Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro.
Nos mundos hospitaes, onde emfim a desgraça
Tem a consolação do agonisar de graça,
Santos, monstros, heroes,—Tropmans, Valgeans, Phrinés—
Anciavam no estertôr do tranze derradeiro,
—Lixo que um bonzo vae entregar a um coveiro

Para o calcar aos pés.

E era aquella immundicie humana a humanidade!
Tinha valido bem a pena na verdade
Pregado n'uma cruz morrer como um ladrão,
Para ao cabo de dois mil annos vir achar
Pilatos sob o throno e Caifaz sobre o altar
De diadema na fronte e baculo na mão!
Arrazou-se de pranto o olhar do Nazareno,
Aquelle olhar profundo, aquelle olhar sereno
Que outr'ora deu alivio a tantos corações,
E a linha virginal de seu perfil suave
Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave

[Das] nobres afflições.

E marmoreo, espectral, com a fronte sombria
Banhada no suor sangrento da agonia
Foi deitar-se outra vez na leiva tumular,
Athleta que expirou tranzido de mil dôres
E quer dormir, dormir entre as hervas e as flores
Onde escorre piedosa a branca luz do luar.
E quando a christandade á volta do meio dia
Correu ao templo a ver o entremez da Alleluia,
Em logar d'um Jesus banal de ciclorama

Subindo ao firmamento,

D'olhos azues n'um céu d'anil, tunica ao vento,
Sobre nuvens de gloria, de algodão em rama,
Viu-se na tela um Christo em furia, um visionario,
Truculento, febril, colerico, incendiario,
Como que um salteador fugido das galés,
Na bôca uma blasfemia e no olhar um archote,
Expulsando da egreja os christãos a chicote
E expulsando do altar o papa a pontapés!

A BARCA DE S. PEDRO

Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro,
São tantos os caixões com bulas da cruzada,
E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro,
O navio é tão velho e a carga é tão pesada;
Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas,
As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens,
As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas,
Os meninos do côro, os famulos, os pagens;
O macisso tropel de conegos vermelhos,
De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios,
E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos,
o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;
As pipas e os toneis com aguas milagrosas,
Que ainda causam hoje o mais profundo assombro;
Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas,
E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;
Esta orgia pagã, esta riqueza immensa
Atulham de tal forma a barca ultramontana,
É tão desenfreado o vento da descrença,
E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;
Que a barca do senhor, outr'ora dirigida
Por doze galileus descalços, quasi nus,
Ella que atravessava o grande mar da vida
Tendo só por farol os olhos de Jesus;
A barca que atravez do horror da tempestade,
Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança,
Levava os corações de toda a cristandade
Ao grande porto ideal da Bemaventurança;
Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo
Essa barca da Egreja, esse colosso antigo
Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo,
Indo dormir ao pé dos galeões de Vigo.

LADAINHA