Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em{56} tudo o que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!

Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta e offegante não vê.

Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.

E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver celeste!

Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde nasceu essa creança—tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta—tu nasceste tambem: tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca divina.

E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.

E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije com ternura o{57} pimpolho fecundado no seu ventre e existir um infeliz; que chore uma lagrima!

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O dia de Natal amanhecera triste e soturno.

Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.