A noite era sinistra. Os ventos a galope
Resfolegavam como as forjas d'um ciclope
Com uivos de alienado e rugidos de feras.
E o mar bramia ao longe athletico, espumante
Qual marmita profunda a ferver trovejante

Sobre cem mil crateras.

E Christo foi andando errante, vagabundo
Atravez dessa vasta imperatriz do mundo,
Opulenta Gomorra hidropica do vicio,
Que Deus não enxofrou talvez, como costuma,
Porque além de estar caro o enxofre, Deus em suma
Já não pode arruinar-se em fogos de artificio.
E elle ia vendo os mil palacios portentosos
Onde a besta feliz dormia, ebria de gosos,

Um inefavel somno.

Em quanto que a miseria anonima, esfaimada

Ás tres da madrugada

Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono.
As altas cathedraes, aonde a borguezia
Vai arrotar um pouco á missa do meio dia;
Tinham como que o ar d'um theatro fechado
O aspecto mercantil d'um armazem colosso,
Em que Deus ao balcão vende os dogmas por grosso

E o céo por atacado.

Os bancos, Pantagrueis do milhão, monumentos
De marmore e granito e bronze, somnolentos
Molochs, cuja pança obesa é um matadouro,
Na virtuosa paz de monstros em descanço

Digeriam de manso