—Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.

O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da beata.

Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da mais revoltante hypocrisia:

—Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas.

O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:

—Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me restam sejam manchados{77} nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!

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—Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo dever de consciencia que acabava de cumprir.

—Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as lagrimas nos olhos.

—O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.