O CANTO DOS SABIÁS

Serão de mortos anjinhos

O cantar de errantes almas?

Dos coqueiros florescentes

A brincar nas verdes palmas,

Estas notas maviosas

Que me fazem suspirar?

São os sabiás que cantam

Nas mangueiras do pomar.

Serão os genios da tarde

Que passam sobre as campinas,

Cingindo o collo de opalas,

E a cabeça de neblinas,

E fogem, nas harpas de ouro

Mansamente a dedilhar?

São os sabiás que cantam,

Não vês o sol declinar.

Ou serão talvez as preces

De algum sonhador proscripto,

Que vagueia nos desertos,

Alma cheia do infinito,

Pedindo a Deus um consolo

Que o mundo não póde dar?

São os sabiás que cantam.

Como está sereno o mar!

Ou quem sabe as tristes sombras

De quanto amei n'este mundo,

Que se elevam lacrimosas

De seu tumulo profundo,

E vêm os psalmos da morte

No meu desterro entoar?

São os sabiás que cantam.

Não gostas de os escutar?

Serás tu, minha saudade?

Tu meu thezouro de amor?

Tu que ás tormentas murchaste

Da mocidade na flor?

Serás tu? Vem, sê bem vinda,

Quero-te ainda escutar!

São os sabiás que cantam

Antes da noite baixar.

Mas ah! delirio insensato!

Não és tu sombra adorada!

Não ha canticos de anjinhos,

Nem de phalange encantada

Passando sobre as campinas

Nas harpas a dedilhar!

São os sabiás que cantam

Nas mangueiras do pomar!

Fagundes Varella, Ibidem, p. 34.