E Maria Luiza?
Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo suavissimo da esperança.
Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies?
Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para ella d'um prazer indefinivel.
«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio para as mágoas que a affligiam.
E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de arrependimento.
Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando—á{109} tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.
Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.
Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.
E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de fausto...