—Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, em que esta ficou vencida por aquelle...

—Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha{104} a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!

—Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida inteira.

—É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!

—Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...

—Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!

E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.

—Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris as mãos tremulas d'ella.

—Acredito. Eu tambem o amo muito...

—Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!