IV—ROMANCES MOURISCOS E CONTOS DE CAPTIVOS
35
Fragmento de um Romance do Cid
(Versão de Gil Vicente)
Ai Valença, guai Valença,
De fogo sejas queimada,
Primeiro foste de Mouros
Que de Christianos tomada.
Alfaleme na cabeça
En la mano uma azagaya,
Guai Valença, guai Valença,
Como estás bem assentada;
Antes que sejam tres dias
De Moiros serás cercada.
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36
Romances de Dom Gayfeiros
(Versão de Trás-os-Montes)
Sentado está Dom Gayfeiros
Lá em palacio real,
Assentado ao taboleiro
Para as tavolas jogar.
Os dados tinha na mão,
Que já os ia deitar,
Se não quando vem seu tio
Que lhe entra a pelejar:
—Para isso és Gayfeiros,
Para os dados arrojar;
Tua esposa lá têm mouros,
Não és para a ir buscar.
Outrem fôra seu marido,
Já lá não havia estar.
Palavras não eram ditas
Os dados vão pelo ar,
A que não fôra o respeito
Da pessoa e do logar,
Tavolas e taboleiro
Tudo fôra espedaçar:
—«Sette annos a busquei, tio,
Sem a poder encontrar;
Os quatro por terra firme,
Os tres por cima do mar.
Andei por montes e valles
Sem dormir, nem descançar;
O comer de carne crua,
No sangue a sêde matar,
Sangue vertiam os pés,
Cansados de tanto andar;
E os sete annos cumpridos
Sem a poder encontrar.
Ella estava em Salsonha
Lá em palacio real!
Mercê vos peço, meu tio,
Se m’a vós quizereis dar,
Vossas armas e cavallo
Que m’as queiraes emprestar.
A minha esposa entre mouros
Eu a quero ir buscar.
—Minhas armas não te empresto,
Que as não posso desarmar;
Meu cavallo bem vezeiro
Não o quero mal vezar.
Dom Gayfeiros, que isto ouviu,
A espada foi a tirar:
—«Bem parece Dom Roldão,
Bem parece mal pesar,
O muito amor que me tendes
Para assim me affrontar.
Mandae-me dizer por outrem
Que me las possa pagar,
Essas palavras, meu tio,
Que vos não quero tragar.
—Bem parece, Dom Gayfeiros,
Bem se deixa de mostrar,
Que a falta de annos, sobrinho,
Em tudo vos faz falar.
Aquelle que mais te quer
Esse te hade castigar:
Fôras tu mau cavalleiro,
Nunca te eu dissera tal!
Porque sei que és bom, o disse,
E agora armar e sellar.
Meu cavallo e minhas armas
Ahi estão ao teu mandar,
E aqui tendes o meu corpo
Para vos acompanhar.
—«Só quero ir, meu tio, só
Para melhor a tirar;
Venham armas e cavallo,
Que já me quero marchar.
«Oh que lindo cavalleiro
De tão gentil cavalgar!
—«Melhor sou jogando ás damas,
Com mouros a batalhar.
«Se sois christão cavalleiro
Recado me haveis levar,
Que digaes a Dom Gayfeiros
Porque me não vem buscar;
Pois me querem fazer moira,
E de Christo renegar.
Com um rei mouro me casam
De alem das bandas do mar,
Dos sette reis da moirama
Rainha me hão de coroar.
—«Esse recado, senhora,
Eu mesmo lh’o heide dar,
Pois Dom Gayfeiros sou eu,
Que vos venho a buscar.
A fala não era dita
Puzeram-se a caminhar;
Tirou-a pelo balcão
Por não haver mais logar.
Cavalgam, vão caminhando,
Não cessam de caminhar,
Por essa moirama fóra
Sem mais temor, nem pesar;
Falando de seus amores
Sem de mais nada pensar.
Em terras da christandade
Por fim vieram a entrar,
As festas que se fizeram
Não teem conto, nem par.
37
Melisendra
(Variante de Trás-os-Montes)
—Sette annos são cumpridos
Bem n’os deves de contar,
Que a Melisendra é cativa
E a vida leva a chorar.
Outrem fôra seu marido,
Já lá não havia estar!
A seu tio Dom Roldão
Tal resposta lhe foi dar:
—«Os sette annos são cumpridos
Sem a poder encontrar!
Agora a saber sou vindo
Que a Salsonha foí parar.
E eu sem armas, nem cavallo
Com que a possa ir buscar!
—Eu sempre te vi com armas,
Com cavallos a adestrar;
Agora que estás sem elles
É que a queres ir buscar?
—«As vossas armas meu tio,
Que m’as não queiraes negar;
A minha esposa cativa
Como heide eu ir buscar?
—Em Sam João de Latrão
Fiz juramento no altar
De a ninguem emprestar armas
Que m’as faça acovardar.
Saltam-lhe os olhos da cara,
De merencorio falar:
—«De covarde a mim! ninguem
Nunca me hade appellidar!
—Fôras tu mau cavalleiro,
Nunca te eu dissera tal.
Dom Roldão a sua espada
Ali lhe foi entregar:
—E mais terás o meu corpo
Para te ir acompanhar.
—«Mercês, meu tio, heide ir só,
Só, tenho de a ir buscar.
—Pois se queres ir só, sobrinho,
Esta te hade acompanhar;
Meu cavallo é generoso
Não o queiras sopear;
Dá-lhe mais rédea que espora,
N’elle te podes fiar.
Andando vae Dom Gayfeiros,
Andando a bom andar;
Por essas terras de Christo
Té á moirama chegar.
Ia triste e pensativo,
Cheio de grande pesar,
Para as portas de Salsonha,
Sem saber como hade entrar;
Melisendra em mãos de mouros
Como lh’a hade sacar?
Estando n’este cuidado
As portas se abrem de par,
El-Rei com seus cavalleiros
Sahia ao campo a folgar.
Furtou-lhe as voltas Gayfeiros,
Pelas portas foi entrar;
Deu com um christão cativo
Que ali andava a trabalhar:
—«Por Deos te peço, cativo,
E elle te venha livrar,
Assim me digas se ouviste
N’esta terra anomear
A uma dama christan,
Senhora de alto solar,
Que anda cativa de mouros
E a vida leva a chorar?
«—Deos te salve, cavalleiro,
Elle te venha ajudar!
E assim me dê outra vida,
Que esta se vae a chorar.
Pelos signaes que me déste
Já bem te posso affirmar,
Que a dama que andas buscando
Em palacio deve estar.
Toma essa rua direita,
Que leva ao passo real,
Lá verás pelas janellas
Muitas christãs a folgar.
Tomou a rua direita,
Que no palacio vae dar,
Alçou os olhos ao alto,
Melisendra viu estar
Sentada áquella janella,
Tão entregue ao seu pensar,
Que as outras em redor d’ella
Não as sentia folgar.
Rua abaixo, rua acima,
Gayfeiros a passear:
«D’onde é o cavalleiro
De tão lindo passear?
—«O cavalleiro é christão
Das bandas d’alem do mar.
«Se o cavalleiro é christão
Recado me haveis levar,
Que digaes a Dom Gayfeiros
Porque me não vem buscar,
Em quanto eu presa e cativa.
A vida levo a chorar.
—«Esse recado, senhora,
Vós mesma lh’o haveis de dar;
Dom Gayfeiros aqui o tendes,
Que vos vem a libertar.
Palavras não eram ditas
Os braços lhe foi a dar,
Ella do balcão abaixo
Se deitou sem mais falar.
Maldito perro de mouro
Que ali andava a rondar
Em altos gritos o mouro
Começava de bradar:
«—Accudam á Melisendra,
Que se vae para alem-mar.
—«Melisendra, Melisendra,
Agora é o esforçar!
Aperta a cilha ao cavallo,
Affrouxa-lhe o peitoral,
Saltou-lhe em cima de um pulo,
Sem pé no estribo poisar.
Tomou-a pela cintura,
Que o corpo ergueu por lh’a dar.
Assenta a esposa á garupa
Para que a possa abraçar;
Finca esporas ao cavallo,
Que o sangue lhe faz saltar,
Os mouros pela cidade
A correr e a gritar;
Quantas portas ella tinha
Todas as foram cerrar,
Sette vezes deu a volta
Da cerca sem a passar,
O cavallo ás outo vezes
De um salto a foi saltar.
O rei que vinha da caça
Lá deitou a desfilar.
Sentiu logo Dom Gayfeiros
Como o iam alcançar:
—«Não te assustes, Melisendra,
Que é força aqui apear;
Entre estas arvores verdes
Um pouco me hasde aguardar,
Em quanto eu volto a esses perros,
Que os heide affugentar.
As boas armas que trago
Agora as vou a provar.
«—Renego de ti, christão
E mais do teu pelejar!
Não ha outro cavalleiro
Que se te possa egualar;
Só se fosse Dom Roldão,
O encantado sem par.
—«Calla-te d’aí, rei mouro,
Calla-te, não digas tal,
Sou o infante Dom Gayfeiros,
Roldão meu tio carnal,
Alcaide mor de Paris,
Minha terra natural.
Gayfeiros, senhor do campo,
Não tem com quem pelejar;
Cheio de grande alegria
Melisendra foi buscar:
«Ai, se vens ferido, esposo,
E que ferido hasde estar?
Eram tantos esses mouros,
E tu só a batalhar!
Mangas da minha camiza.
Com ellas te heide pençar;
Toucas da minha cabeça
Faxas para te apertar.
—«Calla-te d’aí, infanta,
E não queiras dizer tal,
Por mais que foram-n’os mouros
Não me haviam fazer mal:
São de meu tio Roldão
Estas armas de provar.
A Paris já são chegados,
Já sáem para os encontrar,
Sete leguas da cidade
A côrte os vae esperar;
Sahia o imperador
A sua filha a abraçar:
Grande honra a Dom Gayfeiros,
Os parabens lhe vão dar;
Por sua muita bondade
Todas o estão a louvar,
Pois libertou sua esposa
Com valor tão singular.
38
Romance de Branca-Flor
(Versão da Extremadura)
—Á guerra, á guerra, mourinhos,
Quero uma christã cativa!
Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima;
Tragam-me a christã cativa,
Que é para a nossa rainha.
Uns vão pelo mar abaixo,
Outros pela terra acima;
Os que foram mar abaixo
Não encontraram cativa;
Os que foram terra acima
Tiveram melhor atina.
Deram com o conde Flores,
Que vinha da romaria:
Vinha lá de Sanctiago,
Sanctiago da Galliza.
Mataram o conde Flores,
A condessa vae cativa;
Mal que o soube a rainha
Ao caminho lhe sahia:
«Venha embora a minha escrava,
Boa seja a sua vinda!
Aqui lhe entrego estas chaves
Da dispensa e da cosinha;
Que me não fio de moiras,
Que me não dêem bruxaria.
»Acceito as chaves, senhora,
Por grande desdita minha!
Hontem condessa jurada,
Hoje moça da cosinha.
A rainha está pejada,
A escrava tambem o vinha;
Quiz a boa ou má fortuna
Que ambas parissem n’um dia.
Filho varão teve a escrava,
E uma filha a rainha;
Mas as perras das comadres,
Para ganharem alviçaras,
Deram á rainha o filho,
E á escrava deram a filha.
»Filha minha da minha alma,
Com que te baptisaria?
As lagrimas dos meus olhos
Te sirvam de agua bemdita.
Chamar-te-hei Branca Rosa,
Branca-Flor d’Alexandria,
Que assim se chamava d’antes
Uma irmã que eu tinha.
Captivaram-n’a os mouros
Dia da Paschoa Florida,
Quando andava a apanhar rosas
N’um rosal que meu pae tinha.
Estas lastimas choradas
Veis la rainha que ouvia,
E co’as lagrimas nos olhos
Muito depressa accudia:
«Criadas, minhas criadas,
Regalem-me esta cativa;
Que se eu não fôra de cama
Eu é que a regalaria.
Mal se alevanta a rainha
Vae-se ter com a cativa:
«Como estás, oh minha escrava,
Como está a tua filha?
»A filha boa, senhora,
Eu como mulher parida.
«Se estiveras em tua terra
Que nome lhe chamarias?
»Chamava-lhe Branca Rosa,
Branca-Flor de Alexandria;
Que assim se chamava d’antes
Uma irmã que eu tinha:
Cativaram-n’a os mouros
Dia de Paschoa Florida,
Quando andava a apanhar rosas
N’um rosal que meu pae tinha,
«Se vira’la tua irmã
Se tu a conhecerias?
»Assim eu a vira nua,
Da cintura para cima;
Debaixo do peito esquerdo
Um lunar preto ella tinha,
«Ai, triste de mim coitada,
Ai triste de mim mofina!
Mandei buscar uma escrava
Trazem-me uma irmã minha.
Não são passadas três dias
Morre a filha da rainha:
Chorava a condessa Flores
Como quem por sua a tinha;
Porem mais chorava a mãe,
Que o coração lh’o dizia.
Deram á lingua as criadas,
Soube-se o que succedia:
A mãe com o filho nos braços
Cuidou morrer de alegria.
Não são passadas tres horas,
Uma á outra se dizia:
«Quem se vira em Portugal,
Terra que Deos bemdizia!
Juntaram muita riqueza
D’ouro e de pedraria;
Uma noite abençoada
Fugiram da moiraria.
Foram ter á sua terra,
Terra de Santa Maria,
Metteram-se n’um mosteiro,
Ambas professam n’um dia.
39
Romance da Moira Encantada
(Versão do Algarve)
Meia noite alem ressôa
Cerca das ribas do mar,
Meia noite já é dada,
E o povo ainda a folgar.
Em meio de tal folguedo
Todos quédam sem falar,
Olhos voltam ao castello
Para ver, para avistar
A linda moira encantada,
Que era triste a suspirar.
—Quem se atreve, ai quem se atreve
Ir ao castello e trepar,
Para vencer lo encanto
Que tanto sabe encantar?
Ninguem ha que a tal se atreva,
Não ha que em moiras fiar;
Quem lá fosse a taes deshoras
Para só desencantar,
Grande risco assim corrêra
De não mais de lá voltar.
—Ai que linda formosura,
Quem a pudera salvar!
O alvor dos seus vestidos
Tem mais brilho que o luar!
Doces, tão doces suspiros,
Onde ouvil-os suspirar?
Assim um bom cavalleiro
Se estava a delatar,
Em amor lhe ardia o peito,
Em desejos seu olhar.
Tres horas eram passadas
N’este continuo anciar,
Cavalleiro d’armas brancas
Nunca soube arreceiar,
Invoca a linda moirinha,
Mas não ouve o seu falar;
Nada importa a Dom Ramiro
Mais que a moira conquistar.
Vae subir por muro acima,
Sente os pés a resvalar!
Ai que era passada a hora
De a poder desencantar.
Já la vinha a estrella d’alva
Com seus brilhos a raiar.
No mais alto do castello
Já mal se via alvejar
A fina e branca roupagem
Da linda filha de Agar.
Ao romper do claro dia,
Para bem mais se pasmar,
Sahiu do castello uma nuvem,
Era apenas a pairar.
Jurava o povo, jurava
E teimava em affirmar,
Que dentro d’aquella nuvem
Vira a donzellinha entrar.
Dom Ramiro de enraivado
De não poder-lhe chegar,
D’ali parte e contra os mouros
Grande briga vae armar,
Por fim ganha um bom castello,
Mas sem moira para amar.
40
Romance de Nossa Senhora dos Martyres
(Versão do Algarve)
Candida Virgem dos Martyres,
Formosa Virgem Maria;
Estrella do céo fulgente
Clara luz do claro dia,
Contar todos seus milagres
Quem contal-os poderia?
De todos o mais patente
Acha-se ahi n’essa villa
De Castro-Marim chamada,
Que já foi da mouraria.
É este santo milagre
De tal poder e valia,
Que em Portugal e Castella,
E mais ainda em Barberia,
A quantos bem o conhecem
Faz espanto e maravilha:
Era um christão que passava
Negra vida que tenia
Debaixo de duros ferros.
Lá para as bandas de Arzilla
Cativeiro mais penoso
Outro christão não havia.
O perro mouro infiel,
Que o comprara em Almeria,
Por seguro se não dava
De que lhe não fugiria.
Sempre o maldito do perro,
Que receioso vivia,
Maltratar o pobre escravo
Com ferrenha mão sohia.
Já invenção lhe faltava
De como elle o guardaria;
Mandou fazer um caixão
Muito forte em demasia,
E n’elle sem mais detença
O triste christão mettia;
Mas por certo inda o não dava
Apesar do que fazia;
Aquella mente maldita
Em mil receios ardia.
Nova ideia de tormento
Alma lhe enche de alegria;
Com uma grossa corrente
De pés e mãos o prendia,
E ainda sobre o caixão
O indino perro dormia!
Negro pão e agua turva
Era o manjar que tenia;
Mas uma ardente esperança
Que na Virgem Santa havia,
Vida nova lhe apontava
Sobre a que já lhe fugia.
A Virgem Mãe soberana
Invocava noite e dia
Para que lhe désse n’alma
Vigor que se lhe extinguia,
E de todo o livrasse
De tão dura escravaria.
A Santa Virgem dos Martyres,
Que todo o seu rogo ouvia,
D’aquelle espirito afflicto
Muito bem se condoía;
O caixão, que em terra estava,
Cercado d’agua se via,
E com o perro do mouro
Que em cima d’elle dormia,
Á tona d’agua boiando
Tres dias assim corria.
Já despontava a manhã,
A manhã de um claro dia;
Novas areas se mostram,
Outras céos, outra alegria!
Da torre o gallo tres vezes
Este milagre annuncia;
Os sinos do campanario
Repicavam á porfia
Sem que ninguem os tangesse,
Porque tudo inda dormia.
O ladrar de muitas cães,
Em todo o mar percutia.
Quando o perro ouviu os sinos
Sobre tudo se doria,
Que junto de terra extranha,
Terra que não conhecia,
Por sua desaventura
Com seu escravo se via!
Encalhado em fina areia
O mesmo caixão se abria,
Com rosto mais que magoado
O mouro ao escravo dizia:
—Christão, que paiz é este
De tão alta senhoria?
Na tua terra, christão,
Cantam gallos á porfia,
Tocam sinos, ladram cães
Logo ao despontar do dia?
—Esta terra sei que é minha.
Mas eu não a conhecia;
Na minha terra, senhor,
Cantam gallos á porfia,
Ladram cães, repicam sinos
Logo ao despontar do dia.
Assombrado o sarraceno
Do que do christão ouvia,
Sem mais pergunta fazer-lhe
Da corrente o desprendia.
—Ergue-te, christão, perdoa-me
Todo o mal que eu te fazia;
Até hoje eras meu escravo,
Teu escravo sou n’este dia!
Para vêr este milagre
Toda a gente ali corria:
Com seus gibões encarnados
Os da justiça assistiam.
Já todos vão, já se partem,
Caminho da santa ermida;
O mouro com viva crença
O baptismo requeria.
Eis que aos pés da Virgem Santa
D’agua uma fonte se abria,
Tão crystallina e tão pura,
Que a todos pasmar fazia.
Com esta agua bemdita,
Agua de tanta valia,
Foi logo ali baptisado
O mouro da Barbaria.
Baptisado o agareno,
Ao pé da fresca fontinha
Se formára um lindo mar
D’aquella agua que corria.
E para maior milagre:
Ao cabo de sete dias
Mesmo no meio das aguas
Um verde freixo nascia,
Que o que mais maravilhava.
Era o vêr como crescia!
Desde então ficou a Virgem
Tendo grande romaria;
De Portugal e Castela
Tudo ali corre em seu dia,
41
Romances do Cativo de Argel
(Lição manuscripta do seculo XVII)
—Mi madre era de Hamburgo,
Mi padre de l’Antequera,
No hubo perro, ni mouro
Que por mim ni blanca dera;
Si no um perro Judio
Que alcançar-me não debera.
Daba-me una vida mala,
Daba-me una vida perra,
De dia a moêr esparto,
De noche a pizar canella,
Com uma mordaça na bocca
Para lhe não comer d’ella.
Quiz Deos e Santa Maria
Dar-me uma Ama tam bella;
Quando perro ia a caçar
Cataba-me na cabeza.
Daba-me a comer pan blanco
Del que El-Rey Moro comia,
Daba-me a beber bon vino
Del que El-Rey Moro bebia.
Muitas vezes me decia:
«Christiano, vae p’ra tu tierra.
—Como me heide ir, mi señora,
Dexar una Ama tam bella!
«Mais vale tu liberdade,
Que amores em terra alheia.
—Como me heide ir, mi señora,
Se me falta la moneda?
«Mete a mão en tu faltriquera,
Docientos dobrões te dera,
Cento para teu resgate,
Cento para tua terra.
—«Vem ali, oh Christiano,
Quem te dió tanta moneda?
—Fue un vecino mio
Venido de minha tierra.
—«Queres tu, oh Christiano,
Seres Mouro arrenegado?
Dera-te os mais lindos olhos
Que em Argel foram criados.
—Como me tornarei Mouro,
E Mouro arrenegado,
Se eu já tenho em mi pecho
A Jesus crucificado?
—«Se eu soubera, Christiano,
Que eras assim avisado,
Em dias de tua vida
Nunca fôras resgatado.
«Oh, mi padre, oh mi padre,
Dexe ir el Christiano,
Que el no me deve nada,
Debe-me a flor de mi bocca,
Dou-lh’a por bem empregada.
42
O Cativo
(Variante de Lisboa)
—Eu vinha do mar de Hamburgo
N’uma linda Caravella;
Cativaram-nos os mouros
Entre la paz e la guerra.
Para vender me levaram
A Salé, que é sua terra,
Não houve mouro, nem moira
Que por mim nem blanca dera;
Só houve um perro judio
Que alí comprar-me quizera.
Dava-me uma negra vida,
Dava-me uma vida perra:
De dia pisar esparto,
De noite moêr canella,
E uma mordaça na bocca
Para lhe não comer d’ella.
Mas foi a minha fortuna
Dar com uma patrôa bella,
Que me dava do pão alvo,
Do pão que comia ella.
Dava-me do que eu queria,
E mais do que eu não quizera,
Que nos braços da judia
Chorava, que não por ella.
Dizia-me então: «Não chores,
Christão, vae á tua terra.
—Como me heide eu ir, senhora,
Se me falta la moeda?
Se fôra por um cavallo
Eu uma egua te dera,
Se fosse por um navio
Dar-te-hia uma galera.
—Não fôra por um cavallo,
Não fôra, senhora bella,
Que está longe Mazagão,
Ceuta tem voz de Castella.
Nem por navio não fôra,
Que eu fugir não quizera,
Que era roubar a teu pae
Dinheiro que por mim dera.
«Toma esta bolsa, christão,
Feita de seda amarella;
Minha mãe quando morreu
Me deixou senhora d’ella.
Vae-te, paga o teu resgate,
E ás damas da tua terra.
Dirás o amor da judia
Quanto vale mais que o d’ellas.
Palavras não era ditas
O patrão que era chegado:
—Venhaes embora, patrão,
E vinde com Deos louvado,
Que agora recado tenho
De que chega o meu resgate.
—«Christão, christão, que disseste!
Olha que é muito cruzado!
Quem te deu tanto dinheiro
Para seres resgatado?
—Duas irmãs m’o ganharam,
Outra m’o tinha guardado;
E um anjo do céo m’o trouxe,
Um anjo por Deos mandado.
—«Dize-me, oh christão, dize
Se queres ser renegado?
Que te heide fazer mouro,
Senhor de todo o meu estado.
—Eu não quero ser judio,
E nem turco arrenegado,
E não quero ser senhor
De todo esse teu estado,
Porque trago no meu peito
A Jesus crucificado.
—«Anda cá, oh filha Angelica,
Dize-me cá, filha amada,
Se é pelo christão maldicto
Que ficaste desgraçada?
«Meu pae, deixe o christão, deixe
Que elle não me deve nada;
Deve-me a flor de meu corpo,
Mas de vontade foi dada.
Mandou fazer uma torre
De pedraria lavrada;
Que não dissessem os mouros:
A judia é deshonrada.
«Viola, minha viola,
Fica-te aqui pendurada;
Que os amores da Judia
Vão por essa agua salgada.