II—ROMANCES DE SUPOSTA ORIGEM PORTUGUEZA

12
Romance da Sylvana

(Versão de Lisboa)

Passeava-se Sylvana

Pelo corredor acima;

Viola de ouro levava,

Oh que bem que a tangia!

E se ella bem a tangia,

Melhor romance fazia.

A cada passo que dava,

Seu padre a accommettia:

—Atreves-te tu, Sylvana,

Uma noite a seres minha?

«Fôra uma, fôra duas,

Fôra, meu pae, cada dia;

Ma’las penas do inferno

Quem por mim las penaria?

—Penal-as-hei eu, Sylvana,

Que las peno cada dia.

Foi-se d’ali a Sylvana,

Mui agastada que ia;

Foi-se encontrar com sua madre

Lá no adro da ermida:

—«Que tens tu, minha Sylvana,

Que tens tu, oh filha minha?

«Oh, quem tal pae não tivera,

Quem não fôra sua filha!

Que me accommette de amores

Oh minha mãi, cada dia.

—«Vae, filha, vae para casa,

Veste uma alva camisa,

Que o cabeção seja de ouro,

As mangas de prata fina:

Deitar-te-has no meu leito,

Eu no teu me deitaria...

E hade valer-nos a Virgem,

A Virgem Santa Maria.

Lá junto da meia-noite

Seu padre que a accomettia:

—Se eu soubera, Sylvana,

Que estavas tão corrompida,

Oh! las penas do inferno

Por ti las não penaria...

—«Esta não é a Sylvana,

É a mãe que a paria;

Tambem pariu Dom Alardos,

Senhor da cavalleria,

Tambem pariu a Dom Pedro,

Principe da infanteria,

Tambem pariu a Sylvana

Que seu pae a accomettia.

—Oh mal haja, que haja a filha.

Que seu padre descobria!

—«Oh mal haja, que haja o padre

Que sua filha commettia.

Manda-a metter n’uma torre

Que nem sol, nem lua via;

Dão-lhe a comida por onça,

E a agua por medida.

Ao cabo de sete annos

Eis a torre que se abria...

Assomou-se a Sylvana

A uma ventana mui alta,

Foi-se encontrar com su madre

Lavrando n’uma almofada:

«Estejaes emb’ora, madre,

Oh madre da minha alma;

Peco-vos por Deos do céo,

Que me deis um jarro d’agua;

Que se me aparta a vida,

Que se me arranca a alma!

—«Dera-t’a eu, filha minha,

Se a tivera salgada,

Que ha sette para outo annos

Que por ti sou malcasada.

Se teu padre tem jurado

Pela cruz da sua espada,

Quem primeiro te desse agua

Tinha a cabeça cortada.

Assomou-se a Sylvana

A outra ventana mais alta;

Foi-se encontrar com os irmãos,

Que estavam jogando as cannas:

«Estejaes emb’ora irmãos,

Meus irmãos já da minha alma,

Peço-vos por Deos do céo

Que me deis um jarro d’agua,

Que se me aparta a vida,

Que se me arranca a alma.

—Dera-t’a eu, irmã minha,

Se a tivera empeçonhada:

Que nosso pae tem jurado

Pela cruz da sua espada,

Quem primeiro te desse agua

Tinha a cabeça cortada.

Assomou-se a Sylvana

A outra ventana mais alta,

Foi-se encontrar com seu pae

A jogar a embocada:

«Estejaes emb’ora, padre,

Padre meu já da minha alma:

Peço-vos por Deos do céo

Que me deis um jarro d’agua,

Que se me aparta a vida,

Que se me arranca a alma...

E de hoje por diante

Serei vossa namorada.

—Alevantem-se, meus pagens,

Criados da minha casa,

Uns venham com jarros de ouro,

Outros com jarros de prata:

O primeiro que chegar

Tem a commenda ganhada,

O segundo que chegar

Tem a cabeça cortada.

Os criados que chegavam

Sylvaninha que finava,

Nos braços da Virgem santa

Dos anjos amortalhada.

—Vai-te emb’ora, Sylvaninha,

Sylvaninha da minha alma,

Tua alma vae para o céo,

A minha fica culpada.

13
Romance de Bernal-Francez

(Versão da Foz)

«Oh quem bate á minha porta,

Quem bate, oh quem está ahi?

—São cravos minha senhora,

Flores lhe trago aqui!

«Eu não abro a minha porta

A taes horas de dormir.

—Se me não abres a porta

Morto me acharás aqui.

«Ai se é Bernal-Francez

A porta lhe vou abrir.....

Ao abrir a minha porta

Se apagou o meu candil!

Ao subir a minha escada

Me cahiu o meu chapim.

Peguei n’elle nos meus braços

Levei-o pelo jardim,

Mandei lavar pés e mãos

Em aguinha de alecrim;

Vestir camiza lavada,

Deital-o ao par de mim.

Era meia noite dada:

«Não te viras para mim?

Se tu temes a meu pae

Elle longe está de ti;

Se temes os meus criados

Elles estão a dormir;

Se temes o meu marido

Más novas venham aqui.

—Eu não temo a teu pae

Que elle sogro é de mim;

Não me temo dos criados

Que mais me querem que a ti;

Não me temo da justiça

Que a justiça é por mim.

A teu marido não temo

E d’elle nunca temi...

Teme tu falsa traidora

Pois o tens ao par de ti.

Deixa tu vir a manhã

Que eu te darei de vestir,

Te darei saia de gala,

Roupinha de cramesi;

Gargantilha colorada,

Pois que tu o queres assi.

—«Deixa-me ir por’qui abaixo

Com minha capa cahida,

Quero ver a minha amada

Se é morta ou se inda viva.

—Que fazeis oh cavalleiro

A taes horas por aqui?

—«Venho vêr a minha amada

Que ha dias que a não vi.

—A tua amada, senhor,

É morta que eu bem n’a vi!

Os sinaes que ella levava

Eu te los direi aqui:

Levava saia de gala,

Roupinha de cramesi,

Gargantilha colorada,

Pois o ella o quiz assim.

—«Monta, monta meu cavallo,

Quanto poderes montar,

Só n’aquella sepultura

É que eu posso descançar:

Abre-te oh penha constante

Que me quero lá meter,

Já que fui o causador

Da minha amada morrer.

Abre-te oh penha sagrada

Esconde-me ao par de ti!

Do fundo da sepultura

Uma triste voz ouvi:

«A mulher com quem casares

Seja Anna como a mim;

E as filhas que tu tiveres

Tem-as sempre ao pé de ti,

Para que não aconteça

O que aconteceu a mim.

14
Romance do Conde Niño

(Versão de Traz-os-Montes)

Vae o conde, conde Niño

Seu cavallo vae banhar;

Em quanto o cavallo bebe

Cantou um lindo cantar:

—Bebe, bebe, meu cavallo,

Que Deos te hade livrar

Dos trabalhos d’este mundo,

E das areias do mar.

—«Esperta, oh bella princeza,

Ouvide um lindo cantar;

Ou são os anjos no céo,

Ou as sereias no mar!

«Não são os anjos no céo,

Nem as sereias no mar,

É o conde, conde Niño

Que commigo quer casar.

—«Se elle quer casar comtigo

Eu o mandarei matar.

«Quando lhe deres a morte

Mandai-me a mim degollar;

Que a mim me enterrem á porta,

A elle ao pé do altar.

Morreu um, e morreu outro,

Já lá vão a enterrar;

D’um nascêra um pinheirinho,

Do outro um lindo pinheiral;

Cresceu um e cresceu outro,

As pontas foram junctar,

Que quando el-rei ia á missa

Não o deixavam passar.

Pelo que o rei maldito

Logo as mandava cortar;

D’um correra leite puro,

E do outro sangue real!

Fugira d’um uma pomba

E do outro um pombo trocal,

Sentava-se el-rei á meza,

No hombro lhe iam poisar:

—«Mal haja tanto querer,

E mal haja tanto amar;

Nem na vida, nem na morte

Nunca os pude separar.

15
Romance da Promessa de noivado

(Versão da Covilhã)

—Oh menina da mantilha

Guarde-me esse lindo rosto,

Que eu vou para a minha terra,

Em vindo caso comvosco.

Lá dos quatro para os cinco,

E dos cinco para os seis,

Menina se eu não vier,

Menina casar-vos-heis.

—«Filha eu quero-te casar

Que é o teu tempo venido.

«Senhor pae estou casada

Não tenha duvida n’isso.

Agarrou no seu fatinho

Abalou por ai alem,

E ia de terra em terra,

E de logar em logar.

Já levava a bocca secca

De por elle procurar;

Os seus olhos como punhos

De por elle ir a chorar.

«Móra aqui um cavalleiro

Da minha terra natural?

—Aqui móra, sim senhora,

Anda na caça a caçar;

Se elle é de muita pressa

Eu o mando lá chamar.

«Elle a pressa não é muita

Que por elle heide esperar.

Elle á noite quando veio

Começou-se a admirar:

—Quem vos trouxe aqui, senhora,

Á minha terra natal?

«Foram as suas saudades

Que fizeram cá chegar.

—Tenho os meus filhos pequenos,

Que Deos m’os deixe criar,

Tenho a minha mulher moça

Que Deos m’a deixe gosar.

A menina que isto ouviu

Cahiu morta para traz.

—Que farei aqui, senhora,

Que farei a tanto mal?

—Pegue-lhe pelos cabellos

E mande-a deitar ao mar!

—Não farei isso, senhora,

Na mi terra natural;

Mando fazer um caixão

Com a tampa de crystal,

E na pia da agua benta

A mandarei sepultar

16
Romance de Dom Aleixo

(Versão da Foz)

Na cidade de Madrid,

Na melhor que el-rei tenia,

Havia um cavalleiro

Dom Aleixo se dizia,

O cujo tal cavalleiro

Namorava uma donzilla;

Ella lhe pediu tres cousas

Que ao seu corpo convenia:

Uma, que fosse sósinho

Sem mais outra companhia,

Outra pela meia noite

Quando a gente dormia.

Inda as dez não eram dadas

Dom Aleixo se vestia,

Seu capacete de grana,

Seu chapeu á bizarria.

Pegando na sua espada

Foi para vêr sua amiga;

Chegando a um alvoredo

Penhascos o cobririam:

—Não me atireis com pedras

Que pedras é cobardia;

Pucha pela tua espada

Que eu tambem trago a minha.

Se algum d’aí não a tem

Eu lhe emprestarei a minha.

Cessae, cessae oh villões,

Não useis de mais porfia,

Quero fazer testamento

Da fazenda que tenia:

A minha alma dou a Deos,

E á Virgem Santa Maria;

O meu corpo tão valente

Já o dou á terra fria,

Coração á minha dama

Discreta Dona Maria.

Rescordou Dona Maria

Do somno em que jazia:

«Quem te matou Dom Aleixo?

Quem te matou vida minha?

—Os ladrões de teus irmãos

Já me tiraram a vida.

Perde quem anda de noite

Ganha quem anda de dia;

Perde quem tem seus amores

Que d’elles se não retira.

Puchou por um faquim de ouro

Que á sua cinta trazia:

«Quero sacar a minha alma,

Quero levar companhia.

17
Romance de Dom Pedro

(Versão da Beira-Baixa)

«Oh minha mãi quem me dera

Vêr-me em Castilha do mar;

Tenho desejos de ir ver

A minha mãi natural...

—«Se tens desejos de ver

A tua mãi natural;

Mas Dom Pedro foi á caça

Em vindo lhe irei contar.

Da caça que elle trouxer

Te mandará um casal:

De duas perdizes uma,

De tres coelhos um par.

Ella a sahir pela porta

Dom Pedro a entrar o quintal.

—Que é da minha rosa branca

Que me não vem abraçar?

—«Tua rosa branca, Dom Pedro,

Está em Castilha do mar?

Olha o que ella ia dízendo,

Que se não pode contar:

«Que em sua caza não tinha

Cama para se deitar!

Olha o que ella ia dizendo,

Que se não pode dizer:

«Que em sua casa não tinha

Um pão para se comer!

Bem puderas tu meu filho

Minha benção alcançar;

Como vieste da caça

Ir-m’a já lá arrastar.

—Ála, ála meus criados,

Meus cavallos vão ferrar,

Com ferraduras de bronze

Para melhor caminhar.

Dou sete voltas á cerca,

Sem n’ella poder entrar;

Viu lá entrar uma preta

Que se estava a pentear.

—Abri-me as portas oh preta,

Põe-m’as já de par em par!

Menina que lá está dentro

Já a lá vou arrastar.

«—Dae-me alviçaras Dom Pedro

Dae-m’as, bem m’as podeis dar;

Que vos nasceu um infante

Lindo como um crystal.

«—Novas vos trago, senhora,

Novas de muito pezar;

Que Dom Pedro está á porta

Jura de vos vir matar.

«Dê-me a mão, oh minha mãe,

Ajude-me a levantar,

Que Dom Pedro está á porta

Jura de me vir matar.

—Deixa-te estar oh filha

Que eu o vou assocegar!

Que Dom Pedro é attencioso

Logo me ha de querer falar.

Pegou-lhe pelos cabellos

E elle a foi arrastar;

Andára mais de tres leguas

E sem lhe querer falar.

«Olha para traz Dom Pedro,

Olha se queres olhar,

O teu cavallo é branco

Veio já do meu signal.

Leva-me áquella ermida

Que me quero confessar,

Se não, confesso-me a ti

Por eu já não ter logar.

—Mal o haja a tua mãe

Que te deixou levantar.

«Mal haja a tua, Dom Pedro,

Que taes conselhos quiz dar.

Cá te fica um infante

Cá o darás a criar,

Não o dês a tua mãe

Que jura de m’o matar;

Da-o cá antes á minha

Que ella o dará a criar.

—Fica-te aqui rosa branca

N’este campo de alegria!

Com a ponta da espada

A cova ali lhe fazia;

Com as lagrimas dos olhos

A terra lhe amollecia.

18
Romances da Filha do Imperador de Roma

(Versão de Traz-os-Montes)

O imperador de Roma

Tem uma filha bastarda,

A quem tanto quer e tanto

Que a traz mui mal criada,

Pedem-lh’a Duques e Condes

Homens de capa e de espada;

Ella isenta e desdenhosa

A todos lhe punha taxa:

A uns que não eram homens,

Outros que não tinham barbas;

Aquelle que não tem pulso

Para puchar pela espada,

Dizia-lhe o pae sorrindo:

—Inda hasde ser castigada!

De algum villão de porqueiro

Te espero ver namorada.

Por manhã do Sam João,

Manhã de doce alvorada,

Subiram a uma ventana

Uma ventana mui alta.

Viu andar trez cegadores

Fazendo sua cegada;

O mais pequeno dos tres

Era o que mais trabalhava;

De seu garbo e gentileza

A infanta se namorava.

Ali estava a aia discreta

Em que toda se fiava:

«Vês, aia, aquelle ceifeiro

Que anda n’aquella cegada?

Condes, Duques, Cavalleiros,

Nenhum que o ceifeiro valha.

Vai-m’o chamar em segredo,

Que ninguem não saiba nada.

—«Bom cegador vem commigo,

Que te quer falar minha ama.

—Eu não conheço a senhora,

Nem tam pouco a criada.

—«Cegador de boa estreia

Trazes a vista mui baixa;

Alça os olhos e verás

A estrella da madrugada.

—Vejo o sol que vem nascendo,

Não vejo a estrella d’alva.

—«Estrella ou sol, vens commigo?

—Irei pois, quem pode manda.

Entraram por um postigo

Que a porta ainda era cerrada;

No camarim da princeza

O bom do ceifeiro estava.

—Senhora, que me quereis,

Pois venho á vossa chamada?

«Quero saber se te atreves

A fazer minha cegada.

—Atrever, me atrevo a tudo,

Trabalho não me acobarda!

Dizei vós, senhora minha,

Onde é a vossa cegada.

«Não é no monte ou no vale,

No baldio ou na coutada;

Cegador, é nos meus braços

Que de ti estou namorada.

Lá junto da meia-noite

Ao cegador perguntava:

«Dizei-me bom cegador

De quem eu fico pejada?

—Eu sou filho de um porqueiro,

E meu pae porcos guardava.

«Oh triste de mim, oh triste,

Oh triste de mim coitada!

Bem me dizia meu pai:

Tu hasde ser castigada.

Pediram-me Condes, Duques,

Homens de capa e d’espada,

E agora eis-me aqui

De um porqueiro deshonrada.

19
O hortelão das flores

(Variante da Beira Baixa)

—Não venho por te vêr, nem por te dar valor,

Venho por erguer olhos e a vista no sol pôr.

Falar quero á princeza, o amor me traz rendido,

A ti peço conselho, velha do tempo antigo.

«Vista traje mudado, cante em seu bandolim,

Boquinha de crystal, faces de seraphim.

—Um bom conselho velha me deste para mim;

Não farão de mim caso, se me virem assim.

Com Deos te fica velha mais a tua porfia,

Mas se eu a render, velha, tens tensa cada dia.

Eu vou bater o mato, caçar altanaria,

Mas se ella me escapar em ti me vingaria.

—Abri lá essas portas, oh hortelão das flores,

Venho em traje mudado falar aos meus amores.

—«Senhor podeis entrar, que tendes sempre acerto;

Senhor, sois Dom Duarte, que bem vos reconheço.

—Oh que varandas altas, com cem palmos de alteza,

Diz velho de bom tempo se ali vem a princeza?

«Para as varandas altas, para tomar a fresca

Costuma vir sósinha quasi sempre a princeza.

—Se ella te perguntar quem é o estrangeiro,

Dize que é um teu filho vindo lá d’outro reino.

Que varandas tão altas, que jardim bem plantado;

Soubera o que hoje sei, que o tinha passeado.

«Oh regador dos cravos venha para mais perto

Conversar a princeza com prazer discreto.

Oh regador dos cravos venha para o mirante

Olhar para a princeza com olhos de diamante.

—Mandaram-me cá vir, não sei se é verdade.

—«Tão verdade não fôra, espelho bello e claro.

—Tendes-me aqui senhora, mandae como a vassallo,

Já estive em noite escura, agora é dia claro;

Dae-me, que tenho sêde, um pucarinho de agua!

—«Aqui vos mato a sêde, espelho bello e claro.

—A mim não ha quem mate a sêde continuada...

—«Vem cá falar commigo ámanhã de madrugada.

Alluga uma burrinha, que o não saiba ninguem,

Que eu quero para sempre ir d’aqui para alem.

—Como a levarei, senhora, com quem irá d’aqui?

Filho d’um corta carne, que apregôa aqui!

—«Não se me dá que o sejas ou que apregôe aqui.

—Alluguei a burrinha, vá-se despedir.

—«Adeos oh fontes claras e poços de agua fria,

Eu já não ouço aqui rouxinóes ao meio dia.

Se meu pae perguntar quem é que me queria,

Dizei que a desgraça não é a que me guia.

—Cala-te, Magdalena, lagrimas de peregrina!

Nos reinos estrangeiros melhor agua haveria.

Tambem ha claras fontes, poços de agua fria,

E canta o rouxinol á hora do meio dia.

—«Pareces Dom Duarte! oh que fortuna a minha,

Tornemos ao palacio a dizel-o á rainha:

Rainha e mãe senhora, humildo-me ao castigo,

Aqui está Dom Duarte, que vem por meu marido.

Rainha e mãe senhora, que pena me acompanha,

De não achar meu pae senhor de toda a Hespanha.

Rainha e mãe senhora, humildo-me com dor,

Não tem a quem pôr culpa, é mui cego o amor.»

20
O Duque da Lombardia (Variante da Beira-Alta)

Por manhã de Sam João,

Manhã de doce alvorada,

Ao seu balcão muito cedo

A Infanta se assomava.

Viu andar tres cegadores

Fazendo sua cegada;

O mais pequeno dos tres

Era o que mais trabalhava.

Fitta que traz no chapeo

De ouro e seda era bordada.

Fina prata que luzia

A foice com que ceifava.

De seu garbo e gentileza

A Infanta se namorava.

O ceifeiro vae ceifando...

Bem sabe elle o que ceifava.

«Vês, aia, aquelle ceifeiro

Que anda n’aquella cegada?

Vae-m’o chamar em segredo,

Que ninguem não saiba nada.

Entraram por um postigo,

Que a porta inda era cerrada;

No camarim da princeza

O bom do ceifeiro estava:

«Quero saber se te atreves

A fazer a minha cegada?

—Atrever me atrevo a tudo,

Trabalho não me acobarda.

«Não é no monte ou no vale,

No baldio ou na coutada;

Cegador é nos meus braços

Que de ti estou namorada.

Passou todo aquelle dia,

O mais da noite passava,

Ceifando vae o ceifeiro...

Bem sabe o que elle ceifava.

«Basta, basta, cegador,

Feita está tua cegada;

Vae-te que meu pae não venha

Antes de ser madrugada.

Palavras não eram ditas

El-rei á cama chegava:

—«Com quem falas, minha filha,

Tão cedo de madrugada?

«Falo com esta minha aia,

Que me tem desesperada;

Uma cama tão malfeita

Que dormir me não deixava.

—«É forte essa tua aia

Que a barba tem tão cerrada!

Vista-se já a donzella,

Que antes de ser madrugada,

Pelo barbeiro do algoz

A quero ver barbeada.

O cegador muito enchuto

Sua sentença escutava;

Com uma mão se vestia,

Com a outra se calçava.

Saltou no meio da casa,

Como se não fôra nada:

—Venha já esse barbeiro

Com a navalha afiada:

Ao Duque da Lombardia,

Verêmos quem faz a barba.

O imperador mui contente

Depressa ali os casava:

Não quiz senhores, nem condes,

Homens de capa ou de espada,

Senão só o cegador

Que andava em sua cegada.

Sahiu-lhe um Duque reinante,

Senhor d’alta nomeada,

Pois tudo é sorte no mundo,

A sorte foi bem deitada.

21
Romance de Dona Agueda de Mexia

(Versão do Alemtejo)

Era uma menina bella,

Discreta e bem parecida,

Dom João a namorava,

Mil requebros lhe fazia.

Por fidalgo e gentil moço

Ninguem tanto a merecia;

Mas o pae d’aquella moça

Por melhor conselho havia

Casal-a com um mercador

Que áquellas partes vivia.

Dom João quando isto soube

Por pouco se não morria:

Foi se d’ali muito longe

Sem dizer para onde ia.

Tres mezes por lá andou,

Tres mezes n’essa agonia.

Mandou sellar seu cavallo

Sem cuidar no que fazia;

Deitou por esses caminhos

Sem saber adonde ia.

O cavallo é quem andava,

Cavalleiro obedecia;

Passou por terras e terras

Nenhuma não conhecia.

Á sua tinha chegado,

Onde estava não sabia.

Té que veio a passear

Á rua da sua amiga;

As casas onde morava,

Janellas aonde a via,

Tudo é coberto de preto

Mais preto que ser podia.

Mandou chamar uma dama

Por Deos e á cortezia:

—Dize-me tu por quem trazes

Ausencias tam doloridas?

«Trago-as por minha senhora

Dona Agueda de Mexia,

Que é com Deos a sua alma,

Seu corpo na terra fria;

E por vós foi, Dom João,

Por vosso amor que morria.

Dom João quando isto ouviu

Por morto em terra cahia;

Os seus olhos não choravam,

Sua bocca não se abria.

Mirava a gente em redor

A vêr o que elle faria.

Foi-se direito á egreja

Onde a sua dama tinha:

—Eu te rogo, sacristão,

Por Deos e Santa Maria,

Que me ajudes a erguer

A campa da minha amiga.

Ali a viu tão formosa

Tal como d’antes a via.

Pôz os joelhos em terra,

Os braços ao céo erguia;

Jurou a Deos e á sua alma

Que mais a não deixaria.

Puchou por um punhal d’ouro

Por lhe fazer companhia.

Permittiu a virgem santa

A virgem Santa Maria,

Que se não perdesse uma alma

E um milagre fazia:

A defuncta a mão direita

Ao seu amante estendia,

Seus lindos olhos se abriram

A sua bocca sorria;

Volta á vida que se fôra

Com todo o amor que não se ia.

Seu pae o foram buscar,

Já estava na agonia;

Vêm amigos, vêm parentes

Todos com grande alegria;

E a Dom João dão a esposa

Que mui bem a merecia

22
Romance do Casamento e mortalha

(Versão do Minho)

Lá das bandas de Castella

Triste nova era chegada;

Dom João que vem doente,

Mal pesar da sua amada.

São chamados tres doutores

Dos que têm mais nomeada:

Que se algum lhe desse a vida

Teria paga avultada.

Chegaram os dois mais novos,

Dizem que não era nada;

Por fim que chega o mais velho

Diz com voz desenganada:

—Tendes tres horas de vida

E uma está meia passada;

Essa é para o testamento,

Deixar a alma encommendada.

A outra é para os sacramentos,

Que inda é mais bem empregada;

Na terceira as despedidas

Da vossa dama adorada.

Estando n’estas conversas

Dona Isabel que é chegada.

Ergueu os olhos para ella

Com a vista já turvada:

—«Ainda bem que vieste,

Minha prenda desejada;

Que tanto queria ver-te

Nesta hora minguada,

«Tenho fé na Virgem Santa,

N’ella venho confiada,

Que me hade ouvir e salvar-te,

Que teu mal não será nada.

—«Oh que se eu chegar a erguer-me,

Minha rosa namorada,

No vaso d’este meu peito

P’ra sempre serás plantada,

Com as bençãos de um Arcebispo,

E de agua benta regada,

Com a estóla da santa egreja

Ao meu coração atada.

Estando n’estas conversas,

Sua mãe que era chegada:

«—Que tens tu, filho querido

D’esta alma amargurada?

—«Tenho mãe que estou morrendo,

Que esta vida está acabada;

Com só três horas por minhas,

E uma já meio passada.

«—Filho de minhas entranhas,

N’esta hora minguada,

Lembra-te se algo deves

A alguma dama honrada.

—«Minha mãe, que devo, devo,

E Deos me não peça nada!

Dona Isabel, que em má hora

Por mim fica diffamada.

Mas deixo-lhe mil cruzados

Para que seja casada.

«—A honra não se paga, filho,

Mil cruzados não é nada.

—«Já lhe deixo mais duzentos

E a cruz da minha espada.

«—A honra não se paga, filho,

Os cruzados não são nada.

—«Deixo-a a estes tres doutores

Muito bem encommendada;

E a vós, minha mãe, vos peço

Que a tenhaes bem guardada.

O que com ella casar

Tem uma villa ganhada;

O que lhe disser que não

Tenha a cabeça cortada.

«—A honra não se paga, filho,

Nem com terras é comprada:

Se a essa dama lhe queres,

Não a deixes deshonrada.

—«Pois fique esta mão já fria

Na sua mão adorada;

De Dom João é viuva,

Condessa será chamada.

23
Romance da Nau Catherineta

(Versão de Lisboa)

Ora da nau Cath’rineta

D’ella vos quero contar,

Sete annos e mais um dia

Andou nas aguas do mar.

Não tinham lá que comer,

Nem mais quê para manjar,

Deitaram sólas de môlho

Para o domingo jantar.

A sóla era tão dura

Não a puderam tragar.

Deitam sortes á ventura

A vêr quem se hade matar!

Logo foi cahir a sorte

No capitão general.

—Sóbe, sóbe marujinho

Áquelle tópe real,

Vê se vês terras de Hespanha,

Ou praias de Portugal.

«Não vejo terras de Hespanha,

Nem praias de Portugal,

Vejo sete espadas nuas

Todas para te matar.

—Acima, acima, gageiro

Áquelle tópe real,

Vê se vês terras de Hespanha,

As praias de Portugal.

«Alviçaras, capitão,

Meu capitão general;

Já vejo terras de Hespanha

E praias de Portugal.

Tambem vejo tres meninas

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a cozer,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar.

—Todas tres são minhas filhas,

Oh quem m’as dera abraçar!

A mais formosa de todas

Comtigo a heide casar.

«A vossa filha não quero,

Que vos custou a criar.

—Dar-te-hei tanto dinheiro

Que o não possas contar.

«Não quero o vosso dinheiro

Pois vos custou a ganhar.

—Dou-te o meu cavallo branco

Que nunca houve outro igual.

«Guardae o vosso cavallo

Que vos custou a ensinar.

—Que queres tu, meu gageiro,

Que alviçaras te heide eu dar?

«Eu quero a Nau Cath’rineta

Para n’ella navegar.

—A Nau Cath’rineta, amigo,

É de el-rei de Portugal;

Mas ou eu não sou quem sou,

Ou el-rei t’a hade dar.