Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.
E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da portaria que se fechava occultando{106} á exigua claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados—um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo lubrico.......
A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.
Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:
—O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, Joaquim?!
—Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos annunciando um paraiso de felicidades.
—Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de tamanha melancholia!
—Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa—a nossa casa!—d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.