

Quero ir para a minha terra

Onde eu assistia.»

—Aprontae, aprontae a náo,

Mais depressa em demasia.

Para levar Lixandria,

Ella e sua filhinha.

«Adeus, adeus Flores-Bella!

—Vae-te embora Lixandria.

E dae lá muitas lembranças

Á nossa parentaria.

Que eu fico como moura

Entre tanta mouraria.»