Onde entre o tumultuar d'um debochado goso
Se fabrica de noite o sangue escrofuloso
Das raças libertinas.
Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus.
É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos,
Vêm n'esta direcção, esconde-te, Jesus!
Metamo-nos aqui n'um beco, anda ligeiro!
Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro,
Mandam-te pendurar segunda vez na cruz.
E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco,
E tu, meu pobre louco,
Descança inda que seja um breve quarto d'hora;
Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente,
É hoje a Alleluia, e necessariamente
Tens de resuscitar logo ao romper d'aurora.
Eu mais feliz que tu, simples mortal que sou,
Eu, meu amigo, vou
Dormir até que chegue a hora do jantar.
Adeus, e resuscita apenas surja o dia;
Se queres vem dormir á minha hospedaria,
Que eu mando-te acordar.»
E Arouet partiu, soltando uma cruel risada
E Jesus ficou só na noite desolada,
N'aquella colossal Babilonia impudente,
Entre quatro milhões do almas—quatro milhões
De tigres, do reptis, de abutres e de leões
Agachados na sombra ameaçadoramente!...
Quem a visse do alto essa Londres deserta
Com a fosforencia esmorecida, incerta
Da luz do gaz a arder sob um cèo tumular,
Julgaria estar vendo um grande monstro escuro,
Como que um Leviatham putrido n'um monturo
Immenso a fermentar.