VI—XACARAS E COPLAS DE BURLAS
51
Xacara da Linda Pastorinha
(Versão da Beira-Baixa)
—Deos te salve, Rosa,
Lindo seraphim!
Linda pastorinha
Que fazeis aqui?
Que fazeis pastora
Por essa ribeira?
Tirae-vos ao sol,
Do sol que vos queima.
«O sol não me queima,
Que estou calejada
Do rigor da chuva,
Do rigor da calma.
—Tão gentil senhora
A guardar o gado,
Ao longo do rio
Tão bem repastado.
«Criado tão nobre
Com meias de seda!
Olhe não as rompa
Por essa resteva.
—Sapatos e meias
Tudo romperei,
Pela pastorinha
Tudo eu farei.
«Por altas montanhas
Ouço gritar gado;
São as ovelhinhas
Que me tem faltado.
—Dê-me cá a cesta,
Tambem o cajado,
Que eu lh’as vou buscar
Com todo o cuidado.
«Vá-se embora, homem,
Não me dê tormento;
Não o posso vêr
Nem por pensamento.
—O que está de ingrata,
Tão impertinente!
Homens não são lobos
Que comam a gente.
«Eu se sou ingrata
Faço muito bem;
Quero ser ingrata,
Assim me convem.
—O teu gado, Rosa,
Eu aqui t’o trago:
Um formoso moço
Para teu criado.
Não tenha esse medo
Que o gado se perca,
Por aqui passarmos
Uma hora de sésta.
«Vá-se d’aí, negro,
Não me dê mais pena;
Que aí vem meus amos
Trazer-me a merenda.
—Isso é que eu quero
Que venham seus amos;
Quero que elles saibam
Que falamos ambos.
«Tal razão como essa
Não a ouvirei;
Já dirão meus amos
Que de mais tardei.
—Diga-lhe, menina,
Que se demorou
Com esta nuvem d’agua
Que tudo molhou.
«Va-se d’aí, homem,
Não me dê tormento;
Não o quero vêr
Nem por pensamento.
—Que tem a menina
Que está agastada?
No meu coração
Trago-a retratada.
Uma vez que quer
Que me vá embora,
Lá verá o gado
Que vae serra fóra.
«Se vae serra fóra
Pois deixal-o ir;
Se o não matarem
Tornará a vir.
—Por altas montanhas
Corre grande p’rigo;
Oh linda pastora
Queira vir commigo.
«Não é de homem nobre
O dar tal conselho,
Pois quer que se perca
O gado alheio.
—O gado alheio
Não quero se perca;
Quero que tenhamos
Uma hora de sésta.
«Guardemos a sésta
Lá para depois;
Eu quero saber
Quem é que vós sois.
—Sou filho da côrte,
Assisto em palacio;
Linda pastorinha
Dae-me um abraço.
Já me vou embora
Pela serra acima,
Linda, pastorida
Dae-me a despedida.
«Venha cá, oh homem,
Venha aqui correndo;
O amor é cego,
Já me vae rendendo.
—Se você me chama
Eu me vou andando,
Que a aposta que fiz
Já a vou ganhando.
«Bem sei o que queres,
Queres um abraço;
O abraço se o deres
Dá bem apertado.
O abraço se o deres
Dá-m’o apertado,
Para apagar penas
Que commigo trago.
—O abraço que der
Não tem má tenção,
Cala-te lá, Rosa,
Que sou teu irmão.
Quer ella a menina
Que demos um brado
Á gente do povo
Que accudam ao gado?
«Oh gente do povo
Accudi ao gado,
Que foge a pastora
Com o seu namorado!
Eu quero fugir,
Que é ventura minha;
Depois de pastora
Irei ser rainha.
-Se a pastora foge,
Deixal-a fugir,
Nem cravos, nem rosas
Lhe hão de accudir.
Digo-te a verdade,
Do meu coração:
Não sou teu esposo,
Mas sou teu irmão.
Digo-te a verdade,
Oh meu camarada;
A aposta que fiz
Já cá vae ganhada.
52
Xacaras dos Conversados
(Versão de Coimbra)
Fui indo áquella casa
Com pequena confiança,
Com o sentido apurado,
Já com a minha lembrança.
Fui indo ali aos domingos
E dias santos do anno;
Procurando a certeza,
Ou então o desengano.
Já n’isso lhe ia tocando
Cora boa sinceridade;
Para vêr se ella me tinha
Parte de alguma amisade:
—Oh que estado tão bonito
De solteiro bem logrado;
Mas pretendo a menina
Se quizer mudar de estado.
«A resposta ao seu recado
Eu lh’a darei quando fôr,
Eu não lhe dou a certeza
Sem sabêr seu interior.
—P’ra saber meu interior
Quinze dias lhe heide dar;
Bem pode tirar inculcas
Para se certificar;
«Vá indo e vá voltando,
A resposta eu lh’a darei;
Se você me fôr leal,
Eu sempre firme serei.
—Que palavrinhas tão doces,
Com ellas me consolou;
Se você jura ser firme,
Eu tambem leal lhe sou.
«Sou a mesma que aqui estou,
E lhe torno a affirmar,
Se você de mim pretende
Trate de a meu pae falar.
—Se essa é a sua duvida
Eu já d’ella a vou tirar,
Falando eu a seu pae
Quero com você casar.
«Commigo pode contar,
A certeza eu lh’a darei;
Se meu pae lhe der o sim,
Eu sempre firme serei.
—Eu já com seu pae falei,
Elle me disse prudente:
Se você quizer ser minha,
Da sua parte é contente.
«Não o diga a muita gente
Por murmuração não dar;
Que isto anda em segredo
Em quanto se não falar.
—Quero recommendar
Algumas recommendações,
Temos tratado de tudo
Faltam agora os pregões.
«São boas recommendações
Com que se deve importar,
Tratemos de os fazer
E na egreja os ir prantar.
—Já os banhos são corridos,
Estamos apregoados;
Vamos agora tratar
Do dia d’este noivado.
«E bem dado esse recado,
Commigo pode contar,
Espere mais algum tempo
P’ra me poder arranjar.
—Ora vâmos lá com isso,
Deos lhe a saude conserve,
Eu tenho casa e vida,
Não tenho quem m’a governe.
«Se não tem quem lh’a governe
Já não é por muito tempo;
É emquanto não arranjo
O fato do casamento.
Eu com isso fui contando,
Ella ficou descansada;
Estando na fonte um dia
Pedi-lhe um pucaro de agua:
—Que pucaro tão formoso,
Que agua tão saborosa!
Tomára ser seu esposo
P’ra você ser minha rosa.
«Se essa agua é gostosa
E gosto que Deos lhe deu;
Sendo você meu esposo
Já sua rosa sou eu.
53
A Conversada da Fonte
(Versão de Penafiel e Coimbra)
—Entre canas e canaes
Agua deve de nascer;
Menina que estaes na fonte
Dê-me agua, quero beber.
«Por um pucarinho novo
E rodeado de flores,
Quem me fôra tão ditosa
Que désse agua aos meus amores.
Que désse agua aos meus amores
Mais á Senhora da Guia;
Diga-me, senhor manata,
Se vem por alguma via.
—A via por que aqui venho
Eu lhe digo na verdade,
Venho por passar o tempo
Que é cousa da mocidade.
«Essa sua mocidade
Já me vieram dizer,
Que a sua sabedoria
Se occupava em saber ler.
—Não sei ler, nem escrever,
Nem tambem tocar viola;
Eu desejava aprender
Na sua real eschola.
«Na minha real eschola
Você não hade aprender,
Andam mestres mais bonitos
Desejosos de saber.
—Oh minha gaia menina,
Que tão forte me falaes,
Se até aqui mui vos queria,
Agora vos quero mais.
«Ainda mais vos quero eu
Da raiz do coração;
Mas tambem comtudo isso
Não haveis de pôr a mão.
—Oh que lindas, oh que lindas,
Pois ellas assim serão?
Dá-me licença, menina,
Para vêr como ellas são?
«A licença vós a tendes,
Mas por ora ainda não;
Não haveis de ser o gabo
Que lhe haveis de pôr a mão.
—Eu a mão não vol-a ponho,
Nem menos bulo comvosco;
Só de estar ao pé de ti
D’isso faço muito gosto.
«Tendes gosto desgostae,
Que não é por via vossa;
Esta rosa que aqui vêdes
Já é d’outro, não é vossa.
—Se ella é d’outro e não é minha,
Inda o póde vir a ser;
Menina, diga a seu pae
Que nos mande arreceber.
«Isso não lhe digo eu,
São palavras escusadas,
Que eu sou rapariga nova
Para ir governar casas.
—Outras de menor edade
São casadas, tem marido,
Assim serás tu, oh Rosa,
Quando casares commigo.
Casarei, não casarei
Quando vier outra vez;
Diga, menina, a seu pae
Que elle tambem assim fez.
«O recado está dado,
Vós, magano, vós o déstes;
Se já sabeis o caminho
Tornae por onde viestes.
—O caminho bem o sei,
Por elle heide de tornar,
Se vós me deres a prenda
Que eu aqui venho buscar.
«Eu a prenda não a dou,
Que a tenho na janella,
Para dar ao meu amor,
Que faz grande gosto d’ella.»
54
Os estudos de Coimbra
(Versão de Penafiel)
—Os estudos de Coimbra
Para te amar aprendi;
Com penas e saudades
Uma carta te escrevi.
«Com penas e saudades
O meu coração chorou;
A carta que me escreveste
Ainda cá não chegou.
—Antoninha, cara linda,
Eu queriate falar;
A vergonha me retira,
O amor me faz chegar.
«Eu falar-te, falaria
De todo o meu coração;
Quem me dera adivinhar
Qual era a tua tenção.
—A minha tenção é boa,
Mas é só para comtigo;
Se eu saír d’esta terra
Heide-te levar commigo.
«Eu comtigo não iria,
Que diria a minha gente?
Que ficava d’esta terra
Desterrada para sempre.
—Oh menina não se assuste,
Não é caso de assustar;
Se eu em fama te meter,
Da fama te heide livrar.
«Eu a fama não a tenho,
Mas ella me póde vir;
Fale baixo, não acorde
Meu pae, que está a dormir.
—Teu pae, que está a dormir,
Está em somno socegado;
Dize-me, oh minha menina,
Se eu serei do teu agrado?
«Oh do meu agrado é,
Que mais o não pode ser;
Ausente da tua vista
Melhor me fôra morrer.
55
Xacara do Cego andante
(Versão da Beira-Baixa)
—Abre a porta, Anna,
Abre o teu postigo;
Dá-me um lenço, amor,
Que venho ferido.
«Se vindes ferido,
Vinde muito embora;
Porque a minha porta
Não se abre agora.
—Abri-me vós a porta,
Ao menos o postigo;
Venham dar esmola
Ao pobre ceguinho.
«Acorde, minha mãe,
Acorde de dormir;
Ande ouvir o cego
Cantar e pedir.
—«Se elle canta e pede,
Dá-lhe pão e vinho;
E o pobre do cego
Que vá a seu caminho.
—Não quero o seu pão,
Não quero o seu vinho,
Só quero que a menina
Me ensine o caminho.
—«Péga, minha filha,
Na tua roca e linho,
Vae ao triste cego
Ensinar o caminho.
«Espiou-se a roca,
Acabou-se o linho,
Agora adiante, cego,
Lá vae o caminho.
—Ande a menina
Mais até alem,
Que eu ainda sou cego
E não vejo bem.
Ande a menina
Mais um boccadinho;
Ande mais até
Áquelle verde espinho.
Ande a menina
Por este carreiro;
Ando até áquelle
Verde centeio.
Ai, arreda, arreda
Para este altinho;
Que aí vem cavalleiros
Por esse caminho.
«Adeos, minhas casas,
Adeos minhas terras,
Adeos minha mãe,
Que tão falsa me eras;
De Condes e Duques
Me vi pretendida;
Agora de um cego
Me vejo vencida.
Que gente é aquella
De cavalleria?...
—Ai, arreda, arreda
Para este altinho.
Se vem cavalleiros,
Vem devagarinho,
Que ha muito me tardam
Por este caminho;
É a minha mãe
Mais sua madrinha,
Que a vem buscar
Para a terra minha.
56
Xacara da Moreninha
(Versão do Porto)
Frei João se levantou
N’uma bella madrugada,
Chega á porta da Morena.
Da Morena engraçada:
—Abre-me a porta, Morena,
Morena da minha alma.
«Comote heide abrir a porta,
Frei João da minha alma?
Tenho o menino nos braços
O meu marido á ilharga.
—«Com quem falas, mulher minha,
A quem dás as tuas falas?
«Falo com a padeirinha,
Se cozia ou se amassava;
Se cozia pão de trigo ’
Que lhe não botasse agua;
Se cozia pão de ló
Uma pinguinha bondava;
Levantae-vos, meu marido,
Levantae a vossa casa,
Mandae as moças á lenha,
E os criados buscar agua;
Que o melhor coelhinho
É o que sae de madrugada.»
Seu marido que saía,
Ella muito se aceiava;
Seu sapato de setim,
Que de polido estalava;
Sua mantinha de seda,
Que o ventinho levantava.
Chega á porta do Convento
Por Frei João perguntava;
Frei João que tal ouvia
Por vir a correr saltava,
Pegou-lhe pela mãosinha
E para a cella a levava;
Deu-lhe muito de comer,
Deu-lhe muita marmelada,
Deu-lhe um copinho de vinho
Do melhor que a Ordem dava:
—Fica-te embora, Morena,
Morena da minha alma,
Vou á Egreja de Sam Pedro
Dizer a missa cantada.
No meio do Evangelho
O calix cahiu da mão;
Acodiu o Provincial
E toda a Religião:
—O que é isto, meus peccados!
O que é isto, Frei João?
—São amores da Morena
Que trago no coração.
Moreninha que tal viu,
Saíu muito apaixonada,
Já no meio do caminho
Seu marido encontrava:
—«D’onde vindes, mulher minha?
Que vindes tão arreiada?
«Venho de fazer visitas
A quem veio á nossa casa.
-«D’onde vindes, mulher minha,
Que vindes tão insentada?
Ou tu me temes a morte,
Ou tu não és bem fadada!
«Eu a morte não a temo,
Pois d’ella heide morrer;
Temo só os meus meninos,
D’outra mãe podiam ser.
—«Confessa-te, mulher minha,
Faz acto de contrição,
Que te não tornas a vêr
Nos braços de Frei João.
57
Xacara do Soldado
(Versão de Trás-os-Montes)
Lá se vae o capitão
C’os seus soldados á guerra;
Duzentos eram quintados,
Eram duzentos de leva.
Se todos elles vão tristes,
Um mais que todos o era;
Baixa traz a sua espada,
Seus olhos postos em terra.
Lá no meio do caminho
O capitão lhe dissera:
—Porque vás triste, soldado,
Essa paixão por quem era?
«Não é por pae, nem por mãe,
Nem por irmão que eu tivera,
É pela esposa que deixo,
Lá tam só na minha terra.
Este cordão de ouro fino,
Que sete arrateis bem péza,
Mais me pesa a mim leval-o,
Que ao partir lh’o não dera.
—Soldado, tens sette dias
Para que voltes a vel-a.
Se a encontrares chorando,
Fica sete annos com ella:
Senão, nem mais uma hora
Terás de aguardo ou de espera.
Quem saltava de contente
O meu soldadito era;
Deixou estrada direita,
Por atalhos se mettera.
Inda não é meia noite
Á sua porta batera.
—«Quem bate á minha porta,
Quem bate com tanta pressa?
«É um soldado, senhora,
Que vos traz novas da guerra.
—Mal haja as novas que traz
E mais quem veio trazel-as!
Ergue-te tu, minha vida,
Assoma-te a essa janella;
Despede-me esse soldado,
Que a tam má hora aqui chega.
—Amigo, vindes errado
Co’as vossas novas da guerra;
Deixae-nos dormir em paz,
Que bem precisamos d’ella.
Foi-se d’ali o soldado
Mais prompto do que viera:
«Bem haja o meu capitão
Pelo bem que me fizera!
Com sette dias de aguardo....
Nem sette horas carecêra
Para me quitar saudades,
Livrar-me de toda a pena!
Tomae lá, meu capitão,
Os mimos da minha terra,
Este cordão de ouro fino,
Que agora inda mais me pésa;
Minha mulher não precisa,
Que os primos podem mantel-a.
—Pois tua mulher tem primos,
E tu vinhas com dó d’ella?
58
Xacara do Toureiro namorado
(Versão da Beira-Baixa)
Lá acima em Catalunha,
Junto ao pé de Sevilha,
Correm os moços um touro
Que admirar-se podia.
O touro era tam bravo,
Ninguem esperal-o queria!
Nomearam capitão
Um moço da mesma villa:
Calçava meia de seda,
Seu sapato de palmilha,
Com seu chapeo aprumado
Com tres plumas que tinha.
Volta pela rua abaixo,
Volta pela rua acima,
Ergueu os olhos ao céo
A vêr a hora que seria.
Vae da uma para as duas,
Já passava do meio dia.
—Alerta, álerta soldados,
Álerta, nobre companhia;
Deitem o touro cá fóra,
Que já passa do meio dia.
O touro era tam bravo,
Ninguem esperal-o queria!
Esperava-o aquelle moço
Para mostrar valentia.
Sette voltas deu ao curro,
Outras sette á mesma villa;
Metteu-lhe a chave direita
Entre a sóla e a palmilha.
Não lhe accudiu pae, nem mãe,
Nem irmã, que a não tinha;
Accudiu-lhe uma esposa
Pelo amor que lhe tinha,
Accudiu-lhe toda a gente
Pela lastima que via.
—Se eu morrer d’esta morte,
Como d’ella estou esperado,
Não me toquem a campana,
Nem me enterrem em sagrado,
Enterrem-me áquella quina
Aonde foi o namorado.
59
Xacara da Tecedeira
(Versão da Beira-Alta)
—Quero fazer uma aposta,
Ou eu não sei apostar:
De dormir com Mariana
Antes do gallo cantar.
«Tal cousa não faças, filho,
Que não a hasde ganhar;
Mariana é mui sisuda,
E não se deixa enganar.
Não quiz ali dizer nada,
Não quiz ali mais falar;
Vestiu traje de donzella,
Ao jardim foi passear,
«Quem é aquella donzella,
Que alem anda a passear?
—«É a tecedeira, senhora,
Que vem das praias do mar;
Tem a sua têa urdida
E a falta vem-na buscar.
«Essa falta eu a tenho,
Mas não a posso dobar.
—Dobe-a já, minha senhora,
Trate de a mandar dobar;
De noite pelo caminho
Donzellas não hãode andar.
«Para a honra da donzella
Aqui hade hoje poisar.
—Tendes criados tão moços,
Mui atrevidos no olhar!
«Para a honra da donzella
No meu quarto hade ficar.
A donzella de contente
Á noite não quiz cear,
Estava a cahir com somno
Que se quiz logo deitar.
Lá por essa noite adiante
Mariana de gritar!
—Cala-te, oh Mariana,
Não te queiras desgraçar;
Tinha a têa já urdida
A falta vim a buscar.
Aos sete para outo mezes,
Sem o teu pae reparar,
Quando te vires pejada
Eu comtigo heide casar.
60
Despedida de Lisboa
(Versão de Coimbra)
Dom João, que Deos guarde,
Aviso mandou ao mar,
Que se aparelhasse o Conde
Para uma manhã largar.
O Conde se aparelhou,
De uma maneira tão bella!
Era meia noite em ponto,
Deitou o tiro de leva.
Deitaram a lancha a terra
Para a maruja embarcar,
Uns abordo, outros na praia,
Outros na lancha a chorar.
Deitaram novos apitos
Encastoados em ouro;
Oh que bello commandante
Que leva o real thesouro!
Deitaram novos apitos
Encastoados em prata;
Oh que bello commandante
Que leva a real fragata!
Deitaram novos apitos
Encastoados em latão;
Oh que mestre e contra-mestre,
Tão malvado guardião.
Adeos oh Beato Antonio,
Melhor cousa de Lisboa!
Deos nos leve a salvamento
A esta coverta bôa.
Adeos oh Caes do Tejo,
Aonde está o cativo;
Eu me encommendo ao santo
Que me livre d’este perigo!
Adeos Fundição de cima
Do armamento d’el-rei;
Eu cá vou n’esta viagem,
Não sei quando tornarei.
Adeos oh venda do pezo,
Onde se vende o azeite;
Adeos Praça da Figueira,
Adeos saloias do leite.
Adeos oh caza da India,
Despacho do algodão;
Adeos oh caixões do assucar,
E os faiantes do torrão.
Adeos Terreiro do Paço,
Adeos do Paço terreiro;
Adeos memoria real
Que és de Dom José Primeiro.
Adeos tambem Arsenal
Onde se fazem navios,
Adeos escalér real,
És fama dos algarvios.
Adeos, adeos Corpo Santo,
Armazem dos pucarinhos,
Adeos oh moças bonitas,
Adeos quartilhos de vinho.
Adeos castellos e torres
Da cidade de Lisbôa;
Que eu cá vou n’esta viagem
Na Corveta Nova Gôa.
61
Á Freira arrependida
(Versão da Beira-Baixa)
Não sei para que nasci
De tão bello parecer;
Formosa e gentil mulher,
E tão bonita.
Metteram-me a capuchinha
Cá n’este pobre mosteiro,
Onde pago por inteiro
Meus peccados.
Nunca me faltam enfados
Em cuidar em tal clausura,
Pois se me faz noite escura
Ao meio dia.
Nunca terei alegria,
Nem no mundo a pode haver,
Em cuidar que heide comer
Em refeitorio.
Lá juncto ao dormitorio
Onde dormem as mais madres,
Suspiram por seculares
Cá entre nós.
Em vêr que dormimos sós
Me causa grande agonia,
Pois lá pela noite fria
Já me alevanto.
Agora faço o meu pranto,
Já me desvaneço em choro,
Em cuidar que heide ir ao côro
Rezar matinas.
Rezando as horas divinas,
Lá por esses corredores
Me lembram os meus amores,
Por quem morro.
Toda a minha cella corro,
Indo-me ver ao espelho;
Meu rosto já vejo velho,
Sem que eu queira.
E a abbadeça ligeira,
Como malvada leôa,
Manda que tanjam a Nôa
E a disciplina.
Triste, coitada, mofina,
Que estás mettida entre redes,
Entre tão fortes paredes,
Em casa escura.
A meu pae tórno a culpa.
E a meus irmãos tambem,
Podendo casar-me bem,
Me desterraram.
A meu pae aconselharam
Que me não désse o meu dote;
Porque era melhor sorte
O ser freira.
Avisaram a porteira,
Tambem a madre abbadeça,
Que me mettesse em cabeça
Que casaria.
Eu como menina cria,
Cuidando que era verdade,
Que qualquer freira ou frade
Casar podia.
Toda a gente me dizia
Que fosse sem arreceio;
Que havia aqui mais recreio,
Divertimento.
Agora que estou cá dentro,
Que ainda casar podia,
Eu vejo-me noite e dia
Aqui fechada.
Mais valêra ser casada,
De noite embalar meninos,
Do que andar a tocar sinos
No campanario.
Quando tudo é solitario
E estão todas a dormir,
Ainda estou a carpir
Mágoa tamanha.
Minha mãe, que Deos a tenha,
Deos lhe dê contentamento;
Deixou no seu testamento
Que me casassem.
E se bem não me esposassem,
Que me botem d’aqui fóra;
E da casa arrenegasse
Que não tem homem.