O bem sempre por mal, o mal por bem,
Por virtude o mor vicio, e por prudencia
O que menos o he, seguem, e crem.
Ao vaõ prodigo dam magnificencia,
Chamam o deshonesto, homem de damas,
E louvam, e ham iveja a incontinencia.
Aquelle, que tu bom, e prudente chamas,
Que lança suas contas bem lançadas,
E seu pouco falar, bom e raro amas,
Frio, e malecioso; e o de danadas
Entranhas, que c’um riso prazenteiro
Encobre suas peçonhas simuladas,
He só prudente, e canto: falso arteiro
O que conhece bem, e sabe facer
Differença do amigo ao lisongeiro.
Livr. I. Carta 5.

[124] As in the following lines:—

Apareça a Rezaõ fermosos e bella,
Criada em nossos peitos! Ah, que amores
Nos nasceram tam vivos logo dellos!
Cairan os perigos e os temores,
O campo livre, o ceo claro e sereno
Veremos sem trabalhos e sem dores.
Livr. I. Carta 7.

[125] For instance in an epistle to Andrade Caminha, which begins in the following manner:—

Deste meu peito saõ em teu saõ peito
Candidissimo Andrade, vaõ seguras
Minhas palavras chãs, meu nú conceito.
Ivos daqui fingidas, ivos duras
Linguas e condiçoes: pura clareza
Saya de claros peitos, e almas puras.
Riome, bom amigo, da estreiteza
D’alguns curtos amigos, e da ousada
D’outros livres errada, e vam largueza.
Seja a amizade facil, confiada
Doce, aprazivel, branda; mas honesta,
Mas de sam liberdade acompanhada.

[126] This is exemplified in the epistle to his tutor Diogo de Teive. It commences thus:—

Prometti-te, meu Teive, á tua partida
Mil prosas, e mil versos; e em mil mezes
Huma carta té outra teras lida.
Naõ sohiam mentir os Portuguezes.
Entrou novo costume, e he ley antiga
Romano en Roma, Francez cos Francezes.
Quem queres que por força cá naõ siga
A ley de terra? e mais tam bem guardada
Dos que em mal nosso tem a fortuna amiga?
Seja com tanto honrado desculpada
Minha mentira: a sam nossa amizade
Nunca esquecida foy, nunca mudada.
Mas entaõ chea, em tam grã Cidade,
Onde o sprito e a vista leva a gente,
Quem póde ser senhor da sua vontade?
Mora hum lá fóra alem do grã Vicente,
Outro cá na Esperanças e ey de vér ambos,
Foge inda o dia ao muito diligente.
Pelas ruas mil cambos, mil recambos,
Cargas vem, cargas vaõ, mil mós, mil traves,
Hum arranca, outra foge, e encontro entrãbos.
Livr. II. Carta 8.

[127] The following is one of the best.

Forjava em Lemno com destreza e arte
Setas a Amor de Venus o marido:
A branda Venus lhe poem mel d’huma parte,
Mas d’outra parte lhe poem fel Cupido.
Entrou brandindo o grossa lança Marte,
Rio-se das setas. Queres ser ferido
D’huma? (Amor diz) próva hora se te praz.
Ferio-o; rio-se Venus: Marte jaz.

[128]