Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.{103}
A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.
Em seguida um outro vulto—o vulto d'um homem encapotado—se deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.
—Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao approximar-se.
—Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.
—Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!
—Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho experiencia do mundo...
—Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que da sua parte houvesse para commigo egual affecto!
—Ha! Talvez mais...
—Oh! Não diga isso!—E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor crescente—É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem limites!...