ESTANCIAS
O que eu adoro em ti não são teus olhos,
Teus lindos olhos cheios de mysterio,
Por cujo brilho os homens deixariam
Da terra inteira o mais soberbo imperio.
O que eu adoro em ti não são teus lábios,
Onde perpetua juventude móra,
E encerram mais perfumes do que os valles,
Por entre as pompas festivaes da aurora.
O que eu adoro em ti não é teu rosto
Perante o qual o mármor descorára,
E ao contemplar a esplendida harmonia
Phidias, o mestre, seu cinzel quebrára.
O que eu adoro em ti não é teu collo
Mais bello que o da esposa israelita,
Torre de graças, encantado asylo
Aonde o genio das paixões habita.
O que eu adoro em ti não são teus seios,
Alvas pombinhas que dormindo gemem,
E do indiscreto vôo de uma abelha
Cheias de medo em seu abrigo temem.
O que eu adoro em ti, ouve, é tu'alma
Pura como o sorrir de uma criança,
Alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,
Rica de crenças, rica de esperança.
São as palavras de bondade infinda
Que sabes murmurar aos que padecem,
Os carinhos ingenuos de teus olhos,
Onde celestes gozos transparecem!...
Um não sei que, de grande, immaculado,
Que faz estremecer quando tu fallas,
E eleva-me o pensar além dos mundos,
Quando abaixando as palpebras te callas.
E por isso em meus sonhos sempre vi-te
Entre nuvens de incenso em aras santas,
E das turbas solicitas no meio
Tambem contricto hei te beijado as plantas.
E como és linda assim! Chammas divinas
Cercam-te as faces placidas e bellas,
Um longo manto pende-te dos hombros,
Salpicado de nitidas estrellas!
Na douda pyra de um amor terrestre
Pensei sagrar-te o coração demente...
Mas ao mirar-te deslumbrou-me o raio...
Tinhas nos olhos o perdão sómente!
Fagundes Varella, Ibid., p. 68.