V—LENDAS PIEDOSAS
43
Jesus Mendigo
(Versão do Minho e Beira Baixa)
Indo um lavrador p’ra arada
Ai Jesus!
Encontrou um pobresinho,
Ai Jesus!
E o pobresinho lhe disse:
Ai Jesus!
Leva-me n’esse carrinho.
Ai Jesus!
Levantou-se o lavrador
Ai Jesus!
A pôr o pobre no carro,
Ai Jesus!
Levou-o p’ra sua casa
Ai Jesus!
Para a melhor sala que tinha;
Ai Jesus!
Mandou-lhe fazer a cêa
Ai Jesus!
Do melhor manjar que havia,
Ai Jesus!
E depois da meza posta
Ai Jesus!
O pobre nada comia.
Ai Jesus!
Mandou-lhe fazer a cama
Ai Jesus!
Da melhor roupa que tinha,
Ai Jesus!
Por baixo damasco roxo,
Ai Jesus!
Por cima cambraia fina.
Ai Jesus!
Era meia noite em ponto,
Ai Jesus!
O pobresinho gemia.
Ai Jesus!
Levantou-se o lavrador
Ai Jesus!
A vêr o que o pobre tinha;
Ai Jesus!
Achou-o crucificado
Ai Jesus!
N’uma cruz de prata fina.
Ai Jesus!
—Meu Senhor, quem tal soubera
Ai Jesus!
Que em minha casa vos tinha,
Ai Jesus!
Mandava fazer preparos
Ai Jesus!
Que a minha casa não tinha.
Ai Jesus!
«Cala-te, oh lavrador,
Ai Jesus!
Não te enchas de phantasia,
Ai Jesus!
No céo te tinha guardado
Ai Jesus!
Cadeira de prata fina:
Ai Jesus!
Outra p’ra tua mulher.
Ai Jesus!
Que tambem a merecia.
Amen Jesus!
44
Romance de Santo Antonio e a Princeza
(Versão do Algarve)
Achava-se em Realmonte
Com sua côrte real,
Casada uma princeza,
Princeza de Portugal.
De Antonio, santo varão,
Do seu paiz natural,
Devota a princesa era,
Por crença a mais singular;
Filha infante ella tinha
Mais formosa que o luar;
Mas a infante era um anjo,
E ao céo se foi parar.
Toda a côrte lá se ajunta
Para lhe o corpo levar;
Mas não consente a princeza
Que o levem a soterrar.
Tres dias eram passados
E ainda por sepultar;
A mãe em continuo pranto,
Mas a filha a regelar;
Sómente ella não chorava,
Que estava a bom resar
Ao santo varão Antonio
Que tanto soubera amar;
A infante encommendava
Para lhe a resuscitar;
Com grande fé verdadeira
Assim começa a orar:
—«Santo que sois de mi terra
Onde não ha outro igual,
Que por todo o mundo andavas
Noite e dia a milagrar!
A esta vossa devota
Vinde por Deos escutar;
Aquella que vêdes morta
Mandae-a resuscitar,
Mais sete dias de vida
Depois fazei-a expirar:
Afugentai-me esta ausencia,
Que a não posso supportar:
Inda a oração era em meio
Já no céo ia a entrar:
—Sete dias tens de vida
Podes á terra voltar.—
Disse Deos e santo padre,
A vida lhe foi a dar.
Do atahude se erguera
A infante de Portugal,
E com divinal semblante
Á princeza foi falar:
«Senhora mãe que choraes,
Onde me quereis guardar?
Aqui me tendes na terra
Onde já não sei estar.
D’entre as virgens me arrancastes,
Sem saber, por meu pesar;
Deixae-me, senhora mãe,
Que eu no céo tenho um altar;
Eu apenas vim ao mundo
Para vos vir consolar.
Prometteis, senhora mãe,
De não mais por mim chorar?
—«Assim o prometto, oh filha,
Podes para Deos voltar:
Ora por mim tu que és anjo,
E que no céo tens altar.
Os sete dias findavam
Ao nascer de o luar,
A alma da bella infante
Para o céo se viu voar;
O corpo que era de terra,
Á terra o foram levar.
Toda a côrte se espantava
De não ver a mãe chorar.
45
Romances de Iria a Fidalga
(Versão de Santarem)
«Estando eu á janella co’a minha almofada,
Minha agulha d’ouro, meu dedal de prata,
Passa um cavalleiro, pedia pousada:
Meu pae lh’a negou: quanto me custava!
Já vem vindo a noite, é tam só a estrada...
Senhor pae não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousada
Se fecha esta porta á noite cerrada.
Roguei e pedi, muito lhe pezava!
Mas eu tanto fiz, que por fim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
Pus-lhe uma toalha, n’ella se limpava.
Poucas as palavras, que mal me falava,
Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui erguer os olhos, mal os levantava,
Os seus olhos lindos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cêa, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, n’ella se deitava.
Dei-lhe as boas noites, não mo replicava;
Tam má cortezia nunca a vi usada!
Lá por meia noite, que me eu suffocava,
Sinto que me levam com a bocca tapada....
Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre á desfillada.
Sem abrir os olhos vi quem me roubava;
Calei-me e chorei, elle não falava.
D’ali muito longe, que me perguntava:
Eu na minha terra como me chamava.
Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria a cansada.
Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me attentava....
Horas esquecidas que por mim luctava;
Nem força, nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange... ali me matava,
Abriu uma cova onde me enterrava.
No fim de sette annos passa o cavalleiro,
Uma linda ermida viu n’aquelle outeiro.
—Minha santa Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares serei teu romeiro.
«Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
Que me degollaste que nem um cordeiro.
46
Santa Iria
(Variante da Covilhã)
«Estando eu a coser na minha almofada,
Com agulha de ouro e dedal de prata,
Veio o cavalleiro pedindo pousada,
Se lh’a meu pae dera, estava bem dada.
Deu-lh’a minha mãe, que mui me custava,
Fui fazer a cama no meio da sala.
Era meia noite, a casa roubada,
De tres que nós éramos só a mim levava.
Eram sete leguas, nem fala me dava,
Lá para as oito é que me perguntava:
—Lá na tua terra como te chamavam?
«Lá na minha terra era eu morgada,
Cá n’estas montanhas serei desgraçada.
—Por essa palavra serás degollada.
Ao pé de um penedo serás enterrada,
Coberta de rama bem enramalhada.
No fim de sette annos por ali passava,
E a todos que via lhe perguntava:
—Dizei-me, pastores que guardaes o gado,
Que ermida é aquella que alem branquejava?
—É de Santa Iria bemaventurada,
Que ao pé de um penedo morreu degollada.
—Oh minha santa Iria, meu amor primeiro,
Perdoa-me a morte, serei teu romeiro.
«Não te perdôo, ladrão carniceiro,
Que me degollaste, que nem um carneiro.
Veste-te de azul, que é a cor do céo,
Se elle te perdoar, perdoar-te quero.
47
Santa Helena
(Variante do Minho)
’Stando santa Helena
Á porta assentada,
Cosendo mui linda
Na sua almofada,
Sua agulha de ouro,
Seu dedal de prata,
Veio um cavalleiro
Pediu-lhe pousada.
«Se meu pae lh’a dera
Está mui bem dada.
Entrou para dentro,
Logo se assentou;
Fizeram-lhe a ceia,
Elle não ceiou;
Fizeram-lhe a cama,
Então se deitou.
Lá por meia noite
Se alevantou;
De tres irmãs que eram
Só n’ella pegou.
Levou-a p’r’o monte
E lhe perguntou:
Como lhe chamavam
E como a tratavam
.................
«Em caz’ do meu pae
Helena fidalga,
Agora na tua
Serei desgraçada.
Puchou pelo alfange
E logo a matou,
Cobriu-a de ramos,
Ali a deixou.
Findos sette annos
Por ali tornou:
—Pastorinhos novos,
Que guardaes o gado,
Que ermida é aquella
Que está n’aquelle adro?
—É de Santa Helena,
Morreu degollada.
—Minha santa Helena,
Meu amor primeiro,
Perdoa-me a morte,
Serei teu romeiro.
48
Romance da Devota da Ermida
(Versão de Trás-os-Montes)
No alto d’aquella serra
Está uma bella ermida;
Uma devota está ’nella,
Serva da Virgem Maria.
Uma visinha da porta
Mau testimunho lhe erguia:
Ella que andava d’amores
Com um sacerdote de missa!
Sacerdote se agastava,
E ella pena não tinha.
Veio o marido de fóra:
«Boa seja a vossa vinda,
Que vos quero perguntar
Que vae lá por essa villa.
—Que te confesses, traidora,
Que te vou tirar a vida.
«Quer m’a tires, quer m’a deixes,
Eu confessar-me queria.
Marido, se me matares,
Enterra-me na Ermida
Aos pés de Nossa Senhora,
Aos pés da Virgem Maria.
Prenhadinha de oito mezes
Para os nove corria;
No cabo dos nove mezes
Um lindo cantar se ouvia.
Abriram a sepultura
Onde a encontraram parida,
Com uma menina nos braços,
Que se chamava Maria.
—Perdoa-me, oh Mariquinhas!
Perdoa-me, oh mulher minha!
«Como te heide eu perdoar
Se a tua alma está perdida?
A minha está na gloria
Dos anjos bem assistida.
49
Oração do Dia de Juizo
(Versão do Minho)
Por aquella noite escura
Morreu uma criatura,
Com grande arrependimento,
Sem receber sacramento!
Suas culpas e peccados
Foram á face de Christo.
—Oh meu senhor Jesus Christo,
Aqui visitar-vos venho;
Sou a alma mais perdida
Que tem o vosso rebanho.
«Escuta, oh alma zellosa,
Que primeiro te escutei;
Ensinei-te a benzer,
Não quizestes aprender.
Lá te deixei meus jejuns,
Sempre passaste comendo.
Lá te deixei meu Calvario,
Sempre passaste correndo.
—«Oh meu filho tão amado,
Oh meu filho tão querido!
Filho, salva-me aquella alma,
Pois que se me vae perdendo.
«Pois a minha Mãe o manda
Faço o seu mando correndo:
Sam Miguel pesae as almas,
Ponde pesos na balança.
Os peccados eram tantos,
Foram com elles ao chão!
Pôz Nossa Senhora o manto,
Ficaram pesos suspensos:
Com a graça de Maria
Ficou a alminha contente!
Quem esta oração disser
Um anno continuamente,
Terá por certo viver
Lá no céo eternamente.
Quem a sabe e não a diz,
Quem a ouve e não a aprende,
Lá no Dia do Juizo
Saberá o bem que perde.
50
Romance do Terremoto de Villa Franca do Campo
(Lição de Gaspar Fructuoso)
Em villa Franca do Campo,
Que de nobre precedia
Na Ilha de Sam Miguel
A quantas villas havia,
Era de mil e quinhentos
E vinte e dois que corria,
Vinte e dois dias d’outubro,
Quarto da lua seria;
Correu a terra de um monte
Que da alta serra pendia,
E com ímpeto furioso
Sobre a villa se estendia.
Alí começa a dar gritos
A gente que se affligia;
D’elles chamavam por Deos,
D’elles por Santa Maria.
Quando chegou a manhã
Nenhum d’elles perecia;
Todos cobertos de terra,
E de grande penedia,
Que correu d’aquella serra,
Que sobre a villa jazia.
Essa gente que escapara,
Como pasmada morria.
Outra que viva ficava,
Vivendo assi, não vivia.
Aqui chega Frei Affonso,
E com a tocha que trazia
Da Ordem de Sam Domingos
De Toledo reluzia,
Esse Padre glorioso
Que da gloria parecia.
Para consolar o povo,
Assi falava e dizia:
—Confessae-vos, irmãos meus,
Em quanto vos tem o dia.
Resae todos o rosario
Da Virgem Santa Maria,
Edificae-lhe uma Casa,
Indo a ella em romaria.
Tomae-a por valedora,
Que ella por vós rogaria,
Tende n’ella confiança,
Que certo vos valeria.
Não acaba de falar,
Quando a casa se fazia,
Uns acarretando pedra,
Outros madeira á porfia.
Trabalham moços e velhos,
Pessoas de grão valia;
Até as nobres mulheres
Serviam sem fantazia.
Trazem telhas e telhados,
Que no arrabalde havia,
Como formigas ligeiras
Andam a quem mais faria.
Tanto que em poucos dias,
A Ermida já servia,
Já celebram missa n’ella,
Já lá vão em romaria.