[170] Can any thing more strongly resemble Petrarch, both in spirit and style than the following stanza? The whole cançaõ is, however, imitated from Bembo.
Hum naõ sei que suave respirando
Causava hum desusado, e novo espanto,
Que as cousas insensiveis o sentiam:
Porque as garrulas aves entretanto
Vozes desordenadas levantando
Como eu em meu desejo, se encendiam.
As fontes crystillinas naõ corriam,
Inflammadas na vista clara, e pura:
Florecia a verdura,
Que andando, co’os ditosos pès tocava:
As ramas se baixavam,
Ou de inveja das hervas que pizavam,
Ou porque tudo ante elles se baixava.
O ar, o vento, o dia,
De espiritos continuos influia.
[171] The following is a specimen of a lyric description of morning in a lover’s taste:—
Já a roxa manhãa clara
As portas do Oriente vinha abrindo,
Dos montes descobrindo
A negra escuridaõ da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
Da sua alegre vista saudoso,
Traz ella presuroso
Nos cavallos cansados do trabalho,
Que respiram nas hervas fresco orvalho,
Se estende claro, alegre, e luminoso.
Os passaros voando,
De raminho em raminho vaõ saltando;
E com suave, e doce melodia
O claro dia estaõ manifestando.
A manhãa bella, amena,
Seu rosto descobrindo, a espessura
Se cobre de verdura
Clara, suave, angelica, serena.
Oh deleitosa pena!
Oh effeito de amor alto, e potente!
Pois permitte, e consente,
Que ou donde quer que eu ande, ou donde esteja,
O seraphico gesto sempre veja,
Por quem de viver triste sou contentes,
Mas tu, Aurora pura,
De tanto bem dá graças à ventura,
Pois as foi pôr em ti taõ excellentes,
Que representes tanta formosura.
Detém hum pouco, Musa, o largo pranto
Que amor te abre do peito;
E vestida de rico, e lédo manto,
Demos honra, e respeito,
A’quella, cujo objeito
Todo o Mundo allumía,
Trocando a noite escura em claro dia.
O’Delia, que a pezar da nevoa grossa,
Co’os teus raios de prata,
A noite escura fazes que naõ possa
Encontrar o que trata,
Eo que na alma retrata
Amor por teu divino
Raio, porque endoudeço, e desatino.
Tu, que de formosissimas estrellas
Coròas, e rodêas
Tua candida fronte, e faces bellas;
E os campos formosêas
Co’as rosas que semêas,
Co’as boninas que gera
O teu celeste humor na Primavera.
Secreta noite, amiga, a que obedeço,
Estas rosas (por quanto
Meus queixumes me ouviste) te offereço,
E este fresco amaranto,
Humido inde do pranto
E lagrimas da esposa
Do cioso Titam, branca e formosa.
[174] The first of these elegies commences very much like versified prose, and in a manner which would scarcely induce the reader to suppose he was perusing even the opening of an epistle. The spirit of the composition does not begin to manifest itself until the sixteenth line:—
O Poeta Simonides fallando
Co’o Capitam Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando,
Hum’ arte singular lhe promettia,
Que entaõ compunha, com que lhe ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde taõ subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama, e gloria,
Quem dava regra contra o esquecimento
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitam claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia,
Do passado as lembranças, por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum’ arte, que em meus dias
Me naõ lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!