Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso{110} da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e inexperiente d'este santo povo!

Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!

Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu futuro—o futuro de ambos!—risonho como o sol ao nascer, lindo e aromatico como um campo coberto de flôres.

E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da bocca d'um profeta.

—Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu João—Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle—que coração d'oiro!—acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração aquelle!

—É como o teu, João!

—É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!{111}

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Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que guardavam as ovelhas.

Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta em frente da sua janella.