SERENATA

Em teus travessos olhos,

Mais lindos que as estrellas

Do espaço, ás furtadelas

Mirando o escuro mar;

Em teu olhar tyrannico,

Cheio de vivo fogo,

Meu sêr, minh'alma afógo

De amor a suspírar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

D'esses mimosos labios

Que ao beija-flor enganam,

D'onde perpetuos manam

Perfumes de encantar;

D'esses lascivos labios,

Macios, purpurinos,

Ouvindo os sons divinos

Me sinto desmaiar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

Tuas madeixas virgens,

Cheirosas, fluctuantes,

Teus seios palpitantes

Da sêde do gozar;

Tua cintura estreita,

Teu pé subtil, conciso,

Obumbram-me o juízo,

Apagam-me o pensar.

Se teus encantos todos

Eu fosse a enumerar!...

Ai quebra-me estes ferros

Fataes que nos separam,

Os doudos que os forjaram

Não sabem, não, amar.

Da-me o teu corpo e alma,

E á luz da liberdade,

Oh minha divindade

Corramos a folgar.

Se teus encantos todos

Eu fosse enumerar!...

Fagundes Varela, Ibid., p. 43.