I—ROMANCES COMMUNS AOS POVOS DO MEIO DIA DA EUROPA

1
Romances da Dona Infanta

(Versão da Beira-Baixa)

Andando a Dona Infanta

No seu jardim passeava;

Deitou os olhos ao mar,

Viu vir uma grande armada:

«Dizei-me, oh meu capitão,

Dizei-me por vossa alma,

Marido que Deos me deu

Se ahi vem na vossa armada?

—Diga-me minha senhora

Que signaes é que levava?

«Levava cavallo branco,

Cavallo branco levava,

Levava cella amarella,

Por cima sobredourada;

E adiante de si levava

A cruz de Christo pregada.

—Eu o lá vi, oh senhora,

Elle na guerra ficava,

Com tres chagas bem abertas

E todas eram mortaes.

Por uma se via o sol,

Por outra o bello luar;

Por outra tambem se via

Rica bola de jogar.

«Ai triste de mim viuva,

Ai triste do mim coitada!

Ir-me-hei por esse mundo

Chamando-me desgraçada.

Ai triste da só viuva,

De mim que nemja de si.

—Quanto dereis vós senhora

A quem o trouxera aqui?

«Dera-lhe ouro e prata,

Fôra mais rico que mim.

—O vosso ouro e a vossa prata

Não me servem para mim.

Eu sou soldado de el-rei,

E não posso estar aqui;

Mas quanto davas, senhora,

A quem o trouxera aqui?

«Tres laranjaes que tenho

Todos tres os dera assim.

—Não quero os seus laranjaes

Não me servem para mim;

Que sou soldado de el-rei

E não posso estar aqui.

«Os tres moinhos que tenho

Todos tres os dera a si;

Um que móe pau de canella,

Outro móe pau do Brazil;

Outro móe rica farinha

Que el-rei me manda pedir.

—Eu não quero os seus moinhos,

Não me servem para mim;

O que dereis vós, senhora,

A quem o trouxera aqui?

«Essas tres filhas que tenho,

Todas tres quizera dar,

Uma para vos vestir,

Outra para vos calçar,

A mais linda d’ellas todas

Para comsigo casar.

—Eu não quero as vossas filhas,

Não me servem para mim.

O que dereis mais, senhora

A quem o trouxera aqui?

«Não tenho mais que lhe dar,

Nem você mais que pedir.

—Inda tem mais que me dar,

E eu tambem que lhe pedir:

Esse corpo delicado

Para commigo dormir.

«Merece ser arrastado

O maroto que tal diz

Ao rabo do meu cavallo,

Á roda do meu jardim.

—Não se amofine, senhora,

Que eu consigo já dormi.

O anel de cinco pedras

Que eu comvosco reparti.

Que é da vossa metade,

Pois a minha eil-a aqui?

«Pois a minha ametade

Esqueceu-me no jardim.

Vão-me já chamar meus manos,

Que o venham conhecer;

Se elle o meu marido for

Eu o quero receber;

E se algum maroto fôr

Veja como se hade haver.»

2
Dona Catherina

(Variante da Beira-Baixa)

’Stando Dona Catherina

No seu jardim assentada,

Com um pente de ouro na mão

Seu cabello penteava.

Deitou os olhos ao largo

Viu vir uma grande armada;

Capitão que ’nella vinha

Trazia-a mui bem guiada.

—Catherina, Catherina,

Catherina de Menezes,

Sabbado vou para França,

Catherina que quereis?

«Saúdai-me o meu marido,

Que por lá o achareis.

—Diga-me minha senhora

Que signaes levava elle?

«Levava cavallo branco,

E espada de Marquez;

Capote de camellão

Forrado de setim verde.

—Pelos signaes que me daes

Não o vi senão uma vez;

Vi-o morrer em França,

Enterral-o em Santa Inez.

Já Catherina chorava

Lagrimas de tres a tres.

—Calai-vos oh Catherina,

Casae commigo outra vez.

«Senhoras da minha laia

Não casam mais que uma vez.

—Quanto déreis vós, senhora,

A quem vol-o traga, aqui?

«Dera-lhe armas e cavallos,

Que cresceram de Dom Luiz.

—Suas armas, seus cavallos

Não me servem para mim;

Que eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Dera ouro, dera prata,

Fôra mais rico que mim.

—O seu ouro e sua prata

Não me servem para mim;

Eu sou capitão da armada

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«As tres azenhas que tenho

Todas tres te dera a ti;

Uma móe cravo e canella,

A outra móe serzelim,

Outra móe rica farinha

Para el-rei, mais para mim.

—Vossas azenhas, senhora,

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas,

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Uma pereira que eu tenho

No meio do meu jardim,

Pois quando ella dá pêras

O rei m’as manda pedir.

—Eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil;

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Essas tres filhas que eu tenho

Todas tres te dera a ti,

Uma para te calçar,

Outra para te vestir,

A mais linda d’ellas todas

Para comtigo dormir.

—As suas filhas, senhora.

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Não tenho mais que vos dar,

Nem vós mais que me pedir.

—Ainda não me offereceu

Esse seu corpo gentil.

«Cavalleiro que tal fala,

Cavalleiro que tal diz,

Merece a lingua arrancada,

Cortada pelo nariz.

Levantai-vos meus criados,

Vinde-lh’o fazer assim,

Ao rabo do meu cavallo,

Ao redor do meu jardim.

—Os criados que a servem

Já me serviram a mim,

As suas filhas, senhora,

Tambem são filhas de mim.

Suas azenhas, senhora,

Tambem pertencem a mim;

Sua pereira, senhora,

Tambem me pertence a mim.

Suas armas e cavallos

Tambem pertencem a mim;

Seu ouro e a sua prata

Tambem pertencem a mim.

O anel que vos eu dei

Quando eu d’aquí sahi,

Mostrai-me a vossa metade,

Pois a minha eil-a aqui!

O anel que vos eu dei

Que se nos partiu no chão,

Mostrai-me a vossa metade,

Aqui está o meu quinhão.

3
Romances de D. Martinho de Avizado

(Versão da Beira-Baixa)

—Grandes guerras ’stão armadas

Entre França e Aragão!

Mal o hajas tu mulher,

Mais a tua criação;

Sete filhas que tiveste

Sem nenhuma ser varão!

Respondeu logo a mais velha

Com todo o seu coração:

«Dê-me armas e cavallo

Que eu irei por capitão.

—Tendes o cabello louro,

Filha, conhecer-vos-hão!

«Dê-me cá uma thezoura,

Verei-o cahir no chão.

—Tendes os olhos fagueiros,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos hombres

Eu os ferrarei no chão.

—Tendes os peitos crescidos,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Mande fazer um justilho

Que me aperte o coração.

—Tendes as mãos mui mimosas,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Lá virá vento e chuva,

Que ellas se callejarão.

—Tendes o pé pequenino,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Dê-me cá as suas botas

Encherei-as de algodão.

—Tendes o passo miudo,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos hombres

Farei passo de ganhão.

—Filha, se fores á guerra

Como te lá chamarão?

«Dom Martinho do Avizado,

Filho do Rei Dom João.»

—Ai minha mãi que me morro,

Morro-me do coração;

Os olhos de Dom Martinho,

Mi madre, matar-me-hão,

O corpo tiene de hombre,

Os olhos de mulher são.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco jantar,

Se então elle fôr mulher

Em baixo se hade assentar.

Dom Martinho de Avizado

Cadeira mandou chegar,

Com o seu capote em cima

Para mais alto ficar.

—Ai minha mãi que me morro,

Morro-me do coração,

Os olhos de Dom Martinho,

Madre minha, matar-me-hão.

O corpo tenia de hombre,

Os olhos de mulher são.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco enfeirar,

Elle então se for mulher

Ás fitas se hade pegar.

«Oh que espadas finas estas

Para hombre guerrear!

Oh que fitas para damas,

Quem lh’as pudera mandar.

—Ai minha mãi, que me morro,

Morro-me do coração,

Os olhos de Dom Martinho,

Madre minha, matar-me-hão!

O corpo tenia de hombre,

Os olhos de mulher são.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco dormir,

Que se elle for mulher

Não se hade querer despir.

«Tenho feito juramento,

Espero de o cumprir,

De emquanto eu andar na guerra

As ceroulas não despir.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco nadar;

Que se elle for mulher

Certo, se hade acovardar.

Dom Martinho de Avizado

Primeiro o mandou entrar:

«Ide vós mais adiante

Para me ires ensinar!

Cartas me vêm da terra,

Cartas de muito pezar;

Meu pai que já é morto,

Minha mãi está a acabar.

Tenho seis irmãs mais novas,

Quero-as ir amparar;

Venha a casa de meu pai

Se commigo quer casar.

Sete annos andei na guerra,

Sete annos por capitão,

Sem ninguem me conhecer

Se eu era mulher ou não.

4
Dom Martinho

(Variante da Beira-Baixa)

—Oh que guerras vão armadas

Entre França e Aragão!

Ai de mim, que já estou velho,

Não as posso vencer, não.

De sete filhas que tenho

Sem nenhuma ser varão!

Respondeu-lhe uma mais nova,

Respondeu-lhe com rasão:

«Venha uma espada e cavallo,

Eu serei já capitão.

—Tendes os olhos grandes,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos homens,

Abatel-os-hei ao chão.

—Tendes o cabello longo,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Venha uma thezoura d’oiro,

Vel-o-heis cahir ao chão.

—Tendes as mãos muito brancas,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Virão calmas e geadas,

Que ellas negras se farão.

—Tendes o pé pequenino,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Venham uns sapatos grandes,

Que os pés n’elles crescerão.

—Tendes o passo miudo,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos homens

Darei passo de malhão.»

—Os olhos de Dom Martinho,

Minha mãi, matar-me-hão.

Elle o corpo será de homem,

Os olhos de mulher são.

—«Convida-o tu, meu filho,

Um dia para o pomar,

Que se elle mulher fôr

Ao agro se hade apegar.

Dom Martinho de avisado

Ao doce se foi lançar.

—Os olhos de Dom Martinho,

Minha mãi, me hãode matar!

—«Convida-o tu, meu filho,

Um dia para o jantar,

Que se elle mulher for

Aos bancos se hade assentar.

Dom Martinho de avisado

Cadeira mandou chegar:

«Oh que cadeira tam baixa

Para um homem se assentar.

—«Convida-o tu, meu filho,

Um dia para feirar,

Que se elle mulher for

Ás fitas se hade apegar.

Dom Martinho de avisado

Ás espadas se foi lançar:

«Oh que espadas tam pezadas

Para um homem guerrear;

Oh que fitas para damas,

Quem lh’as pudera levar.

—Os olhos de Dom Martinho,

Minha mãi, me hão de matar.

—«Convida-o tu, meu filho,

Um dia para dormir,

Que se elle mulher for

Não se hade querer despir.

Dom Martinho de avisado

Se foi logo descalçar:

«Tenho feito juramento,

Espero de o não quebrar,

Em quanto eu andar na guerra

As ceroulas não tirar.

Tenho feito juramento

Protesto de o cumprir,

Em quanto eu andar na guerra

A camisa não despir;

E a espada de meu pae

Entre nós hade dormir.

—Os olhos de Dom Martinho,

Minha mãi, me hãode matar!

—«Convida-o, tu, meu filho.

Um dia para nadar,

Que se elle mulher for

Logo se hade acovardar.

Dom Martinho de avisado

Se foi logo descalçar:

«Entre, entre o cavalleiro,

Já o vou acompanhar;

Os sinos da minha terra

Aqui os ouço tocar!

A minha mãi já morreu,

Meu pai se está a finar;

De sete manas que tenho

Aqui as ouço gritar.

«Abra-me as portas, meu pai,

De todo o seu coração;

Sete annos andei na guerra

Sem me conhecer varão;

Mas só no fim dos sete annos

Conheceu-me o capitão,

Conheceu-me pelo riso,

Que por outra cousa não.»

5
Dom Barão

(Variante da Foz)

Já se começam as guerras

No campo de Dom Barão:

—Triste de mim que sou velho

As guerras me acabarão!

«Dê-me armas e cavallo

Serei seu filho varão.

—Tendes o cabello loiro,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Dae-me cá uma thesoura,

Que eu já o deito ao chão.

—Tendes as mãos pequeninas,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Metel-as-hei n’umas luvas,

Nunca d’ellas sairão.

—Tendes o pé pequenino,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Metel-os-hei n’umas botas,

Nunca d’ellas sairão.

Dae-me armas e cavallo,

Serei seu filho varão.

—Tendes os peitos mui altos,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Incolherei os meus peitos

Dentro do meu coração.»

O capitão dos soldados

Um grande amor lhe tomou;

Dom Barão como discreto

De nada se receiou.

—Oh mi padre, oh mi madre,

Grande dor do coração,

Os olhos do soldadinho

São de mulher, de homem não.

—«Convida-o tu, meu filho,

Que comtigo vá cear,

Porque no partir do pão

Se virá a delatar,

Que se elle o partir ao peito

Por mulher se hade mostrar.

Dom Barão como discreto

De nada se receiou;

Pegou na faca de ponta,

Pão e queijo estransinhou.

—«Bota-lhe cadeiras altas,

Cadeiras baixas a par;

Porque elle se mulher for

Nas baixas se hade assentar.

A donzella por discreta

Na mais alta quiz estar.

—Minha mãi, minha mãesinha,

Eu morro do coração;

Os olhos do soldadinho

São de mulher, de homem não.

—«Convidae-o vós, meu filho,

Que comvosco vá feirar,

Que se elle mulher fôr,

Ás fitas se hade apegar.

Dom Barão como discreto

Foi uma espada apreçar:

«Oh que bellas fitas estas

Para damas adornar.

—«Convida-o tu meu filho

Que comtigo vá dormir;

Que se elle mulher fôr

Então se hade descobrir.

Dom Barão como discreto

De nada se receiou;

Vestiu camisa e ceroulas

E com elle se deitou.

—Oh mi padre, oh mi madre,

Grande dor do coração;

Os olhos de Dom Barão

São de mulher, de homem não.

—«Convida-o tu, oh meu filho,

Que comtigo vá nadar;

Que se elle mulher fôr

Desculpa vos hade dar.

Dom Barão como discreto

De nada se receiou;

Chamou pelo seu creado

Uma carta lhe entregou:

«Novas me chegam agora,

Novas de negro pezar;

E os sinos da minha terra

Já ouço repinicar,

Ou meu pae que já é morto,

Ou está para enterrar.

—Montae-vos oh Dom Barão,

Que eu vos vou acompanhar.

Lá chegando á sua terra

Viu seu pae a passear.

—Que foi isso Dom Barão,

Quem vos vem acompanhar?

«Um genro de vocemecê

Se o quizer acceitar.

6
Romance de Gerinaldo

(Versão de Traz-os-Montes)

«Gerinaldo, Gerinaldo,

Pagem de el-rei mais querido,

Queres tu oh Gerinaldo

Tomar amores commigo?

—Vós como sois ama minha

Senhora zombais commigo?

«Eu não mango Gerinaldo,

Que eu bem deveras t’o digo.

—Diga-me minha senhora

Quando heide ir no promettido?

«Lá da uma para as duas,

Que meu pae esteja dormindo.

Inda bem não era a uma

Gerinaldo ao postigo,

Descalço de pé e perna

Para não fazer trupido.

«Oh quem bate á minha porta,

Oh quem é o atrevido?

—É Gerinaldo, senhora,

Que aqui vem ao promettido,

Descalço de pé e perna

Para não fazer trupido.

«Pousa ahi as tuas armas,

E deita-te aqui commigo.

El-rei sonhava um sonho

Que bem certo lhe sabia:

Ou deshonram a Infanta,

Ou me roubam o castillo.

Levantou-se el-rei da cama

Com desgraçado sentido,

Pegou em a sua espada

E foi dar volta ao castillo;

Achou-os ambos na cama

Como mulher e marido:

—«Eu se mato a Gerinaldo

Criei-o de pequechinho!

Eu se mato a dona Infanta

Fica o reinado perdido.

Meto-lhe a espada no meio

Para que sirva de aviso.

Acordou o Gerinaldo,

Ficou mais morto que vivo.

«Não te assustes Gerinaldo

Que meu pai o tem sabido,

Se nos quizera matar

Poder estava comsigo.

Não te assustes Gerinaldo

Vem ter com o rei ao castillo.

—«D’onde vens oh Gerinaldo,

D’onde vens espulverido?

— Venho de matar caça,

Senhor, da borda do rio.

—«Não me mintas Gerinaldo,

Que nunca me tens mentido.

— Venho de regar as flores

Que ellas o estavam pedindo!

—«Pois toma-a por tua mulher,

E ella, a ti por marido.

7
Romance da Noiva roubada

(Versão de Almeida)

—Deos vos salve minha tia,

Na vossa roca a fiar!

«Venha embora o cavalleiro

Tam cortez no seu falar.

—Má hora se elle foi, tia,

Ma hora torna a voltar!

Que já ninguem o conhece

De mudado que hade estar.

Por lá o matassem mouros,

Se assim tinha de tornar.

«Ai sobrinho de minha alma,

Que és tu pelo teu falar!

Não vês estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?

—E meu pai e minha mãi,

Tia que os quero abraçar?

«Teu pai é morto, sobrinho,

Tua mãi foi a enterrar.

—Que é da minha armada, tia,

Que eu aqui mandei estar?

«A tua armada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.

—Que é do meu cavallo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?

«O teu cavallo, sobrinho,

El-rei o mandou tomar!

—Que é da minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?

«Tua dama faz hoje a boda,

Amanhã se vae casar.

—Dizei-me onde é minha tia,

Que me quero lá chegar.

«Sobrinho não digo, não,

Que te podem lá matar.

—Não me matam, minha tia,

Cortezia eu sei uzar.

E onde faltar cortezia

Esta espada hade chegar.

—Salve Deos, oh la da boda,

Em bem seja o seu folgar!

—«Venha embora o cavalleiro,

E que se chegue ao jantar.

—Eu não pertendo da boda,

Nem tam pouco do jantar;

Pretendo falar á noiva,

Que é minha prima carnal.

Vindo ella lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavalleiro,

Quiz morrer, quiz desmaiar.

—Se tu choras por me veres,

Já me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para os pagar.

«—Pagar devia com a vida

Quem me queria enganar,

Quando te deram por morto

Nessas terras d’alem-mar.

Mas que fiquem com a boda,

E bem lhes preste o jantar,

Que os meus primeiros amores

Ninguem m’os hade quitar.

—Venha juiz de Castella,

Alcaide de Portugal;

Que, se aqui não ha justiça

Co’ esta espada a heide tomar.

8
Romance do Alferes matador

(Versão da Covilhã)

—Indo eu por quelha abaixo,

Topando por quelha acima,

Olhei para uma janella,

Onde vi ’star trez donzillas.

Aquella de azul claro

É linda em demasia,

Tenho de a ir buscar

Inda que me custe a vida.

As dez horas eram dadas

E elle á porta batia.

«Quem bate á minha porta

Deshoras á porta minha?

—É um grande cavalleiro

Que vem buscar sua filha,

«Minha filha não ’stá em casa,

Foi para a de sua tia,

Que a mandou cá buscar

Para uma função que havia.

Deitou os hombros á porta,

Não uzou mais cortezia;

Entrou pela casa dentro

Com toda a sua ousadia,

E foi direito a um quarto

Aonde a filha dormia.

«Oh filha faz, pela honra

Antes que te custe a vida;

Honra as barbas a teu pae,

Que brancas na cara as tinha.

Pegou-lhe pelos cabellos

Foi-a arrastar pela villa,

E depois de a ver morta

A sua mãi a trazia.

—Aqui tendes oh D. Anna,

Oh Dona Anna vossa filha,

Honrada e virtuosa,

Mas porem custou-lhe a vida.

«Antes a quero ver morta

Que a sua honra perdida,

Justiça venha do céo

Que na terra não a havia,

E caia sobre um Alferes,

Matador da minha filha.

9
Romance da Romeirinha

(Versão de Traz-os-Montes)

Por aquelles montes verdes

Uma romeira descia;

Tão honesta e formosinha

Não vae outra á romaria.

Sua saia leva baixa,

Que nas hervas lhe prendia;

Seu chapellinho cahido

Que os lindos olhos cobria.

Cavalleiro vae traz d’ella,

Alcançal-a não podia;

Alcançou-a descançando

Debaixo da verde oliva,

Á sombra da arvore benta.

Que está no adro da ermida:

«Eu te rogo, cavalleiro,

Por Deos e Santa Maria,

Que me deixes ir honrada

Para a santa romaria.

Cavalleiro de malvado

De amores a accomettia;

Pegaram de braço a braço,

Qual de baixo, qual de cima.

A romeira por mais fraca

Logo debaixo cahia.

No cahir lhe viu á cinta

Um punhal que elle trazia,

Com toda a força o arranca,

No coração lh’o mettia.

—Da vingança que tomaste

Eu te peço romeirinha,

Que o não digas em tua terra,

Nem te vás gabar á minha.

«Heide dizel-o em tua terra,

Heide-me ir gabar á minha

Da vingança que tomei

Da affronta que me fazias;

Que matei um vil cobarde

Com as armas que elle trazia.

Tocou a campa da ermida

A campa que retinia:

«Eu te peço, ermitão,

Por Deos e Santa Maria,

Que enterres esse traidor

Lá na tua santa ermida.

10
Romances da Infanta de França

(Versão da Covilhã)

Dom João foi para caça,

Foi á caça á porfia,

Anoiteceu-lhe n’um bosque,

Era o que elle mais temia;

Seus cavallos por ferrar,

Era o que elle mais sentia!

Lá pela noite adiante

Um lindo cantar ouvia,

Deitem os olhos ao largo

Viu lá estar uma donzilla,

Penteando o seu cabello

Em um tanque de agua fria.

—Que fazeis aqui, senhora,

Que fazeis aqui donzilla?

«Sete fadas me fadaram

No collo de madre minha,

Fadaram-me por sete annos,

Por sete annos e um dia.

Hoje se acabam os annos,

Á manhã por noute o dia;

Bem podera o cavalleiro

Levar-me na companhia.

—Desde, já minha senhora,

Eu tudo isso lhe faria;

Dizei-me, oh minha senhora,

Se ides de anca ou de silha?

«Eu vou de anca, oh cavalleiro

Que isso é da honra minha.

Lá pelo caminho adiante

Ella se pôz a sorrir.

—Do que vos rides, senhora,

Do que rides vós donzilla?

«Eu rio-me do cavalleiro

E da sua cobardia,

Achar donzilla no campo

E guardar-lhe cortezia.

—Tornemos atraz senhora,

Tornemos a traz donzilla,

Que deixei a minha espora

No tanque da agua fria.

«Adiante, oh cavalleiro,

Eu atraz não tornaria,

Se a espóra era de prata

Meu pai de ouro lh’a daria.

—Dizei-me, oh minha senhora,

De quem é que vós sois filha?

«Sou filha do rei de França,

Neta do rei de Castilla.

—Pelos signaes que me daes

Vós sois uma mana minha!

Mal hajam todos os homens,

E quem em mulheres se fia;

Cuidando que levo esposa

Levo a uma irmã minha!

Abram-se esses palacios,

Venha toda a fidalguia,

Trago aqui uma mana

Ha sete annos que a não viram.

Venha cá, senhora mãi,

Ande vêr a sua filha,

Cuidei trazer nóra sua

E trago uma mana minha.

Levantou-se a sua mãi

Da cadeira aonde estava:

—«Se tu és a minha filha

Anda cá para os meus braços,

Se tu és a minha nóra

Ai tens os teus palacios.

11
A Encantada

(Variante da Foz)

Indo um cavalleiro á caça

Á caça de altanaria,

Lá chegando ao alvoredo

Viu estar uma donzilla.

—Que fazeis ahi senhora?

Que fazeis aqui donzilla?

«Sete fadas me fadaram

No ventre d’uma mãi minha:

De eu aqui estar sete annos,

Sete annos e mais um dia.

Sete annos são acabados

Hoje se acaba o dia;

Se quereis oh cavalleiro

Levai-me por companhia,

Não me leveis por senhora,

Não me leveis por donzilla;

Levai-me por estrangeira

Que achaes na terra perdida.

—Montai-vos aqui, senhora,

Montai-vos aqui, donzilla,

Ou nas ancas ou na sella,

Onde fôr mais honra minha.

Montou-se logo a donzella

Foi seguindo o seu caminho,

Lá chegando á estrada

De risos o accommettia:

—De que se ri oh menina?

De que se ri oh donzilla?

«Rio-me do cavalleiro

E da sua cobardia,

De achar menina na serra

E lhe guardar cortezia.

—Deixai-me agora chorar

Olhae a minha mofina!

Oh quem perdeu o que eu perco

Grande pena merecia.