—Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.

—Já está mais que percebido.

—Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma certa amizade... um certo amôr... até que...

—Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...

Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia—ou talvez o dissesse instinctivamente!—a cathegoria do seu baixo mister.{102}

[XI]

Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.

Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das estrellas.

Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada da noite—eram nove e meia.

Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião—os nucleos da ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos que mais impressionaram a curiosidade publica.