III-ROMANCES QUE SE ENCONTRAM NAS COLLECÇÕES HESPANHOLAS

24
Romances do Conde prêso

(Versão de Trás-os-Montes)

Prêso vae o Conde, prêso,

Prêso vae a bom recado;

Não vae prêso por ladrão,

Nem por home’ haver matado.

Mas por violar a donzella

Que vinha de Sanctiago.

Não bastou dormir com ella,

Se não dal-a ao seu criado!

Accommetteu-a na serra,

Mui longe do povoado;

Por morta ali a deixára

Sem mais dó, sem mais cuidado.

Foi á presença do rei

Onde o Conde era levado:

«Eu te requeiro, bom rei,

Pelo Apostolo sagrado,

Que n’esta sua romeira

O fôro seja guardado.

Da lei divina é casar-se,

Da humana ser degollado;

Não ha fôro ou privilegio

Onde Deos é o aggravado.

Disse o rei aos do conselho,

Com semblante carregado:

—Sem mais detença este feito

Quero já desembargado!

—«Visto está o feito, visto,

Julgado está, bem julgado;

Ou hade casar com ella,

Ou senão... ser degollado.

—Pois que me praz, disse o rei,

O algoz seja chamado;

Ou já casar com a romeira,

Ou aqui ser degollado.

«—Venham algoz e cutello,

(Respondeu o accusado)

Antes morrerei mil vezes,

Antes que ser deshonrado!

Não me enterrem na egreja

Nem tam pouco em sagrado:

N’aquelle prado me enterrem

Onde se faz o mercado.

Cabeça me deixem fóra,

O meu cabello entrançado;

De cabeceira me ponham

A pelle do meu cavallo,

Que digam os passageiros:

Triste de ti, desgraçado!

Morreste de mal de amores,

Que é um mal desesperado!

25
Dom Garfos

(Variante da Beira Baixa)

Lá abaixo vem o Conde,

Prêso vem, arreatado,

Não por furtos que haja feito,

Nem por homens que ha matado;

Foi por zombar da romeira

Que vinha de Sanctiago.

A romeira era nobre,

A el-rei se ha queixado.

Mando que case com ella,

Ou que seja enforcado!

Não heide casar com ella,

Nem heide ser enforcado!

Quem me dera aqui meus pretos,

Ou meus velozes cavallos,

Ou meu sobrinho Dom Garfos,

Que eu me vira bem vingado.

Palavras não eram ditas

Dom Garfos era chegado:

«Quem vos trouxe aqui, meu tio,

Tão prêso e arreatado?

Não por furto que haja feito,

Nem por homens que ha matado?

—Foi por zombar com a romeira

Que vinha de Sanctiago;

A romeira era nobre

A el-rei se ha queixado.

Manda que case com ella,

Ou que seja enforcado.

Vae tu falar com el-rei,

A vêr se me ha perdoado.

Entrou por palacio dentro:

«Deos vos salve, meu bom rei!

Mandae-me soltar meu tio,

Se não eu o soltarei.

—«Vae Dom Garfos para casa,

Dorme um somno descançado;

Das onze pr’a meia noite

Teu tio será soltado.

Lá pela noite adiante

Acordou sobresaltado!

Disse p’ra sua mulher

Que um sonho tinha sonhado:

«Lá no Terreiro do Passo

Está meu tio enforcado.

—Não digas isso zombando,

Que esta noite ouvi um brado.

Com uma mão veste a capa,

Com outra sela o cavallo;

A um pretinho que tinha

Uma lança lhe ha dado.

Foi-se ao Terreiro do Paço

E viu seu tio enforcado!

«Deos te perdôe, meu tio,

Deos te tenha perdoado.

Sete condes caminhavam

A verem o enforcado;

A um mata, outro degolla,

Só um lhe ha escapado;

E esse mesmo que escapou

Foi a unha de cavallo.

—«Oh Dom Garfos, oh Dom Garfos,

Não sejas desatinado,

Mataste-me já seis condes,

Os melhores do meu reinado.

«E a vós tambem proprio Rei,

Se cá estivesses em baixo;

Mas como estaes de ventana

Palraes nem um papagaio!

Mas n’uma filha que tendes

Eu me verei bem vingado.

Vae Dom Garfos para casa,

Quatro facadas lhe ha dado:

«Uma é á honra de tu padre,

Outra á honra de tu madre;

Outra por minha saúde

Que te as haja mui bem dado!

Outra por seres traidora,

Que me não has acordado.

26
Justiça de Deos

(Variante da Beira-Alta)

Prêso vae o conde, preso,

Prêso vae a bom recado;

Não vae preso por ladrão,

Nem por homem ter matado,

Mas por violar a donzella

Que vinha de Sanctiago:

Não bastou dormir com ella,

Senão dal-a ao seu criado.

Accommetteu-a na serra,

Mui longe do povoado:

Por morta ali a deixara

Sem mais dó, nem mais cuidado.

Chorou tres dias, tres noites,

E mais teria chorado,

Senão que Deos sempre acode

A amparar o desgraçado.

Passou por ali um velho,

Um pobre velho soldado,

As barbas brancas de neve,

Em sua espada abordoado.

Vieiras traz na esclavina,

O chapeo d’ellas cercado;

Chegou-se á pobre romeira

Com muito amor, muito agrado:

—Não chores mais, filha minha,

Filha, de mais tens chorado;

Que esse villão cavalleiro

Prêso vae a bom recado.

Levou comsigo a donzella

O bom velho do soldado,

Vão á presença d’el-rei

Onde o conde era levado.

—Eu te requeiro, bom rei,

Pelo Apostolo sagrado,

Que n’esta tua romeira

O fôro seja guardado.

Da lei divina é casar-se,

Da humana ser degollado:

Que não valem fidalguias

Onde Deos é o aggravado.

Disse el-rei aos do conselho

Com semblante carregado:

—«Sem mais detença, este feito

Quero já desembargado,

«—Visto está o feito, visto,

Julgado está, bem julgado:

Ou hade casar com ella,

Ou senão, ser degollado.

—«Pois que me praz, disse o rei,

O algoz que seja chamado;

Ou já casar com a romeira,

Ou aqui ser degollado.

«Venham algoz e cutello,

Respondeu o accusado:

Mas antes morrer mil vezes

Que viver envergonhado.

Agora ouvireis o velho,

O bom velho do soldado:

—Fazeis, bom rei, má justiça,

Mau feito tendes julgado;

Primeiro casar com ella,

E depois ser degollado.

Lava-se a honra com sangue,

Mas não se lava o peccado.

Palavras não eram ditas

A espada tinha arrojado;

Despe o gaivão de romeiro,

Despe as armas de soldado,

Nos trajos de um santo Bispo

Apparece transformado!

Sua mitra de pedras finas,

De ouro puro o seu cajado;

Tomou a mão da romeira,

A mão do conde ha tomado,

Por palavras de presente

Ali os tem desposado.

Choravam todos que o viam,

Chorava mais o culpado;

Chorando, pedia a morte

Por não ficar deshonrado.

O santo Bispo o absolvia

Contricto do seu peccado:

D’ali o levam por morto,

Que nem o algoz foi chamado;

Justiça de Deos foi n’elle:

Antes de uma hora é finado.

27
Romances do Conde Alberto

(Versão do Porto)

Indo Dona Silvaninha

Pelo corredor acima,

Tocando sua guitarra,

Muito bem que a tangia;

Acordou seu pae da cama

Com o estrondo que fazia.

—Que tendes, Dona Silvana,

Que tendes, oh vida minha?

«Raparigas do meu tempo

São casadas, têm familia,

Eu por ser a mais formosa

Para o canto ficaria?

—Não tenho com quem te case

Neste reino, minha filha;

Só se fôr o Conde Alberto,

É casado e tem familia.

«Mandai-o chamar, meu pae,

Da sua parte e da minha,

Que mate sua condessa,

E case com vossa filha;

Que traga a cabeça d’ella

Nesta dourada bacia.

Eis manda chamar o Conde

Da sua parte e da filha;

Matasse a sua condessa,

Casasse com Silvaninha.

Veio o Conde mui depressa,

Mais depressa que podia:

—Quero mates a condessa,

Que cases com minha filha.

—«Como matar a condessa

Se ella a morte não merecia?

—Mata, mata, Conde Alberto;

Antes de uma Ave-maria

Me traz a sua cabeça

N’esta dourada bacia.

Foi o Conde para casa,

Muito triste que elle ia;

Mandou fechar seus palacios,

Cousa que nunca fazia.

Mandou vestir seus criados

De luto á maravilha;

Mandou pôr a sua mesa

Para fazer que comia.

As lagrimas eram tantas

Que pela mesa corria;

Os suspiros eram tantos

Que o palacio estremecia.

Desceu a condessa abaixo

A vêr o que o Conde tinha:

»Que tens tu, oh Conde Alberto,

Que tendes, oh vida minha?

Conta-me as tuas tristezas

Como contaes alegrias.

—«Minhas tristezas são tantas

Que contar-vos não queria,

»Conta, conta, Conde Alberto,

Conta, conta, vida minha.

—«Manda-me el-rei que te mate,

Que case com sua filha.

»Cala-te lá, Conde Alberto,

Que isso remedio teria:

Meter-me-has n’um convento,

Que não veja sol, nem dia;

Deras-me o pão por onça,

Agua por uma medida.

—«Ai! como pode isso ser,

Condessa da minha vida?

Diz que te leve a cabeça

Nesta maldita bacia.

»Cala-te d’ahi, oh Conde,

Que isso remedio teria:

Matarias a donzella

Que se parece commigo.

—«Cala-te d’ahi, mulher,

Que isso não é honra minha.

»Vou para casa de meu pae

Nunca mais apparecia.

Palavras não eram ditas

El-rei á porta batia:

Se a condessa era morta,

Senão elle a mataria.

—«A Condessa não é morta,

Anda n’essas agonias.

»Deixa-me dar um passeio

Da sala até á cosinha:

Adeos moças, adeos aias

Com quem eu me divertia,

Adeos espelho real

Onde me via e vestia;

Que ámanhã por estas horas

Já estarei na terra fria.

Dá-me cá esse menino

Que o quero pentear;

Dá-me cá o outro mais novo,

Quero-lhe dar de mammar:

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de paixão,

Que ámanhã por estas horas

Está tua mãe no caixão.

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de pesar,

Que ámanhã por estas horas

Vae tua mãe a enterrar.

Mamma, mamma, meu menino,

Este leite de amargura,

Ámanhã por estas horas

Está tua mãe na sepultura.

Tocam sinos em palacio,

Ai, Jesus, quem morreria?

—Morreu a filha do rei

Pela soberba que tinha,

Descasar os bem casados

Cousa que Deos não queria.

28
Conde Alves

(Variante da Beira Baixa)

Estando a princesa a chorar,

Filha do rei de Castilla:

Seu pae se foi ter com ella

Ao estrondo que fazia:

—O que é isso, oh Silvana,

Que é isso, oh filha minha?

«De tres manas que eu tenho

São casadas tem família;

Eu por ser a mais formosa

Solteirinha ficaria?

—Não tenho com quem te case

Na mais alta senhoria;

Só sendo com o Conde Alves,

É casado e tem familia.

«Com esse, meu pai, com esse,

Com esse é que eu queria;

Mande-o chamar, meu pae,

Da sua parte e da minha!

—Ála, ála, meus criados,

O Conde Alves vão chamar.

—«Ainda agora de lá venho,

Já para lá heide tornar?

Entrou pelo passo dentro

Fazendo mil cortezias:

—«Que me quer a Vossa Alteza,

Vossa Alteza Senhoria?

—Quero que mates a Condessa,

E cases com minha filha!

—«A Condessa não a mato,

Que ella a morte não merecia.

Mando-a deitar aos matos,

Que os bichos a comeria.

—Mata, mata, Conde Alves,

Não me tornes demasia;

A cabeça me ha de vir

N’esta dourada bacia.

Não m’a troques lá por outra,

Que eu bem a conhecia;

Que ao seu lado direito

Um sinal preto teria.

Foi-se d’ali o bom Conde,

Cheio de melancholia;

Mandou fechar suas portas,

Cousa que nunca fazia!

Mandou pôr a sua mesa,

Nem um, nem outro comia;

As lagrimas eram tantas,

Que pela mesa corria.

«—O que é isso, oh bom Conde,

Que é essa melancholia?

Conta-me as tuas tristezas,

Que eu te conto alegrias!

—«Se eu te contasse tristezas,

Morta para trás cahirias:

Mandou o rei que te mate,

Que case com sua filha.

«—Isso não, bom conde, não,

Que eu a morte não merecia;

Manda-me deitar aos mares,

Que os peixes me comeria.

—«Isso não, condessa, não,

Que o rei logo o sabia,

A cabeça te hade ir

N’aquella negra bacia,

Que te não troque por outra

Que elle bem te conhecia;

Que ao teu lado direito

Um sinal preto teria.

«—Deixa-me dar um passeio

Da sala para o jardim:

Adeos cravos, adeos rosas,

Adeos flor do alecrim.

Deixa-me dar um passeio

Da sala para a cosinha;

Deixa-me dar de mammar

Ao filho que tanto queria.

Mamma, filho, mamma, filho,

Este leite amargurado,

Ámanhã por estas horas

Já teu pai está coroado.

Mamma, filho, mamma, filho,

Este leite de amargura;

Ámanhã por estas horas

Já estarei na sepultura.

Anda cá, filho mais velho,

Que te quero ensinar

A tua mãe a rainha

Como lhe haveis de chamar,

Com o joelho no chão,

O chapeosinho no ar.

Estando n’estas razões

El-rei á porta batia:

A condessa já é morta,

Senão elle a mataria.

—«A condessa não é morta,

Está n’essas agonias.

Tocam os sinos na côrte,

Ai, Jesus, quem morreria?

Morreu, foi Dona Silvana,

Por crimes que commettia;

O pae morreu ás dez horas,

E a filha ao meio dia.

Apartar os bem casados

Era o que Deos não queria.

29
Romances do Conde de Allemanha

(Versão da Beira-Baixa)

Já o sol nasce na serra,

Já lá vem o claro dia,

Inda o Conde de Allemanha

Com a rainha dormia.

Não o sabia o rei,

Nem quantos na côrte havia,

Sabia-o só o princesa

Juliana sua filha.

—Juliana, se o sabes,

Não o queiras descubrir;

Porque o Conde é muito rico

De ouro te hade vestir.

«Não quero seus fatos d’oiro,

Já os tenho de damasco;

Inda meu pae não é morto,

Já me querem dar padrasto!

As pregas d’esta camisa

Eu não as chegue a fazer,

Quando meu pae vier da missa

Se eu lh’o não fôr dizer.

As pregas d’esta camisa

Não as chegue eu a acabar,

Em meu pae vindo da missa

Se lh’o eu não fôr contar.

Estando n’estas rasões

O pae á porta batia:

—«Oh que razões serão essas

Entre uma mãe e a filha?

«Com bem venha, senhor pae,

Com Deos seja a sua vinda;

Tenho para lhe contar

Um conto de maravilha:

Estando eu no meu tear,

Tecendo cambraia fina,

Veio o Conde de Allemanha...

—«Algum fio te quebraria?

Não te zangues, minha filha,

Nem me faças tu zangar,

Porque o Conde é divertido,

Talvez fosse por brincar.

«Mal o hajam os seus brincos,

Mais o seu negro brincar;

Que me pegou por um braço

E á cama me quiz levar.

—«Accommoda-te pois, filha,

Não me faças mais zangar,

Ámanhã por estas horas

Vae o Conde a degollar.

«Levante-se, minha mãe,

Venha vêr a bizarria!

E o Conde da Allemanha

Tambem vae na companhia,

Com a cabeça n’um prato,

E o sangue n’uma bacia.

—Mal o hajas tu, oh filha,

Fóra o leite que mammaste;

Sendo o Conde tão bonito

A morte que lhe causaste.

«Accommode-se minha, mãe,

Não me faça mais zangar,

A morte, que o Conde leva

Não lh’a faça eu levar.

—Bem hajas, oh minha filha,

Mais o leite que mammaste;

Menina de doze annos

Da morte que me livraste.

30
O Conde de Allemanha

(Variante de Trás-os-Montes)

Já o sol dava na côrte,

E já era o claro dia,

Inda o Conde de Allemanha

Com a rainha dormia.

Não no saberia el-rei,

Nem quantos na côrte havia,

Sabia-o a Dona Infanta

Filha da mesma rainha.

—«Infantinha, se o sabes,

Não me queiras descobrir,

Que o Conde é mui brioso,

De ouro te hade vestir.

«Não quero vestidos d’ouro,

Que os tenho de damasco,

Meu pae ainda é bem novo,

Já me querem dar padrasto.

As mangas d’esta camisa

Não as chegue eu a romper,

Se quando vier meu pae

Eu lh’o não fôra dizer.

Venha, venha, senhor, pae,

Santa seja a sua vinda,

Um conto quero contar,

Um conto á maravilha.

—Conta, conta, minha filha,

Que eu gósto do te ouvir!

«Estando eu na minha cella,

Dobando seda amarella,

Veio o Conde de Allemanha

Tres fios me tirou d’ella,

—Cala-te lá, oh filha,

Vamos p’r’a mesa jantar,

Que o Conde é rapaz novo,

É menino quer brincar.

«Mal hajam os seus brinquedos,

Mal haja do seu brincar,

Que pegou em mim nos braços,

Á cama me foi lançar.

—Dize pois, oh minha filha,

Que castigo lhe heide dar?

«Quero escadas dos seus ossos

Para o jardim passear.

—Cala-te lá, oh filha.

Vamos para a mesa jantar,

Que amanhã por estas horas

Vae o Conde a degollar.

—«Arrenego-te, Mariana,

Mais o leite que mammaste,

Oh que Conde tão bonito

E a morte que lhe causaste,

«Minha mãe, minha mãesinha,

Venha á janella do canto,

Venha ver o senhor Conde

Todo vestido de branco.

Venha vêr, oh minha mãe,

Á janellinha do poço,

Venha vêr o senhor Conde

Com uma corda ao pescoço.

Venha, venha, minha mãe,

Venha p’r’a sala do meio,

Vêr o Conde da Allemanha

Feito n’um cravo vermelho.

—«Mal o hajas tu, oh filha,

Fóra o leite que mammaste,

Sendo o Conde tão bonito

A morte que lhe causaste.

«Cale-se ahi, minha mãe,

Ninguem a ouça falar;

Que a morte que leva o conde

Não a vá você levar.

31
Romances de Dom Carlos de Montealbar

(Versão do Porto e Beira-Alta)

Estando Dona Silvana,

Mais Dom Carlos Montealbar,

Debaixo de uma roseira,

Debaixo de um rosal,

Passou por ali um pagico,

Que nunca elle passasse:

—Pagico, do que has visto

A el-rei não vás contar,

Que eu te dou a minha chave,

Quanto puderes levar;

E da parte da senhora

O que ella te quizer dar.

«Não quero ouro, nem prata,

Se ouro e prata me heis dar;

Quero guardar lealdade

A quem a devo guardar.

Pagem, como ignorante,

A el-rei o foi contar,

Á casa dos estudantes

Onde estava a estudar,

«Deos vos salve, senhor rei,

E a vossa corôa real;

Lá deixei o conde Carlos

Com a princesa a folgar,

«—Se á puridade o dissesses

Tença te havia de dar;

Mas pois tam alto falaste,

Alto hasde ir a enforcar.

—«Ganhas-te, mexeriqueiro,

Com o teu mexericar.

«Ganhei a morte, senhora,

E a vida me podeis dar.

—«Se ella está na minha mão,

A vida não te heide dar;

Para outra não fazeres

Já irás a degollar,

E ao rabo do meu cavallo

Te mandarei arrastar.

Aos sette para outo mezes

Seu pae que a estava a mirar;

-«Que me mira, senhor pae,

Que tanto me está a mirar?

«—Eu miro-te, minha filha,

Que me pareces pejada.

—«Calle-se d’ahi, meu pae,

Que é das saias mal talhadas.

Mandou chamar dois obreiros

A quem elle mais amava,

Olharam um para o outro:

»Estas saias não tem nada!

«—Call’-te, call’-te, minha filha,

Ámanhã serás queimada!

—«Não se me dá que me queimem,

Que me tornem a queimar;

Da-se-me d’este meu ventre

Que é de sangue real.

Ai quem me dera um pagico

Que me fôra bem mandado,

Que me levara uma carta

A Dom Carlos Montealbar.

«Escreva, minha senhora,

Em quanto eu vou jantar.

—«Se elle estiver a dormir

Façam-no logo acordar,

Se elle estiver a comer

Não o deixem acabar.

«Aqui lhe trago, senhor,

Novas de grande pesar,

Que a sua bella menina

Ámanhã vae a queimar.

Jornada de trinta leguas

Temol-a nós para andar.

Era meia noite em ponto

Dom Carlos a repousar;

Chamou um dos seus criados

O que lhe era mais leal,

Lhe aparelhasse um cavallo

Dos que tem melhor andar;

Doze campainhas d’ouro

Lhe puzesse ao peitoral.

Onde vás tu, oh Dom Carlos,

Sósinho por esse andar?

Vestiu-se em trajos de frade

Ao caminho foi esperar.

—Cesse, cesse, senhor conde,

Cesse se hade cessar,

Que a menina que aí vae

Inda está por confessar.

«—Confesse-a, senhor padre,

Em quanto eu vou jantar.

—Diga-me, minha menina,

Verdade me hade falar:

Se algum dia teve amor

A leigo, crelgo, ou a frade?

—«Nunca tive amor a crelgo,

Nem a leigo, nem a padre;

Tive amores com Dom Carlos,

Por isso vou a queimar.

No primeiro mandamento

O padre nada lhe disse;

No meio da confissão

Um beijinho lhe pediu.

—«Cesse, cesse, senhor padre,

Cesse se hade cessar,

Onde Dom Carlos beijou

Ninguem mais hade beijar.

—Esse sou, minha senhora,

Que a venho aqui buscar.

Tomou-a logo nos braços,

Puzeram-se a caminhar;

Correm d’alem os criados

E puzeram-se a gritar:

«Senhor padre, deixe a moça,

Que a manda seu pae queimar!

—Pois vão dizer a seu pae,

Que a venha d’aqui tirar.

32
Dona Lisarda

(Variante da Beira-Baixa)

—Oh Lisarda, oh Lisarda,

Oh Lisarda meus amores,

Quem dormira uma só noite

Comvosco n’esses alvores.

«Dormirieis uma ou duas

Se não vos fôsses gabar.

—Tenho feito juramento

Na folhinha do Missal,

Menina com quem dormir

De eu a não ir diffamar.

Ainda não era manhã

Ao jogo se foi gabar:

—Dormi esta noite com uma....

Não ha na corte uma egual!

Puzeram-se uns para os outros:

Quem seria? quem será?

Aonde estava um irmão

Á mãe o veio contar;

A mãe assim que o soube

Logo a mandou fechar.

O pae perdeu confiança,

Lenha lhe mandou cortar.

«—Oh Lizarda, oh Lizarda,

O pae te manda queimar.

«Não se me dá que me queime,

Nem que me mande queimar;

Dá-se-me d’este meu ventre

Que leva sangue real.

Chegou a uma janella

Mui triste do coração:

«Haverá por’hi um pagem

O qual queira do meu pão,

Que esse levasse uma carta

Ao conde de Montalvão?

Appareceu-lhe um menino

De sete annos e mais não:

—«Eu lh’a levarei, senhora,

Escripta no coração.

«Se o achares a dormir

Deixa-o primeiro acordar;

Se o achares á janella,

Cartas lhe vás entregar.

Foi fortuna do menino

Á janella o ir achar:

—«Cartas lhe trago, senhor,

Cartas de muito pesar;

Menina com quem dormistes

Ámanhã a vão queimar.

Não se lhe dá que a queimem,

Nem que a levem a queimar;

Dá-se-lhe só do seu ventre

Que leva sangue real.

—Ala, ala, meus criados,

Cavallos ide ferrar,

Com ferraduras de bronze

Que não se hajam de gastar.

Jornada de outo dias

Esta noite se hade andar.

Vestiu-se em trajos de frade

Começou a caminhar;

Quando chegou ao pé d’ella

Então já a iam queimar.

—Quéde, quéde essa justiça,

Se não a farei quedar,

A menina que aí levam

Ainda vae por confessar.

—Confessae-a, senhor padre,

Emquanto vamos jantar;

A confissão é de um anno,

Ella hade-se demorar.

—Venha cá, minha menina,

Faça confissão geral,

No meio da confissão

Um beijinho me hade dar.

«Tenho feito juramento

Na folhinha do Missal,

Bocca que beijou o conde

Frade não hade beijar.

—Venha cá, minha menina,

Que a quero confessar;

No meio da confissão

Um abraço me hade dar.

«Não permitta Deos do céo

Nem os santos do altar,

Braços que o conde abraçaram

Frades não hão de abraçar.

Começa-se elle a sorrir

No meio da confissão:

«Pelo rir estás parecendo

O Conde de Montalvão!

—Esse sou, minha senhora,

Criado para a salvar.

Montou-a no seu cavallo,

Foi á pressa a caminhar,

Quando veio a justiça

Não a puderam alcançar.

—Digam agora a seus manos ’

Que a venham cá accusar;

Digam agora a sua mãe

Que a venha cá fechar;

Digam também a seu pae

Que a mande agora queimar!

Vae na minha companhia

Para com ella casar.

33
Dona Areria

(Variante de Coimbra)

A cidade de Coimbra

Tem uma fonte de agua clara;

As moças que bebem n’ella

Logo se vêem pejadas.

Dona Areria bebeu n’ella

Logo se viu occupada

Estando com seu pae á mesa

Seu pae que muito a mirava:

—Dona Areria, Dona Areria,

Parece que estás pejada?

«A culpa é dos alfaiates,

Que talharam mal a saia.

Chamaram-se os alfaiates

Á sua salla fechada,

Olharam uns para os outros:

—Esta saia não tem nada.

Ao cabo de nove mezes

Ella será abaixada.

Arrecolheu-se ao seu quarto

Muito triste, desmaiada.

—Dona Areria, Dona Areria,

Ámanhã serás queimada.

«Não se me dá que me queimem,

Que me tornem a queimar;

Dá-se-me d’este meu ventre

Que é de mui nobre linhagem.

Oh quem me dera um criado

Que me comêra o meu pão;

Que me levara uma carta

Ao conde de Montalvão.

—Escreva, menina, escreva,

Escreva do coração,

Que eu lhe levarei a carta

Ao conde de Montalvão.

—Aqui tem, oh senhor conde,

Carta de muito pesar;

Menina com quem dormiu

Ella aí vem a queimar.

—«Se tu me dizes devéras,

Cavallos mando apromptar;

A jornada de oito dias

Ainda hoje se hade andar.

—Lá ao fim de nove legoas

Liteiras se hão de encontrar.

Vestiu-se em trajos de frade

Ao caminho a foi esperar;

Em chegando ao pé d’ella

Aos criados foi falar:

—«Pára, pára, oh da liteira,

Que eu te farei parar,

A menina que vem dentro

Ella vem por confessar:

—«Diga-me, minha menina,

Verdade me hade falar,

Se teve amores com clerigos

Ou com frades, mal pesar?

«Não tive amores com clerigos,

Nem frades de mal pesar;

Tive amores com Dom Carlos,

Por isso vou a queimar.

—«Lá no meio da confissão

Um beijinho me hade dar.

«Onde o conde pôz a bocca

Padre algum lhe hade tocar.

—«Pois Dom Carlos sou eu mesmo

E comtigo heide casar.

34
Romance do Passo de Roncesval (Versão de Trás-os-Montes)

—Quêdos, quêdos cavalleiros,

Que el-rei os manda contar!

Contaram e recontaram,

Só um lhe vinha a faltar;

Era esse Dom Beltrão,

Tão forte no batalhar;

Nunca o acharam de menos

Senão n’aquelle contar,

Senão ao passar do rio,

Nos portos de mal passar.

Deitam sortes á ventura

A qual o ha de ir buscar.

Que ao partir fizeram todos

Preito, homenagem no altar,

O que na guerra morresse

Dentro em França se enterrar.

Sete vezes deitam sortes

A quem no hade ir buscar;

Todas sete lhe cahiram

Ao bom velho de seu pae.

Volta redeas ao cavallo,

Sem mais dizer, nem falar...

Que lh’a sorte não cahira,

Nunca elle havia ficar.

Triste e só se vae andando

Não cessava de chorar;

De dia vae pelas montes.

De noite vae pelo val;

Aos pastores perguntando

Se viram ali passar

Cavalleiro de armas brancas,

Seu cavallo tremedal?

«Cavalleiro de armas brancas,

Seu cavallo tremedal,

Por esta ribeira fóra

Ninguem não no viu passar.

Vae andando, vae andando

Sem nunca desanimar,

Chega áquella mortandade

D’onde fôra Roncesval:

Os braços já tem cansados

De tanto morto virar;

Viu a todos os francezes,

Dom Beltrão não pôde achar.

Volta atrás o velho triste,

Volta por um areal,

Viu estar um perro mouro

Em um adarve a velar:

—Por Deos te peço, bom mouro,

Me digas sem me enganar,

Cavalleiro de armas brancas

Se o viste por’qui passar?

Hontem á noite seria,

Horas do gallo cantar,

Se entre vós está cativo

A oiro o heide pezar.

«Esse cavalleiro, amigo,

Diz’-me tu que signaes traz?

—Brancas são as suas armas,

O cavallo tremedal,

Na ponta da sua lança

Levava um branco sendal,

Que lh’o bordou sua dama

Bordado a ponto real.

«Esse cavalleiro, amigo,

Morto está n’esse pragal,

Com as pernas dentro d’agua,

O corpo no areal.

Sete feridas no peito

A qual será mais mortal:

Por uma lhe entra o sol,

Por outra lhe entra o luar,

Pela mais pequena d’ellas

Um gavião a voar.

—Não tórno a culpa a meu filho,

Nem aos mouros de o matar:

Tórno a culpa a seu cavallo

De o não saber retirar.

Milagre! quem tal diria,

Quem tal poderá contar!

O cavallo meio morto

Ali se pôz a falar:

—«Não me tornes essa culpa,

Que m’a não podes tornar;

Tres vezes o retirei,

Tres vezes para o salvar;

Tres me deu de espora e rédea,

Co’a senha de pelejar.

Tres vezes me apertou silhas,

Me alargou o peitoral...

Á terceira fui a terra

D’esta ferida mortal.

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