LYRA
Quando me volves teus formosos olhos,
Meigos, banhados de celeste encanto,
Rasgo uma folha da carteira, e a lapis
Escrevo um canto,
Quando nos labios do rubim mais puro
Mostras-me um riso seductor, faceto,
Encommendo minh'alma ás nove muzas,
Faço um soneto.
Quando ao passeio, no mover das roupas,
Deixas de leve vêr teu pé divino,
Sinto as arterias palpitarem tumidas,
Componho um hymno.
Quando no marmor das espaduas bellas,
As negras tranças a tremer sacodes,
Ebrio de amor, sorvendo seus perfumes,
Rimo dez odes.
Quando á noitinha, me fallando a medo
Elevas-me do céo á luz suprema,
Esqueçoi-me do mundo e de mim mesmo,
Gero um poema.
L. N. Fagundes Varella, Cantos do ermo e da cidade, p. 149.